Header Ads

COMING UP | Squid Game

Squid Game é o mais recente fenómeno mundial, e com muito mérito. Além de um texto extraordinariamente bem escrito que dá dez a zero às mecânicas ocidentais traz uma abordagem sociológica que merece a nossa atenção. Não é um simples jogo, é uma metáfora do quanto somos movidos pela influência, pelo dinheiro, tudo isto com personagens bem desenvolvidos e uma ação imprópria para cardíacos que nos deixa constantemente de coração nas mãos. Vamos falar disto e de muito mais na edição desta semana do Coming Up, onde embarcamos na onda e te mostramos como é bom surfar no mais recente sucesso da Netflix. 

Logo de início temos que louvar o contributo que a Netflix tem trazido ao mundo audiovisual. Não, esta não é uma publicidade gratuita, é mesmo um aplauso pela coragem de arriscarem em projetos de várias partes do mundo e contribuírem cada vez mais para uma descentralização do consumo americano cheio de vícios e fórmulas que muitas das vezes se repetem. 

Aqui em Squid Game temos a prova de que quando a história é forte e bem desenvolvida o público vai atrás, o melhor marketing é a criatividade, e tal como aconteceu com La Casa de PapelCidade Invisível ou Alice in Borderland, Squid Game é mais um exemplo de uma narrativa que nos agarra sem cair nos lugares comuns e que brinca com as nossas emoções de uma forma que não estamos habituados. 

É um transpor dos mangás mais negros e adultos, sem cair numa linguagem infantil, aliás bem pelo contrário, com personagens que não têm pena de sacrificar se isso significar que a trama vai sair beneficiada e enriquecida. 

E já que falamos de Alice in Borderland, podemos dizer que esta trama asiática é um dos percalços que Squid Game pode encontrar. Apesar da maioria do público estar a ter um primeiro contacto com Squid Game e só depois com Alice in Borderland, quem faz o percurso inverso já não parte numa total surpresa quando entra na história de Squid Game


As duas comungam de vários pontos comuns, sendo um deles a ousadia de em caso de necessidade matarem um personagem que é, supostamente, protagonista para manter o enredo vivo e nos dar a sensação que tudo pode acontecer. Esse treino prévio que o argumento de Alice in Borderland nos dá já não nos deixa com aquela sensação de surpresa total quando os primeiros jogos de Squid Game acabam com a vida de metade dos seus playersOu seja, à partida já não vamos ficar presos ao ecrã com a ideia de que Squid Game é um rasgo único de inspiração sem precedentes. 


Mas calma, porque apesar de esse ponto comum entre as duas séries, em Squid Game há uma mensagem sociológica muito mais vincada que acaba por a tornar mais adulta e para uma grande maioria do público até consegue ser melhor porque abre porta a discussões e teorias maiores. 


As primeiras questões que se levantam são: Até onde estaríamos dispostos a ir por dinheiro? A vida tem um preço? Serão aquelas pessoas tão danificadas ao ponto de não medirem as consequências dos seus atos? Depois passamos para uma segunda fase em que começamos a desconstruir as regras do jogo na esperança de encontrarmos soluções para que mais pessoas vivam, quase que num jogo de detetives. Mas, tal como em todas as boas séries, as respostas são, na sua larga maioria ao lado, o que diz muito sobre a criatividade dos autores e a ousadia que estão dispostos a colocar no seu argumento.



Enquanto nos debatemos com os problemas morais em torno dos players, a série dá-nos um banho de realidade e mostra-nos como a vida é crua, e como essa moralidade é colocada em cheque diariamente por uma humanidade onde companheirismo não é propriamente a melhor definição. 


Numa jogada um tanto ou quanto surpreendente, a trama retira os jogadores da ilha e envia-os de volta ao mundo normal. A partir daqui começa o inferno, tal como o nome do episódio indica, mas é, também, a melhor forma de tirarmos ilações. Aplica-se o velho ditado de “perdido por cem, perdido por mil”, entre não fazerem nada e continuarem a penar por reconquistarem uma posição na sociedade ou entrarem num jogo que pode realmente dar-lhes algo, a escolha para estes protagonistas é óbvia. Não que seja totalmente justificável, mas acaba por ser uma imposição da sociedade, que os força a libertarem os seus piores instintos. 


É claro que aqui as consequências dessa pressão social são drásticas, mas há aqui um paralelismo interessante que mostra que o sermos tóxicos uns com outros pode desencadear uma série de eventos dramáticos, em menor escala, é certo, mas igualmente graves. No fundo, Squid Game é uma história que no meio de uma ação grotesca nos tenta ensinar que o respeito é um principio básico para conseguirmos vencer, e para nos melhorarmos e superarmos dia após dia. 


