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COMING UP | She Hulk

É sobre ignorar o elefante na sala. Entre críticas e ilações precipitadas, She Hulk chega envolta em controvérsia ao catálogo do Disney+. Com prego a fundo na comédia, a nova série da Marvel é um prato cheio de gargalhadas que nos conquista à primeira vista e que consegue com um argumento inteligente fazer com que o nosso cérebro ignore as falhas técnicas. 

Com um primeiro capítulo bastante positivo que nos deixa com a pulga atrás da orelha para saber mais, She Hulk não vai agradar a todos, mas promete ser uma daquelas produções da Marvel que consegue reunir grupos que não necessariamente sejam aficionados do Universo Cinematográfico da Marvel. 

Falamos disto e de muito mais na edição desta semana do Coming Up. Controla as emoções e fica connosco nesta apresentação sobre a mais recente vingadora do streaming do Mickey Mouse. 

É interessante começarmos por esse ponto em defini-la como heroína porque esse é o mote principal do primeiro episódio. Saltando algumas etapas e resolvendo de forma simples questões fundamentais como a origem dos poderes de Jennifer Walters, a trama acaba por colocar a personagem num arco um tanto ou quanto clichê, mas que casa perfeitamente com a personalidade desta advogada. 

Ela pertence àquele grupo distinto de pessoas que se tornam Avengers sem querer e que se pudessem reverter as suas habilidades para voltarem a ser “normais” fá-lo-iam sem pestanejar. 

Partindo desse ponto, a história de She Hulk desenrola-se de forma curiosa com Jennifer a defender algo novo dentro deste universo, mostrando que nem tudo é sobre super-heróis e que muitas das vezes os atos heroicos são feitos por cidadãos comuns. 


É certo que tal como Bruce lhe diz, as ações de defensores da justiça como Jennifer Walters não têm um impacto tão grande quanto as dos super-heróis que erradicam o mal da Terra, mas ainda assim, Jennifer mantém-se firme com a sua verdade, e com ela, mesmo entre piadas, acaba por trazer um senso de realismo para esta história. 


Por mais que estejamos a falar de uma saga cinematográfica fantasiosa, o MCU tenta a todo o custo, tal como acontece nas Bandas Desenhadas, cruzar a linha entre a fantasia e o mundo real construindo as suas histórias com a perspetiva de como seria o real desenrolar dos eventos caso aquelas ações acontecessem no mundo real. Com She Hulk parece que essa vontade foi novamente tida em conta e para já promete funcionar. 


Jennifer é uma advogada comum, bem-disposta, que claramente chega com o objetivo de dominar um mundo onde aparentemente quem manda são os homens, e esse peso de responsabilidade da mensagem da série não é passado em claro com o argumento a utilizar o bom humor para carregar a tecla do feminismo sem escorregar no drama que colocaria camadas desnecessárias na personagem e que a iam colocar numa posição muito mais polémica. 


É a isto que nos referimos quando dizemos que este é um argumento inteligente, porque os autores sabem exatamente o potencial social que têm em mãos, e sem o ignorar acabam por o encaixar na história da série sem perderem a proposta de fazerem algo bem-humorado. 



Chegamos ao treinamento, logo depois de Tatiana Maslany quebrar a quarta parede pela primeira vez, e aqui há uma leitura engraçada que precisa de ser feita. Quando contamos um episódio de algo que nos tenha acontecido, seja qual for a situação, tendemos a colocar-nos numa posição onde tudo nos correu de feição. 


Talvez tenha sido isso que Jennifer Walters fez quando nos apresentou a sua origem como She Hulk. Por mais que por detrás esteja a tentativa, bem conseguida, da história mostrar que esta é uma série que vai enaltecer o sexo feminino, podemos entender também que Jennifer enalteceu o seu percurso de aprendizagem para provar que ela, de facto, é boa em tudo aquilo que se envolve. 


À parte disso, todas as conversas entre Bruce e Jennifer são regadas de uma comédia que agrada, que apesar de básica lembra muito o tipo de piada que encontramos em marcas de sucesso como Modern FamilyThe Big Bang Theory e outras que tais. 


Convenhamos que quando temos linhas de comparação como estas na nossa cabeça quando vemos She Hulk mostra que à partida o trabalho está bem feito, e que o objetivo da série nos divertir e trazer o modelo sitcom para dentro da Marvel resultou. É certo que ainda estamos no capítulo inicial, mas ter à partida estas referências já coloca She Hulk numa posição melhor que as anteriores Ms. MarvelHawkeye e Moon Knight que demoraram muito mais a conquistar o nosso afeto.


