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COMING UP | One Of Us Is Lying

Mistério e adolescentes com hormonas em altas são uma das fórmulas clichê que mais resultam quer no cinema quer nas séries. No fundo é o sucesso instantâneo, o caldo Knorr que o streaming insiste em usar para construir histórias apelativas. À parte de todas as conveniências e de podermos facilmente antever alguns dos eventos de One Of Us Is Lying, é impossível deixarmos de passar os olhos pela nova entrada no catálogo da Netflix. Com defeitos pelo meio e algumas escolhas duvidosas, One Of Us Is Lying continua a conseguir prender-nos e acaba por merecer o tempo que lhe dedicamos. Explicamos-te porquê em mais uma edição do Coming Up. Fica connosco. 

Apesar de ter tudo para nos repelir, esta adaptação consegue, mais uma vez, envolver-nos na teia de um mistério e ninguém consegue seguir em frente sem saber quem é culpado de um crime. É inato, e no fundo, é o grande segredo que a torna tão viciante.  

One Of Us Is Lying tem um truque estranho para nos agarrar: Utilizar a matéria prima que serviu de base à maioria das séries favoritas do público que vai procurar esta série na Netflix. 

Logo à partida temos a referência grotesca a Gossip Girl, que serve inclusive de piada dentro da própria série, mas é também com este primeiro ponto de identificação que conseguimos logo à partida perceber que mesmo que toda aquela narrativa não seja genial será algo que nos vai encher as medidas. Até porque convenhamos que faz mais justiça à Gossip Girl clássica que o próprio reboot da HBO Max.

Mas não é só Gossip Girl que encontramos nas entrelinhas, temos um pouco de Pretty Little Liars, muito do Outer Banks, temos uma pitada do que foi a génese de Riverdale e até um pouquinho das discussões que Love, Victor traz para a mesa. 


Mas mesmo que consigamos à partida ver semelhanças, sobretudo porque este tipo de projetos hoje em dia são quase todos produzidos de forma industrial, o certo é que acaba por nos conquistar porque é bem feita dentro do género. 


Tem clichês e romances previsíveis mas supera tudo isso com um mistério embrulhado que é cativante e que gera bons ganchos que nos fazem querer mais e que fazem os personagens, de facto, chegarem a algum ponto. Eles não são, de todo planos, e por mais que saibamos que os seus perfis estereotipados são apenas atalhos para conseguir mais facilmente mostrar que se desenvolveram temos de dar a mão à palmatória porque conseguiram fazer isso. 


Pode até parecer algo básico mas convenhamos que ainda recentemente tivemos na Netflix uma Rebelde que tentou escudar-se no mesmo esquema e o resultado foi um vazio gigante ou uma Gossip Girl da HBO Max que pelo menos na primeira metade andou em círculos mesmo com personagens que têm personalidades planas. 


Aqui isso não acontece, contudo, há em relação às personalidades dos personagens um crítica maior do que a sua proposta inicial: Nem todos são interessantes e ricos em conteúdo.



Vamos por partes. Nate e Bronwyn são mais uma releitura clássica do Romeu e Julieta, e a série usa-os como o alicerce clichê do amor impossível. Bronwyn até vai tendo algumas nuances ao longo da temporada mas nada que a faça ser merecedora de um destaque. 


Por mais que a tentem impingir como protagonista da série e como o cérebro do grupo, a líder do Clube, a personagem não nos causa empatia. É um trabalho de construção interessante porque estamos a falar da personalidade de alguém que viveu para a vida escolar e que não tem propriamente uma conexão com os restantes alunos, mas falta-lhe ali algum momento em que ela seja mais expressiva e nos leve a gostar dela, a torcer por ela. De todos é aquela com que menos nos ligámos. 


Depois temos Nate que tem uma história interessante e até com muitas possibilidades para se desenvolver por outras vias. Mas, este é um grande mas, nós tivemos dois anos para conhecermos e nos relacionarmos com John B de Outer Banks. A história dos dois, as acusações e desconfianças sobre eles, e até a forma como as narrativas os usam como recursos para resolverem problemas no imediato e gerarem cliffhangers clichês é absurdamente semelhante, quase ao ponto de nos levar a acusar uma outra história de clonar a personalidade do seu protagonista, personalidade e até mesmo o visual. 


Entra aqui um fator de comparação que nos faz desligar da narrativa dele, quase como se já soubéssemos de antemão tudo o que lhe vai acontecer porque é familiar e involuntariamente nos faz pensar que já vimos aquilo e que estamos a entrar num deja vú.


Seguindo ainda nos protagonistas mas agora entrando na metade interessante que gera, realmente, interesse no desenrolar da trama temos Addy e Cooper. 


Tal como todos os outros, Addy arranca a história num lugar comum pronta a ser a Cinderella invertida desta história. Na verdade o seu trajeto é exatamente aquele que imaginámos que seria mas não sabemos se pelo magnetismo de Annalisa Cochrane se pela maneira como conduziram o argumento, o certo é que ela conseguiu dar-nos credibilidade dentro do clichê, o que é algo digno de nota. Talvez o facto da série ter resolvido depressa os problemas genéricos dela e ter optado por a envolver mais com o arco do mistério tenha sido o grande truque para a manter como um ponto interessante. 


