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Contos Bastardos • "Última sessão"


Última sessão

É noite de estreia. A fila estende-se pela rua acima- ainda além da relojoaria e do talho, já fechados a esta hora.

Estas quintas-feiras cheiram a pipocas doces e salgadas, a bolsas de couro com cordões abertos para pagar a sessão da família, aos cigarros de quem aguarda a vez para a bilheteira.

As comédias enchem sempre sessões - são como os peixinhos da horta, que esgotam a cantina da escola quando aparecem na ementa.

É hora de entrar e sentar, silêncio ainda não se faz e o escuro atrapalha a logística das filas com letras e números - o “está no meu assento, com licença”, o passa-as-pipocas, o corropio de quem encolhe joelhos para deixar passar o vizinho ou se levanta por ter pernas e joelhos demasiado compridos para serem encolhidos na cadeira.

Escolhi um lugar traseiro. O título no ecrã é Poder da Noite. Tanto pode ser um romance erótico como um filme de tiros, bombas e murros nas trombas, como diz o avô. Não interessa, para o que é bacalhau basta, que é como quem diz que para o que vim qualquer cassete serve.

As lâmpadas apagam-se.
O feixe de luz aparece, vindo da cabine de projeção.
A fita já roda.

Daqui vejo-o bem. Não o filme, que esse pouco me importa - o operador, que faz a plateia sonhar durante hora e meia mas a mim me leva sem dormir desde que o calhei a mirar de soslaio, faz hoje três semanas.

Tiro da mochila o papel onde escrevi o telefone de casa e a hora a que deve ligar - não fosse a mãezinha topar estas indecências. Colo-o no vidro que nos separa e saio da sala.

Noto que o filme se engasgou - um soluço de segundos, mas eu reparei.

Quem sabe não tenha de esperar pela próxima quinta-feira.
 

Texto: Sónia Costa 
Ilustração: Filipa Contente