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Fantastic Entrevista – João Couto: "Devemos valorizar os artistas que estão a tentar fazer alguma coisa nova e fresca"

Foto: Dot Design / Direitos Reservados

Com lançamento marcado para o outono de 2021, o novo álbum de João Couto promete ser uma viragem na carreira do jovem artista de Vila Nova de Gaia. Os Meus Amigos, lançado em 2020, e o recém-estreado Massa do Meio-Dia são os dois primeiros singles deste novo trabalho. O cantor que está prestes a completar 26 anos, foi o vencedor do Ídolos em 2015 e, desde então, lançou um álbum intitulado Carta Aberta, participou no Festival da Canção 2019 e esteve ainda envolvido noutros projetos e parcerias com vários artistas. Nesta edição do Fantastic Entrevista, estamos à conversa com João Couto para falarmos sobre o seu percurso no mundo da música, com um foco especial no presente e no futuro do seu trabalho enquanto cantor e autor.

Acabas de lançar Massa do Meio-Dia, um tema que mantém o teu registo pop, mas com uma roupagem diferente daquela que ouvimos em Os Meus Amigos. Do que é que nos fala esta música?

A música surgiu quando eu estava a ver a série Community, no início de 2020. Era uma daquelas tardes em que eu não tinha nada marcado, estava a ver Netflix e a comer massa de um Tupperware. A história da série acompanha um grupo de amigos já adultos, com uma grande disparidade de idades e que têm aulas juntos. Num dos episódios da série, a escola fechou e na sala ficaram apenas duas personagens fechadas, o Jeff e a Britta. Às tantas a Britta pergunta: “Como é que vamos explicar isto ao Troy e ao Abed?”. E o Jeff diz: “Não te preocupes. Eles são da geração em que ser adulto só começa aos 30”. E aquela frase, da qual era suposto rir-me, fez-me levantar imediatamente, porque me identifiquei imenso com ela. Eu tenho 25 anos e sinto que a minha geração, em geral, está a viver uma espécie de segunda adolescência. O facto de não conseguirmos comprar uma casa, ou simplesmente de não conseguirmos fazer uma refeição sozinhos, a não ser o básico. Ainda por cima, como estou a trabalhar numa área artística, sinto que ainda estou a lidar muito com essas “dores de crescimento”. E foi assim que surgiu o mote para esta música. 

Então a letra do Massa do Meio-Dia acabou por ter uma inspiração direta nessa cena da série?

Sim, o refrão do Massa do Meio-Dia saiu-me durante essa cena. Comecei logo a cantarolá-lo. Essas duas personagens de Communuty estavam numa espécie de fase “Peter Pan” da vida delas, numa altura em que eram "trintonas". E do nada, o Jeff diz: “Queres casar? ‘Bora comprar uma casa que não conseguimos pagar, um cão que nos vai custar a aturar, ter uma marca favorita no supermercado…”. E aquilo foi uma espécie de clique. Por isso é que a letra do refrão é inspirada nessa cena. Depois de ter o refrão feito, foi começar a encontrar o resto da música. Na altura, quando comecei a ir para estúdio, achava que já tinha todos os singles do álbum feitos.  Mas um dia chego lá e viro-me para o Pedro Pode, o meu produtor, canto-lhe o refrão do Massa do Meio-Dia e ele diz: “Este é o melhor refrão que já fizeste”. E então voltei para casa e fiquei a pensar no que queria fazer com a letra. Depois ouve outras situações que me ajudaram a pensar no resto. Por exemplo, os almoços que passava sozinho a aquecer massa da Tupperware, ou quando à sexta-noite estava a comer esse tipo de refeições e passava-me pela cabeça ligar “a alguém” a sugerir ir para qualquer lado fazer uma “maluqueira qualquer”, como se fosse um chip que se liga com o objetivo de quebrar a monotonia. Eu acho que peguei nesta ideia e tornei-a numa coisa mais gloriosa, mais melodramática.

 

Nesta música, a letra do refrão surgiu em simultâneo com a melodia. O teu processo de criação costuma ser sempre assim, ou é algo mais fragmentado?