Sentimos que faltou ver mais da vida pessoal de Addy? Sim, até porque a partir de certo ponto não temos sequer a presença da mãe dela, que se eclipsa totalmente da série, mas não sentimos que tenha ficado esquecida porque no final é graças à vida pessoal da personagem que se dá o grande plot twist e se aborda aquele que é um dos temas mais importantes da narrativa de One Of Us Is Lying


Cooper termina o quarteto  num claro catfish para a comunidade LGBTQ+ que talvez não tenha sido tão bem explorado quanto possível mas que consegue cumprir o seu papel. Tinha potencial para mais? Tinha, e ainda tem, alguns dos seus passos foram acelerados pela narrativa e mesmo a sua conexão com Kris foi de uma conveniência extrema mas valeu a pena para voltar a colocar o tema como centro do debate. 


No fundo, apesar de cada vez mais as produções tentarem normalizar a sexualidade dos personagens, o que está totalmente certo, nestas séries teenager há necessidade mostrar os ângulos diferentes pelos quais as pessoas da comunidade têm de passar para saírem do armário. É uma plataforma e apesar de tudo a série conseguiu cumprir o seu papel burocrático sem forçar demasiado a corda.


E dado que estamos num crescendo chegamos aos personagens secundários, que são o sumo e o vigor da série com dramas pessoais bem mais interessantes e que nos motivam. Isto além de serem eles os grandes portadores de mensagens para fora da série. 


Simon, o grande mestre de tudo isto, é o elemento Gossip Girl da série, mas ao contrário do caminho do projeto original, aqui ele partilha os factos privados daquela microssociedade sem precisar de se esconder. No fundo, a personagem reflete o sufoco de viver sob as aparências e tem, no início, princípios interessantes dentro dele com o moralismo de que todos devem poder ser livres de viver com a sua verdade. Porém, ele próprio se deixa corromper. 


Cumprindo a velha sabedoria popular de que só conhecemos verdadeiramente uma pessoa quando lhe colocamos poder nas mãos, Simon percebe que a crueldade de viver para as expectativas e opinião dos outros é uma arma e ele deixa de ter medo da usar para ferir os outros. Mas é curioso que ele se pauta, tal como a série estabelece, com princípios como a verdade e no momento em que o quebra acontece a tragédia que dá inicio ao drama de One Of Us Is Lying


A par dele temos Maeve, Janae, Jake, Vanessa e Keely que têm, sem exceção, arcos bastante interessantes e atuais mas que são corrompidos pelo ritmo da série. Eles são apresentados, devidamente introduzidos nas conversas mas falta-lhes espaço para que o público perceba a dimensão dos problemas que eles carregam. 


Maeve procura perder a imagem frágil que todos têm dela depois de ela ter superado um cancro, vestindo-se e agindo de maneira a que as pessoas deem por ela. Ela tem alguns dos melhores momentos da série mas não sai do estatuto de secundária e perde espaço do seu problema para a ação do mistério. 


Tal como Janae que também é uma voz da comunidade LGBTQ+ e que mostra que a série trabalha o tema com duas linguagem diferentes mas que precisava de um balanço maior. 


Jake é o namorado abusivo que apresenta aqui alguns gatilhos para que o público que está a ver consiga identificar quando é que está numa relação abusiva, mesmo que isso não seja totalmente claro e que não envolva à partida episódios de violência. 


Keely segue este mesmo ponto anterior mas a sua história foi muito pouco explorada considerando-a quase como figurante em alguns pontos. 


Já Vanessa é o potencial caótico com que a segunda temporada terá de lidar e que tem tudo para mexer as águas.



One Of Us Is Lying é uma daquelas adaptações de séries de livros que vive com medo que os fãs cancelem a versão Live Action por não fazerem menção ao mínimo detalhe e isso acaba por a comprometer em alguns momentos e baixar um pouco a qualidade do projeto. 


Ou seja, se não existisse a necessidade de colocar mais de uma dezena de personagens com destaque talvez os holofotes soubessem melhor como se mover, talvez as narrativas não nos deixassem em alguns momentos a ideia que foram apenas mencionadas mas que não têm um propósito que cause um impacto na história central. 


Mesmo com essa necessidade de agradar a fandomOne Of Us Is Lying consegue construir um bom projeto, que sobrevive aos clichês e se torna em algo que nos deixa curiosos, que nos faz ter vontade de seguir o destino das suas personagens e que consegue libertar-se do estigma de ser apenas mais uma série de adolescentes. 


O grande fator que dá à série uma nota positiva passa pelos temas que introduz, que mesmo sem um palco grande, cumprem o seu propósito e conseguem encadear bem as mensagens morais sem serem demasiado autoexplicados. 


O caso de abuso entre Jake e Addy é um bom exemplo disso, conseguimos ser nós a entender o que se passa ali, antes mesmo da série nos esfregar isso na cara. Os ingredientes estão lá, e merece a nossa atenção por isso. Quanto ao mistério, aí o clichê desmonta-se e temos um enredo que é original e bastante criativo, bem menos raso que alguns dos núcleos da série e que faz valer a pena cada um dos oito episódios. 


Está aprovada, que venha a segunda season para percebermos se os pontos menos bons são absorvidos pelo que de melhor há nesta produção.