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COMING UP | King Richard

Nas películas de Hollywood estamos habituados a ouvir falar de sonhos em narrativas idílicas onde até o Céu é palpável para um mísero humano, aquilo que ouvimos falar pouco é sobre um dos principais ingredientes para que o sonho se torne real: A perseverança. King Richard é a parábola de um pai herói, que se fez herói numa vida que o maltratou e no final a história dele é a chapada de luva branca que muitos precisam de sentir na pele. 

O cinema é uma mina com algumas armadilhas pelo caminho, mas quando encontram ouro, filmes como King Richard surgem e provam que maior e melhor que qualquer história fabricada, as melhores tramas estão entre nós com a realidade a servir-lhes de palco. 

Sem uma grandiosidade imposta a sua transcrição de uma realidade onde o afeto e o trabalho têm frutos, com o embalo de conhecermos o futuro de sucesso que daí advém, King Richard cumpre tudo aquilo a que se propõe e no final ainda consegue emocionar-nos e fazer-nos torcer por um jogo que já foi finalizado há anos. 

É de todas estas sensações que te falamos em mais um Coming Up dedicado aos nomeados a Melhor Filme nos Oscars de 2022. Fica connosco, prometemos que este é mais um dos que vale a pena! 

Seguindo o exemplo de Ford v FerrariKing Richard é uma daquelas longas-metragens que fazem com o nosso instinto desportivo se apodere de nós e nos faça quer saber mais sobre algo pelo qual nunca tivemos um interesse por aí além. É que a adrenalina que King Richard imprime nas cenas, sobretudo no jogo que encerra o filme, é tão realista que nos coloca na plateia e faz de nós fãs histéricos. 

Mas, na mesma medida em que nos conduz nessa viagem de adrenalina ao mundo do ténis, King Richard vai massajando o nosso coração numa história incrível e bem pés na Terra sobre superação. 


Richard Williams é uma fonte de inspiração que merece realmente um biopic, mas há um dado diferente nesta história que a torna mais interessante, a forma como apresentam as dificuldades pelas quais ele passa na vida não são estabelecidas como se ele fosse um coitado. 


As cordas com que se amarra o filme são logo estruturaras a partir do primeiro confronto, em que vemos o protagonista numa atitude mais passiva mas que não sai ileso de culpas, porque afinal ele é humano e tem falhas. 


Mas é quando se dá o segundo assalto contra ele que vemos como ele se consegue impor, como também é violento, e não é pouco, quando o obrigam a isso. É certo que é tudo muito velado e colocado com pinças para não destruir a imagem de herói que estão a fazer dele mas não deixa de ser ponto que é, e bem, tocado. 


À parte da violência, temos o retrato de um homem extremamente focado, com muitos sonhos, mas que mais do que sonhos tem objetivos e está disposto a tudo para os conseguir porque a sorte faz-se com trabalho esperando que o universo em algum momento retribua esse esforço. 


Ou seja, no fundo, este é um filme que fala em muito mais do que sonhos, mas fala sim sobre a capacidade que nós temos para construir metas, para nos propormos a objetivos e como as nossas origens não podem ser um limite para tudo, sobretudo quando a dedicação constrói o talento. 


Enquanto isso apresenta e introduz um pouco a génese daquelas que são até hoje duas das maiores desportistas do mundo, ainda consegue ter arcaboiço para entregar uma história com valores morais que vão connosco para lá da experiência de ver King Richard, o que é, só por si algo digno de nota.



Porém enquanto esta espécie de parábola é desenhada de uma forma segura e com as mensagens certas no sitio certo e bem embrulhada num argumento que tem tudo para o tornar em mais um drama familiar de sucesso, há alguns factos verídicos que são um pouco mais controversos do que aquilo que esta película quer deixar parecer. 


A desvantagem desta ser uma história real prende-se apenas com a impossibilidade do argumento explorar discussões para lá do que são os factos, daquilo que realmente aconteceu na timeline da vida de Richard Williams. Sobretudo quando o comportamento do protagonista pode ter algo de polémico que merecia uma maior exploração e discussão dentro do filme. 


Apesar da longa-metragem embelezar um pouco as coisas estamos a falar de um pai que projetou toda a vida das filhas antes mesmo de nascerem cortando-lhes algum livre arbítrio. 


Neste caso em específico todo esse plano parece ter dado muito certo e a visão de Richard foi exímia, mas será saudável? E não seria importante o filme ter abordado o quão duro é ter as expectativas e sonhos dos progenitores depositadas nos filhos? Faltou essa linha de raciocínio nos diálogos do filme. 


É certo que elas já foram incutidas a amar a realidade do desporto, que tudo se tornou num grande projeto de família e por isso um pouco mais divertido do que simplesmente um trabalho. Mas apesar de nós que estamos a assistir ao filme conseguirmos tirar essas ilações, é um pouco estranho se pensarmos que existia um peso e uma pressão em cima delas e que em momento algum elas não tenham soltado um grito do Ipiranga. Porque se isso, de facto, nunca aconteceu, então há um segredo na educação que Richard deu às filhas que muitos pais vão querer saber.