Não é necessariamente sempre assim. Eu sou muito de melodias e o que mais gosto é quando a letra e melodia vêm juntas. No caso do Massa do Meio-Dia, saíram-me juntas, mas muitas vezes a melodia surge primeiro, porque eu não muito de letras, não costumo ler assim tanto e preciso de mais tempo para trabalhar numa letra, sou muito exigente com elas. Depois de ter a melodia, vou então à procura de um conceito interessante para aquilo que quero contar. Nesta música, por exemplo, o conceito inicial foi a ideia de um rapaz que está sozinho em casa, à noite, a ver a massa a aquecer no micro-ondas, enquanto os amigos foram todos sair. Quando a música tem um conceito forte e uma melodia interessante, torna-se mais fácil chegar ao que nos propomos fazer.

Em que sentido é que a Massa do Meio-Dia é diferente daquilo a que estamos habituados a ouvir num tema pop?

Muitas das minhas músicas favoritas são as que pegam naquela que seria a estrutura habitual da pop e quebram-na completamente. O Green Light, da Lord, é um exemplo dessa ruptura. Lembro-me, por outro lado, do Max Martin, um dos maiores produtores de música pop dos últimos anos, ter dito numa entrevista que o Royals é uma canção mal escrita, porque o pré-refrão é a parte mais catchy e não o refrão. E nós aqui, com o Massa do Meio-Dia, quisemos fazer exatamente isso. Pensámos: “Vamos fazer a coisa cruel e dar a parte mais catchy da música no pré-refrão e esta nunca mais aparece”. Inicialmente, o processo foi meio cansativo, porque eu estava constantemente a desafiar-me, a tentar fazer com que tudo ficasse cada vez melhor. Mas quando ouvi o resultado final percebi que tinha valido a pena.

O videoclipe de "Massa do Meio-Dia" foi lançado no passado dia 7 de maio. Disseste que este era "a coisa mais ambiciosa e autêntica" que já fizeste até hoje. Depois de um barco à deriva em "Canção Só" e de uma solidão partilhada em "Os Meus Amigos", como foi criar o videoclipe deste novo tema?

Eu trabalhei este vídeo com o Kyle Sousa, que estudou comigo Som e Imagem, e com quem já tinha trabalhado no videoclipe de Os Meus Amigos. Nós temos gostos musicais muito semelhantes, assim como temos várias referências cinematográficas em comum. Quando pensei filmar Os Meus Amigos, eu tinha ideias visuais muito específicas, que queria muito que aparecessem, mas senti que tinha de ter alguém para trabalhar comigo. O processo foi tão divertido e a malta gostou tanto do resultado, que na altura dissemos logo que íamos fazer o próximo em conjunto. E começámos a pensar como poderíamos construir este conceito do videoclipe da Massa do Meio-Dia, que queríamos que fosse mais ambicioso.  Usámos câmaras diferentes, a direção de arte foi muito mais cuidada e há uma coreografia. Até eu danço, que é uma coisa que nunca faria num videoclipe. (risos) Eu tive aulas de dança, pedi a uma pessoa para coreografar o vídeo e fechámos uma rua para poder fazer um flashmob! Por outro lado, também quis citar alguns filmes muito importantes.

Podes dar-nos alguns exemplos dessas referências cinematográficas?

Eu queria muito que aparecesse uma referência ao Punch-Drunk Love, porque há uma cena no filme, que é logo a primeira, em que o Adam Sandler está a sair do trabalho e, do nada, aparece uma carrinha, que áara, a porta abre, deixam um piano na rua, fecham a carrinha e vão-se logo embora, sem explicação nenhuma. E ele fica estupefacto, sem saber o que fazer com aquilo, então vai embora e leva o piano consigo. E este início de filme é tão bom, tão surreal, que nós decidimos recriar, literalmente, essa cena no videoclipe do Massa do Meio-Dia. E depois no final temos uma referência ao Say Anything, um filme que foi muito marcante para mim este ano, em particular a música que está a tocar na boombox que o John Cusack está a segurar, o In Your Eyes. Neste sentido, acho que o videoclipe acaba por ser mais ambicioso, porque nos obrigou a fechar ruas e a procurar sítios muito particulares para filmar cenas muito específicas, nomeadamente as cenas interiores. Existem mais referências no vídeo, algumas vocês vão ter que descobrir, mas o mais importante é que é tudo muito autêntico e eu sei porque é que quis tê-las ali. Eu tinha as ideias base, o Kyle pegava nelas, criava uma linha narrativa e realizava o vídeo, tal como fez com Os Meus Amigos.