Ainda sobre o humor da série, é interessante ver como She Hulk trabalha o Hulk como personagem de uma forma que ainda não tínhamos visto no MCU. Sabemos que ele é divertido, que ele consegue reunir inteligência e bom humor, contudo nunca tínhamos visto nada além de meros apontamentos. 


Aqui ele finalmente teve espaço de ecrã para se divertir enquanto percebemos mais e mais capacidades dele que ainda não tínhamos visto nos filmes. A verdade é que apesar dele nos ser constantemente descrito como um ser super poderoso que é capaz de esmagar qualquer coisa, sentimos até este momento que o Hulk das longas-metragens foi vítima de nerf em relação ao material original das Bandas Desenhas. 


Além de ser divertido e essencial percebermos a dimensão dos poderes dele de uma forma não antes vista no MCU, isto ajuda a que consigamos construir uma escala de poder para encaixar melhor She Hulk dentro deste mundo e perceber em que ponto é essencial que ela se junte ao grupo de Avengers


Porque se um Hulk já foi fundamental durante toda a saga do infinito, então o que dizer sobre dois agora que uma ameaça maior promete colocar tudo em causa? Ou seja, enquanto se fazem fan services consegue-se avançar na história, com a Marvel, mais uma vez a dar uma aula sobre como fazer o material das Bandas Desenhadas ser valorizado e potenciado. 



Mas não podemos ignorar, dentro de todos estes aspetos positivos, a grande controvérsia que envolve a série: o CGI. Sim, é certo que melhorou desde o primeiro trailer onde muitos vaticinaram a morte trágica de um produto que nem tão pouco tinha visto a luz do dia, mas ainda assim, a imagem de She Hulk passa longe da credibilidade que construíram com o Hulk de Mark Ruffalo. 


Ou seja, a Marvel acaba por ser vítima da própria fasquia que levantou, e em vários momentos She Hulk parece um boneco de um jogo de PlayStation. Incomoda em cena em que divida o ecrã com o Hulk porque o contraste é gigantesco, mas para aqueles que cresceram com séries da CW, efeitos visuais mal acabados são o menor dos nossos problemas, e aqui é um claro exemplo sobre como é importante ter uma trama robusta que consiga estar à prova de qualquer edição menos bem conseguida. 


She Hulk é um dos raros exemplos da Marvel que não se torna refém do lado pirotécnico e isso mostra o potencial da série, agregando isso a uma interpretação imaculada de Tatiana Maslany que foi, simplesmente, o casting perfeito para a proposta do papel. 


Ela já tinha conquistado o público nerd com Orphan Black e aqui reforça esse laço abraçando a personalidade que quem é fã de BDs já reconhece em Jennifer Walters e tornando-a em algo natural. 


Isto sem ignorarmos que a contracena dela com Mark Ruffalo puxa o melhor tempo de comédia dos dois atores e é um prato cheio de se assistir.


Mesmo com o selo de série B, She Hulk enche-nos muito mais as medidas do que as mais recentes antecessoras. Além de divertida e bem-disposta parece estar disponível para resolver questões de forma rápida e inteligente sem perder grande tempo com explicações profundas, mas sem ignorar a necessidade de dar justificações aos fãs. 


O ritmo e o tempo de episódios estão no ponto certo para nos deixarem colados ao ecrã do primeiro ao último segundo, num argumento que já deixa antever que será carimbado com a eterna luta entre os heróis que estão no campo de batalha e os heróis de secretária. 


Esperemos que a série explore mais o tempo de advogada de Jennifer Walters porque é uma brecha incrível para apresentar o lado mais urbano da Marvel, além de ajudar a tornar tudo ainda mais credível. 


O primeiro impacto da personagem, sobretudo no requisito do humor, foi concluído com sucesso e deixa-nos com a pulga atrás da orelha para entendermos como é que vão conseguir construir um híbrido entre fantasia e realidade sem a desconectarem por completo. 


Será que teremos uma luta entre Jennifer e Matt Murdock por vir? Mas uma luta em tribunal longe dos fatos super trabalhados? Esperemos que sim, porque as expectativas para a junção dos dois estão bem lá no alto. 


São nove semanas, mais episódios que os das últimas séries do Disney+ e isso dá-lhes margem para uma melhor exploração e apresentação dos personagens. Esperemos que este primeiro episódio seja só um aperitivo para algo ainda mais surpreendente. Contamos com isso!