Mas, regressando ao universo do jogo. O comeback liberta-os de dúvidas, e deixa de parte a perspetiva de que eles não são culpados por estarem naquela posição. Por mais que tenham, em alguns casos, motivos válidos para se arriscarem, o certo é que cada um deles se colocou naquela posição e por isso, apesar de até este ponto os protagonistas já terem um banho de humanidade e camadas que nos fazem importar-nos com o que lhes possa acontecer, não há espaço para sentirmos pena. Estão lá porque escolheram estar, sabiam ao que iam. É óbvio que ninguém que assista à série consegue manter esse pensamento frio, e que mesmo sabendo o quão errado é tudo o que se está a passar continuamos a torcer pelo sucesso de alguns. 


Contudo, voltando à parte inicial do nosso Coming Up, neste ponto da história temos a certeza de que em algum momento vamos assistir a uma versão do Jogo do Lobo de Alice In Borderland, e que metade ou perto disso, dos personagens que nos são “queridos” vão tornar-se casualidades desta história. E é precisamente isso que acontece com o jogo do berlinde. Não foi uma total surpresa, mas continuou a deixar-nos de coração nas mãos, enquanto obrigou todos a entenderem que estão num jogo e da mesma forma que encararam todos os outros que estavam à sua volta como oportunidades de ganharem dinheiro, as suas pessoas mais próximas são igualmente dinheiro em carne. 


Ou seja, por mais cru e dramático que seja, é o final poético de um ciclo que faz os personagens evoluírem e despirem-se da pouca humanidade que lhes resta até este ponto. A partir dali sim, tudo é, de facto possível. É a lei da sobrevivência, matar ou morrer. 



O facto de termos figuras tão diferentes como players é crucial para a leitura sociológica que a série nos quer apresentar. É como se dentro daquela situação limite se criasse uma sociedade de sobreviventes, onde todos têm o seu papel, a sua função. Mas como em qualquer sociedade, onde há a possibilidade de conquistarem ganhos, surgem cartas de influencia, corrupção, grupos organizados que tentam engolir os mais fracos, pessoas que coagem quem não os encara com o poder autoproclamado. 


E essa leitura é extraordinariamente interessante, por ser um espelho em menor escala daquilo a que assistimos diariamente nos noticiários e que é transversal a qualquer parte do mundo, a diferença aqui é que existem consequências imediatas, enquanto no mundo real, tudo demora algum tempo até revelar os seus efeitos. 


O arco que aborda a corrupção do sistema é, talvez, aquele que tem maior enredo novelístico, mas apesar disso, faz total sentido na abordagem filosófica que Squid Game nos traz. Ao mesmo tempo que nos dá a certeza de que toda aquela fortaleza é falível, e que há pontos que bem explorados podem deitar tudo a baixo como um castelo de cartas. Talvez nas entrelinhas existissem mais opções do que a morte, e talvez as próprias regras estejam a dizer isso aos seus jogadores. Afinal de contas, e tal como o final explica bem, tudo isto é sobre tornar a sociedade mais próxima. 


Há uma equação que não foi resolvida a tempo, como se os instintos tivessem falado mais alto que a lógica, mas que abrem caminho para se saber muito mais sobre a organização. Até porque não podemos esquecer, que tivemos uma série de convidados VIPs a aparecerem perto nos últimos capítulos, que são o gancho perfeito para uma segunda temporada.


Tal como acontece em produções como Hunger Games ou Death Race, por mais justos que pareçam os jogos, há sempre um grupo de influentes por detrás de tudo. Como se dentro de cada microcosmos existisse uma força quase Iluminati que se tornam regentes de qualquer sociedade. Aqui existe isso, como uma justificação para a quantidade de dinheiro envolvido, mas também para revelar que nem tudo limpo quanto querem fazer-nos acreditar. 


É um caminho para dar uma continuação que, quase de certeza, acabará por ser confirmada, mas que nos deixa com bastante medo. Se há algo de bom em projetos como Squid Game é o facto de não existir nenhum compromisso para produzir o que quer que seja em massa. O que dá um maior sentido e verdade ao que vemos. 


Se soubessem de antemão que a série ia ter todo este sucesso, certamente algumas das vitimas desta primeira temporada não teriam um fim tão precoce. E podemos até correr o risco de enfrentar a velha solução hollywoodiana de ressuscitar personagem que estão mortos e que já tiveram o seu auge dentro da trama apenas para servirem um propósito comercial e agradarem ao público mainstream


Medos à parte, a possibilidade de ver algo mais do universo que constrói aqueles jogos e de entender melhor cada detalhe daquela organização é algo que nos cativa e nos deixa empolgados. 


Enquanto nos debatemos com o medo de que estraguem algo que é muito bom, aproveitemos o embalo e vamos aventurar-nos em conteúdos diferentes, em ouvir vozes diferentes, e aproveitar para nos deixarmos surpreender por projetos sem nomes sonantes mas onde a criatividade às vezes é tão gigante quanto o número de seguidores dos atores famosos nas redes sociais. No final, o bom da história é precisamente isso, a história.