Foto: Dot Design / Direitos Reservados

O teu processo de criação musical passa muito pela experimentação, é muito comum partilhares na internet alguns vídeos onde te vemos no teu estúdio, em casa, a criar. Como é que foi o processo de criação deste disco?

Quando comecei a preparar este disco, estava sem editora e sem agenciamento. Houve ali um momento, ao início, em que estava incrivelmente amedrontado porque não tinha aquela rede habitual. Mas uns dias depois percebi: “Ok, tenho aqui uma oportunidade única para fazer aquilo que me apetece a nível criativo”. Na altura do Festival da Canção eu já falava com o Pedro Pode sobre o facto de querer trabalhar com ele. E ele foi a pessoa que me abriu a porta do seu estúdio, enquanto todas as outras portas se fechavam, por isso este disco não existia sem ele. Na altura, já tinha algumas músicas prontas e, quando visitei o estúdio do Pedro, começámos logo a perceber o rumo que queria tomar, porque havia músicas que estavam a puxar para uma direção diferente e fresca, como é o caso de Os Meus Amigos. Tive de excluir aquelas que me estavam a puxar “para trás”, a puxar para aquilo que eu era anteriormente. Houve muita coisa que não fiz no primeiro álbum porque havia certos instrumentos que nem sequer entravam no estúdio. E aqui tive essa liberdade. Por norma, quando tenho uma ideia para uma música já estou muito decidido em relação ao mood da música. Com o Massa do Meio-Dia, por exemplo, isso não aconteceu, mas foi uma exceção. No caso deste álbum, eu chegava ao estúdio com as músicas já feitas e debati-as com o Pedro, porque eu gosto muito deste esquema, o da partilha entre artista e produtor, em que é possível debater o que está bom e o que se pode alterar para melhorar.

Os teus gostos musicais influenciam muito o teu processo criativo?

Eu tenho gostos musicais muito dentro do pop, mas também tenho outros um bocado mais fora, que ficam na periferia do que é pop. E sinto que essa parte de mim não estava presente no meu primeiro álbum. Este disco foi um conciliar das duas coisas. Há muitas pessoas que me associam muito mais ao cantautor sensível, de guitarra no colo, algo que não censuro porque foi essa imagem que eu passei na altura. Mas eu sou muito mais do que isso. Eu sou aquele tipo que está a conduzir às duas da manhã, está a dar dance music na rádio e eu estou a ouvir super alto e a dançar. Assim como oiço hip hop, entre tantos outros géneros. E como isso não estava presente na minha música, achei que já estava mais do que na altura. Eu posso dar um exemplo de uma influência do hip hop no Massa do Meio-Dia, que é a mistura da bateria. Nós tratámo-la como se fosse um sample para um beat de hip hop. O meu baterista gravou apenas a batida, não gravou com a música, e depois nós processámos e montámos aquilo como se tivéssemos destacado de um vinil.

Os Meus Amigos foi o primeiro single do teu novo álbum. A música saiu em 2020 e marcou o teu regresso aos originais, com um tema pop, descontraído, diferente do que tinhas feito até então, mas que nos fala de relações de amizade, dos altos e baixos da vida de um artista e das comparações que muitas vezes fazemos com os nossos amigos, até mesmo nas redes sociais e que nos levam a determinadas frustrações. De que forma é que este tema é um reflexo da tua vida pessoal e profissional?

As pessoas que trabalham em áreas criativas, como é o caso da música, têm picos de muito trabalho e outros de muito pouco trabalho. Os Meus Amigos surgiu em 2019, precisamente depois de todo o alvoroço que eu tive com a minha participação no Festival da Canção e, logo a seguir, ouve um pico de muito pouco trabalho de forma repentina. Isto aconteceu no verão, numa altura em que muitos dos meus amigos começavam a ir de férias, outros estavam a começar a planear ir estudar para fora e, quando olhava para a minha lista de contactos percebia que não havia ninguém para ir beber café. Havia alturas em que a meio da semana eu ia às redes sociais e via fotografias de amigos meus nas Maldivas, por exemplo, e pensava: “Mas o que é que este gajo está a fazer nas Maldivas a uma quarta-feira?”. (risos) E claro, uma pessoa não pode confiar a 100% nas redes sociais, porque nós sabemos que as pessoas não mostram tudo, a parte aborrecida da vida não aparece lá. Então a música surgiu deste estado de espírito. Os Meus Amigos parte muito daquela sensação de tu ires a uma festa, um amigo teu chegar ao pé de ti e perguntar: “Então, ‘tá tudo?” e tu respondes: “Tá…”. Mas na tua cabeça tu ficas a pensar: “Não, não está…”.

