Header Ads

COMING UP | Raya and The Last Dragon

A Disney continua a tentar reescrever os males do mundo, na sua visão family&friendly, espalhando a habitual mensagem de esperança, onde a confiança e os afetos são os maiores super poderes. É o que acontece em Raya and The Last Dragon que mesmo sem uma narrativa altamente inovadora nos mostra que os conflitos do mundo podem resolver-se com um aperto de mão se confiarmos um pouco mais uns nos outros e entendermos que a desunião é o motor para a destruição. Raya, entre os seus fireworks que contribuem para o imaginário das crianças, vem reforçar pontos importantes para a nossa vida de adultos, e em pequenos gestos passa em revista, e com panos de sobrenatural, aquilo que, de facto, está a acontecer com o mundo. Esta é mais uma película com um paralelo interessante, que usa a formula do sucesso de Frozen, com muitos pontos em comum com Moana, mas que não nos deixa reféns dessa da mesma lógica. Entre muitos acertos, um tom de humor em linha com o habitual, e personagens que voltam a ter muito mais densidade dramática do que o que é o tradicionalismo das animações. No meio termo entre a confiança e a união mundial, Raya and The Last Dragon é a nova epopeia que a Disney nos traz e que vamos analisar em mais uma edição do Coming Up. Sabe o que há dizer sobre a nova longa-metragem, e quais os pontos que vale a pena analisar em família.

Raya não foge à personalidade impulsiva que Anna, Rapunzel, Merida e Moana apresentaram nos seus filmes. Além disso o propósito que a leva na sua jornada também não é assim tão diferente. Contudo, a verdade é que continua a funcionar da mesma forma. Continuamos a ser consumidos pela força de quem deixa tudo para trás para salvar o mundo, com o amor da família tão vincado como habitualmente. Essa mesma lógica que nos prende também é uma das coisas que à partida nos faz logo baixar as expectativas e pôr-nos na cabeça a ideia de que já vimos tanta vez este tipo de filme que nada nos pode surpreender. No fundo, até ao final da película essa ideia continua a manter-se viva, mas à parte de seguir a coerência dos sucessos anteriores, Raya and The Last Dragon volta a vencer-nos pelos personagens secundários, que são, mais uma vez as melhores memórias do filme. Começando por Tuk Tuk e acabando em Sisu, todos os coadjuvantes estão no ponto necessário para ter na ponta da língua os punch  lines suficientes para nos manter conectados com o universo e não nos deixarmos cair no tédio da típica e heroica Odisseia de Homero contada aos mais novos. É no discurso deles que se sustenta a mensagem que é importante que seja ouvida pelos adultos: A confiança, e como olharmos para o outro com um pouquinho mais de certezas nos pode abrir portas a tudo o que precisamos, mas, a cima de tudo, a um mundo melhor, com menos guerra, mais paz, união e amor.



Não podemos esperar que um filme infantil explore a fundo um tema tão impactante quanto a guerra entre povos em busca do poder. Mas no intertexto, Raya and The Last Dragon, toca em todos os pontos necessários para apresentar uma análise aos conflitos que movem o mundo e como nenhum deles faz sentido. Talvez o erro maior na narrativa de Raya tenha sido o facto de todo o argumento pender para uma das fações. Entende-se a necessidade de criar um vilão claro, para que os mais novos consigam identificar onde está a mensagem positiva, no entanto, o mundo não funciona exatamente no mesmo sistema binário dos filmes em que as falhas estão todas do mesmo lado. É nestes detalhes que se distingue muito bem o que é uma animação com a chancela da Disney e o que é uma película Pixar. Porque nos temas com mais impacto, a Disney continua a prender-se a si própria na teia clássica que criou, recusando-se a abraçar uma visão mais abrangente do que é o mundo. Já se notam melhorias, e um esforço para que não seja tudo muito raso, e com uma única moral, mas mesmo assim, Raya and The Last Dragon, é mais uma prova de como há um longo caminho a percorrer na hora em que se criam as mensagens presentes nas produções do estúdio. Vilanizar os elementos da tribo Fang talvez não tenha sido a melhor aposta e nem a redenção final salva o facto de por duas vezes ter sido a mesma região a causadora de todos os desastres que se apresentam na narrativa do filme. Há cinco regiões, mas cingimo-nos a duas, talvez tivesse sido uma melhor opção fazer com que uma das outras fosse responsável por algum dos momentos trágicos, não só para evitar que toda a maldade fosse canalizada para Fang, mas também para dar relevância às outras regiões, que se ficaram por meras citações leves.