Sem olharmos para lá do que está no filme e pensarmos em detalhes mais profundos da relação entre Richard e a sua família, o que é certo é que esta é uma obra familiar que resiste ao peso dos biopics que querem contar a vida dos seus protagonistas de uma forma tão vivida que a passagem do tempo se torna notória e altamente demorada. 


Pelo contrário, King Richard aguenta bastante bem as suas longas duas horas e meia, com a narrativa que vai tendo os plot twists certos e que se foca muito mais nos momentos de acertos do que em explorar os pontos baixos da vida do protagonista, deixando tudo com uma atmosfera muito mais feliz e que o tornam muito mais apelativo. 


Sentimo-nos, realmente, como espectadores daquela realidade, como se estivéssemos a ver pela janela a vida daquela família e a absorver cada segundo ficando feliz por cada degrau que sobem. Isto porque a empatia está lá logo desde o início, com uma proximidade gigantesca que mantém credível o contexto ao mesmo tempo que separa o trigo do joio e só nos contam os detalhes que valem a pena ser ouvidos. 


Até porque, lá no fundo, Richard e Brandy são um casal tão típico que poderíamos realmente estar a ver uma película sobre a vida dos nossos vizinhos com todas as suas discussões e o amor que cura tudo. É por isso que no meio do filme, a denúncia sobre possíveis mãos tratos de Richard com as suas filhas nos custa ouvir, sofremos com ele, sobretudo por termos um contexto social que nos diz que apesar de ser questionável a ausência de liberdade ele está a fazer por elas aquilo que muitos pais deveriam fazer pelos seus filhos: Trabalhar em conjunto pelo seu futuro.  



Mas já que falamos do personagem temos de referir o ator que lhe veste a pele. Sentimento é a palavra que melhor define Will Smith como ator, porque do personagem mais mainstream ao homem com inspirações reais ele entrega sempre figuras com vida, com emoções e sentimentos que nos tocam com uma sensibilidade incrível que é impossível tornar cada interpretação dele em algo indiferente. 


Neste projeto voltamos a ter o Will Smith que nos apaixonou em The Pursuit of Happyness ou Seven Pounds mas sem o peso dramático que nos faz chorar um rio inteiro. Vemos o mesmo Will Smith destes dramas na paixão, na sensibilidade e na verdade, mas também temos laivos do Will Smith bem disposto que sabe brincar, que sabe divertir e que sabe balançar majestosamente o drama e a comédia. 


É uma interpretação muito completa, que não é um surpresa vindo dele mas que reforça o quão multifacetado ele é, e que mesmo com a sua forma muito expressiva de se entregar às personagens, conseguiu fazer diferente nesta leitura de Richard Williams. 


É mais um ponto alto da sua carreira, numa interpretação que o coloca como o grande competidor de Benedict Cumberbatch num drama que será mais facilmente revisitado que The Power of the Dog, dada a sua trama mais linear. 


É o melhor papel da carreira de Will Smith? Talvez tenha sido aquele que mais talento mostrou do ator, mas estamos a falar de um Will Smith que consegue tornar memorável qualquer personagem quando lhe é dada essa chance. 


Esta indicação tem tudo para ser um bom aperitivo para um papel ainda mais notável e desafiante no futuro que lhe dará, com muito mais mérito um Oscar. Até porque convenhamos que, apesar das biografias serem sempre um caminho querido para chegar ao Oscar de Melhor Ator, este Richard Williams não obrigou a uma reinvenção tão grande nem a percursos mais ousados da arte dramatúrgica. 


King Richard é um daqueles filmes de culto para ter entre a coleção de obras de relevo dos Oscars. Ganha pela sua humanidade, pela perceção dos nos colocar dentro da história e por nos fazer torcer pelas vitórias de Serena e Venus. 


Lucra por ter uma escrita que é fácil e que toca todos sem precisar de cair em clichês e por ter um Will Smith a servir de íman para nos deixar rendidos desde o primeiro minuto. 


É uma boa aula sobre o desporto, aula essa que nos faz querer ver mais e que nos faz ter ainda mais respeito pelo trabalho dos atletas, enquanto mostra mais um retrato diferente do que é ser uma família. 


Porém, há questões embelezadas e caminhos polidos pelo texto e pela produção, mas nada que manche a sua credibilidade e que o torne desmerecendo das suas seis indicações, todas elas bastante merecidas, e sobretudo em todas as categorias em que de facto o filme deveria estar indicado. 


Este é um daqueles casos raros em que podemos dizer que a Academia foi justa com o trabalho que tinha à sua frente. 


Will Smith tem cinquenta por cento de chances de fazer o nome desta longa-metragem ecoar no Dolby Theater num corrida ao Oscar que ganha cada vez mais suporte pelas suas vitórias recentes apesar de não ser o favorito na categoria a priori, o que em nada retira o mérito à sua justa indicação assim como a da sua parelha Aunjanue Ellis que apesar de garantidamente não levar nenhuma estatueta na sua categoria é um nome que está a fazer muito mais que número entre as indicadas.


Em argumento ainda pode chegar a surpreender, mas mesmo assim parece que vai acabar batido, numa presença justa mas morna em prémios. Contudo entra diretamente na lista de filmes que vamos querer rever nos próximos anos, por isso, está aprovado!