Foto: Dot Design / Direitos Reservados

Os Meus Amigos foi uma das canções finalistas da votação Melhor Música Portuguesa 2020, lançada pelo Fantastic. Como olhas para este tipo de distinções?

Obviamente que fico muito contente e lisonjeado sempre que tenho uma crítica positiva, principalmente vinda dos media e da malta que reporta música e entretenimento, porque normalmente estão mais atentos a estes pormenores, desde a forma como eu promovo o meu trabalho até à mudança que tem existido em relação ao meu trabalho anterior, por exemplo. Para mim, estas distinções são incrivelmente positivas, porque eu trabalho, acima de tudo, para que estas músicas sejam “fixes de ouvir”, que sejam catchy, mas que também façam as pessoas pensarem um bocadinho, não quero ficar na cabeça delas só por ficar. E quando isso chega aos outros e o meu trabalho é reconhecido, isso dá-me força para continuar e perceber que este é o caminho que tenho de seguir.

A tua música foi a sexta mais votada pelo público, entre 30 canções a concurso. Este resultado foi importante?

Quando eu olho para uma lista como a da #MMP2020 do Fantastic e vejo que estão ali artistas de todas as dimensões, com géneros muito diferentes e com todo o tipo de background, fico muito feliz. Na mesma lista, existem artistas que têm uma maior visibilidade e meios de promoção e depois existem aqueles que são os chamados artistas independentes. E como estão todos a competir ao mesmo nível, acho que isso é mesmo muito saudável. Não são muitos os sítios que dão este espaço aos artistas com uma sonoridade mais alternativa e até instrumental, onde podem competir com artistas e bandas que já estão a tocar nas rádios há muito mais tempo. Nos media grandes, e na televisão em particular, há muita essa divisão, os critérios são diferentes. É por isso que eu valorizo muito o trabalho dos media independentes, como é o caso do Fantastic, em que o que importa verdadeiramente é divulgar o que tem qualidade e é interessante.

O lançamento do teu novo álbum está previsto o outono de 2021. O que podemos esperar do teu novo disco?

Eu sinto que este é um disco onde eu uno as minhas ambições pop e todos os meus gostos mais idiossincráticos. Senti uma necessidade grande de citar muitas das minhas influências atuais, sobretudo aquelas que acabam por fazer uma pop mais experimentalista. Porque eu acho que a música pop atualmente está a viver uma fase mesmo fixe. Temos por exemplo a Billie Elish ou a Olivia Rodrigo, que mesmo na esfera do mainstream estão a fazer músicas muito interessantes, tanto a nível de produção como a nível de letras. Na altura em que estava a produzir o álbum, andava a ouvir imenso o trabalho das Haim e dos Vampire Weekend, que são exemplos de artistas que ouvem todo o tipo de música e conseguem meter isso tudo no mesmo projeto. Há muitas coisas no meu álbum que vêm daquilo que eu oiço. O disco tem influência de pop de câmara, pop africana, música disco, dance music, entre outros. Há muito mais groove, há mais funky, e acho que é um disco que acaba por ser muito mais autêntico. Por outro lado, por uma questão de necessidade – e por opção artística – eu toco grande parte dos instrumentos do álbum, porque não foi possível gravar com a minha banda como gostaria, devido à pandemia. Tivemos o cuidado de ter o número estritamente necessário de pessoas no estúdio quando gravávamos. Se há coisa que eu quero que o público note neste disco é uma liberdade artística e musical autêntica. O Massa do Meio-Dia acho que é uma boa canção-bandeira neste sentido.

Tens saudades dos concertos ao vivo? Já tens alguma previsão de quando te poderemos ver num palco?