Mesmo que sejam apenas um meio para chegar ao fim, a divisão das regiões foi uma excelente criação, mostrando que o universo tem muito mais espaço criativo para se expandir e para ser muito mais do que uma única narrativa. A forma como foi detalhadamente desenhada cada uma das tribos parece dar indícios de que há planos maiores dentro do estúdio para algumas das fações, e esperemos que assim seja, porque se há uma coisa que fica subentendida naquela apresentação é que há fatores culturais que foram tido em conta para criar cada uma das linhas que constroem aqueles povos. Por mais que essa representação seja feita pelos olhares ocidentais, nunca é tarde demais para ver retratado no ecrã povos e culturas que fujam dos ditos padrões habituais. Sobretudo quando criados para um público infantil, torna-se crucial que essa representatividade seja cada vez mais notória. Porque no fundo, estamos a falar do grupo responsável por algumas das longa-metragens de animação mais vistas em todo o mundo, tornando-se sua responsabilidade contribuir para o fim da xenofobia, do racismo, e todos outros males que perduram ao longo do tempo. Raya and The Last Dragon, tem no seu texto vários momentos em que arrisca para apresentar as coisas de um ponto de vista diferente, mas é um risco muito contido, aliás neste aspeto há até um retrocesso comparativamente com Moana, que nos trouxe uma civilização com muito mais princípios e instituições que são demarcadamente diferentes. Aqui, à exceção de alguns diálogos e das paisagens, temos basicamente uma civilização com influencias indígenas no aspeto mas com ideais que são dentro do típico comportamento ocidental. É um perigo que a empresa corre, desnecessariamente, quando poderia trabalhar mais as suas histórias para apresentar algo que até podia fazer sucesso junto do público precisamente por ter a diferença associada.



Mas vamos a personalidades ao porquê de aqui ser um pouco mais denso do que o que é tipicamente visto nas animações. Raya não é perfeita. Raya tem falhas, muito mais do que a maioria das outras “princesas” da Disney. Ela tem sede vingança, tem raiva, tem momentos em que coloca os seus próprios interesses à frente da salvação do mundo, mesmo que inconscientemente. Mas essa veia que foge ao habitual só é notória a partir da segunda metade do filme. É excelente quando aparece, porque nos tira da lógica e lugar comum, mas para o argumento é um tiro no pé porque revela todo o potencial que foi desperdiçado até então. Uma das melhores cenas do filme é quando Raya se entrega à sua vontade de fazer justiça pelas próprias mãos e deixa o mundo ruir à sua volta. E porque é que algo tão trágico se torna no melhor momento do filme? Porque damos espaço a outro tipo de heróis, porque mostra que não estamos dependentes das vontades de uma única pessoa. Porque a mensagem do filme é cumprida naquele momento, reforçando que a confiança, a amizade e a união de todos enquanto grupo é a chave para colocar um ponto final em qualquer catástrofe. Além de tudo isto, temos oportunidade de ver brilhar personagens secundários, o que em filmes da Disney é raro. Olaf e Anna, se é que esta última se pode considerar como secundária, são as únicas verdadeiras exceções à regra, dentro do que é o universo de filmes recentes com a marca da empresa do Mickey Mouse. Será que estamos mais próximos do passado, novamente?


No balanço geral, Raya and The Last Dragon, traz um tema fundamental numa época em que o mundo precisa de mais união e entreajuda que nunca, mas não supera outros sucessos nem entrará facilmente para os tops das listas de fãs de animações. Tem bons personagens, muitos momentos em que acerta no tom, sobretudo porque o tema que serve de fio condutor é muito bom, mas tem muitos clichês que podiam ser evitados se não existisse o receio de arriscarmos. Há laivos de How To Train Your Dragon? que são óbvios e trazem boas recordações. Contudo, essa leve lembrança também nos faz colocar os dois filmes na balança, e é esse o maior clique para entendermos que Raya and The Last Dragon apesar de conseguir emocionar e de voltar a tocar nos nossos corações não será memorável. No fundo, apesar da experiência positiva e de nos conquistar naquele momento, Raya and The Last Dragon é algo muito epicurista, sem um moral que se destaque, num paralelo bem construído mas que se torna num enorme paradoxo quando vemos alguns dos pontos como a narrativa é conduzida. Falta força no argumento para acompanhar os excelentes efeitos, que fazem deste uma das melhores longa-metragens recentes da Disney nesse sentido. Resumidamente: O que é que faltou? Faltou o lado Pixar. Pensar num ponto de vista mais familiar e trazer elos de conexão entre o mundo adulto e infantil que fossem suficientemente percetíveis e que fugissem mais do óbvio. Isso significa que não devemos ver? Não. A experiência de assistir a um filme da Disney é a injeção de nostalgia que qualquer adulto deve ter, e não há ninguém que possa dizer que não soltou nunca uma lágrima a ver uma animação da Disney. Não atires a primeira pedra e vê o que tens à espera no Disney+.