Para já ainda não existem datas, estamos a aguardar pela evolução da pandemia. Mas estou muito expectante para ver a reação das pessoas ao vivo, quando estiverem a ouvir este meu novo trabalho. Eu gostava imenso de fazer uma apresentação quando o álbum fosse lançado, como é óbvio. Para já, vou focar-me em partilhar música à distância, sem sentir aquela pressão de encher uma sala. Só tenho de me preocupar em fazer uma cena fixe e que o pessoal goste. E talvez o meu único medo é questionar-me se haverá espaço para todos os novos artistas e projetos musicais que estão a surgir agora, quando as coisas voltarem a abrir. Porque estes novos artistas estão numa situação muito ingrata, uma vez que um álbum tem vários meses de preparação, depois têm de pensar em lança-lo, promovê-lo e apresenta-lo ao vivo. E de repente, não puderam tocar porque estava tudo fechado e tiveram de dar a volta de outra maneira. E falando como público, não nos podemos esquecer disso, devemos valorizar a coragem dos artistas que estão a tentar fazer alguma coisa nova e fresca, apesar de todas as condicionantes.

Foto: Dot Design / Direitos Reservados

Na tua nova música, podemos ouvir-te dizer logo no início que "há um mundo a chamar lá fora". Também estás "pronto a explodir" musicalmente? O que é que te falta fazer enquanto artista?

Tanta coisa! Eu tenho um lema de vida que passa pela seguinte ideia: os Beatles fizeram o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band aos 27 anos, por isso eu ainda tenho até aí para fazer o meu Sgt. Pepper’s. (risos) Eu já tenho 25, vou fazer 26 este ano, por isso se este meu álbum não o for, estou muito perto de o conseguir. Mas sim, ainda há muita coisa que quero fazer. Neste momento, como estou a lançar os singles e estou numa fase de divulgação e promoção, estou a aprender o que é ser editor, o que é eu assumir esta parte burocrática e ser a minha própria editora. Mas quando esta parte estiver concluída, estou ansioso para voltar a escrever músicas, para mim e para outras pessoas. Também estou muito entusiasmado com produção e quero mesmo voltar ao estúdio. E quero colaborar com mais artistas portugueses, conhecer mais pessoal e mais estúdios. Espero que em 2022 tenha hipótese de tocar ao vivo este disco, se a pandemia permitir. E apercebi-me, nos últimos tempos, que quero continuar a fazer videoclipes. Até agora produzi apenas para mim, mas gostava muito de produzir um videoclipe para outra pessoa, porque é muito divertido, exige uma grande capacidade criativa.

De alguma forma, o João Couto de 2015, que venceu o Ídolos aos 19 anos, influenciou o João Couto de 2020 que produziu este novo álbum?

Sim, sem dúvida. Porque se não fosse por aquilo que aconteceu ao João Couto de 2015, o João de 2020 não tinha o material que teve para escrever. Se não fosse pela grande mudança de vida que tive desse momento em diante, acho que muita coisa teria sido diferente. Apesar de tudo, eu sinto-me incrivelmente privilegiado por poder fazer música e ir trabalhando nela, sem nunca esquecer que é um trabalho muito metódico e que exige responsabilidade. Este trabalho novo nunca teria acontecido se não fossem todas as experiências anteriores, por todos os “sim” e por todos os “não” que ouvi. Como tivemos grande parte do nosso ano confinados, eu pude ser mais introspectivo, olhar para trás e fazer um balanço de muitas coisas. E foi incrivelmente saudável fazer uma retrospectiva disso tudo, fez-me perceber qual era o caminho que eu tinha de seguir daí para a frente. Sinto que estou a andar em contramão, estou a fazer muitas coisas que talvez não estivesse à espera de fazer agora e isso é bom.

O que é que tem sido diferente daquilo que imaginaste anteriormente?

Quando entramos na indústria da música, trazemos algumas expectativas e ideias do tempo em que éramos miúdos. Eu cresci a ver MTV, a viver num mundo em que era muito importante ter um videoclipe que passasse lá, assim como era fundamental ter um disco à venda na FNAC. E agora vivo numa geração em que isso parece que não é importante. Sempre que eu tenho essas “pequenas vitórias”, fico muito feliz, mas não há muita gente que valorize isto hoje em dia. Então tenho que reconsiderar isso tudo. Eu sou um romântico a nível da música e não quero largar isso, porque eu sou um artista de álbum, foi a essa conclusão a que cheguei. Ao mesmo tempo, preciso de conviver com a forma como as coisas mudaram. E estou a tentar fazer tudo da melhor maneira que consigo. Mas sim, se não fosse o João de 2015, em 2020 não tinha oportunidade de viver disto. Agora estou ansioso para ver o que é que o futuro me reserva.

Fantastic Entrevista - João Couto
Por André Pereira
maio de 2021