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COMING UP | Cidade Invisível

Entre lendas e mitos há um mistério para resolver na nova aposta vinda diretamente do Brasil para a Netflix. Uma trama segura mas que joga bastante pelo seguro, confuso? Até pode parecer mas tudo acaba por fazer sentido ao fim de um par de episódios, que na sua contenção cumprem a proposta e nos embalam numa aventura tão interessante quanto o que já tínhamos perspetivado. No mistério não há invenções que passem a barreira da resolução clássica, na fantasia a cartada do personagem “escolhido” com poderes paranormais que se suplantam às outras foi mais uma vez jogada. Mas dentro daquilo que poderia ser mais uma série fast food, o folclore brasileiro é o ingrediente a mais que vem recontar de outro prisma uma história que já foi vista dezenas de vezes. E é um verdadeiro acervo da cultura dos enigmas que propagam por anos de boca a boca. Mesmo que o tratamento dado às entidades não fuja do mesmo estilo que a Amazon usa em American Goods, é altamente funcional e é o acrescento que faz de Cidade Invisível uma trama maratonável. Há interpretações brilhantes e uma rede que salvaguarda tudo: a mitologia. Não chega a ser extraordinário, mas é, sem dúvida, um título a colocar na nossa lista, mais que não seja para viajarmos um pouco por aquilo que é a cultura de um país que cruza tanto da sua história com Portugal. Vamos entrar no argumento que fala de Cuca, Saci, Sereias e outros tantos com a veracidade possível e o tom adulto que tantas vezes falta no género fantasia. Fiquem em casa com a nossa análise e saibam o que há de novo na nova aposta do catálogo da Netflix.

Não é difícil adivinhar as soluções de alguns enigmas que o mistério central propõe, na verdade até ao capítulo quatro temos alguns indicadores clichês dentro dos suspenses de mistério com assassinatos associados. O episódio cinco, contudo, é crucial para nos desviar da normal com alguns twists inesperado e que fazem finalmente subir a tensão. A primeira metade da temporada deixa-nos muito a com a sensação de que a história está a ser conduzida com a mudança errada, mas tudo se compõe e justifica pela verticalidade do argumento que se mantém fiel à sua sobriedade e à lógica de dar uma releituras às figuras que compõem o folclore. Há muitos meandros permitidos numa história que tem fantasia ou magia no seu contexto, e daí, a segurança dos autores em não se arrastarem para fora de pé do drama central é mais do que justificada, para que tanto na fantasia quanto no mistério não se tornasse tudo uma verdadeira salganhada sem rumo para nenhum dos pilares que constroem Cidade Invisível. A série torna-se num exemplo claro de como menos pode ser mais e como mesmo sem nos impactante consegue entreter e prender ao longo de toda a temporada. Se precisávamos de mais ritmo? Cidade Invisível vem com a proposta de fazer um age up ao ciclo de série sobrenaturais habituais, e muitas das vezes esse crescimento também implica alguma maturação. No resultado final, até podemos ter essa sensação de que faltou mais ação mas não podemos queixar-nos porque em troco recebemos personagens com profundidade e muitos caminhos por onde fluírem no futuro, porque sim, há claramente futuro nesta produção. 



Não temos uma Cuca com cabeça de lagarto nem um Saci vestido de vermelho a atormentar meio mundo, estão longe de ser as representações infantis que nos habituámos a ver em histórias como a do Sítio do Pica-pau Amarelo, mas é essa subversão que lhe dá um tom mais místico e um lado sombrio que contrasta com os tons coloridos que estão quase sempre vincados na dramaturgia brasileira. Em Cidade Invisível, as entidades misturam-se com o povo mantendo-se agarradas às raízes e sem se preocuparem em disfarçar a cem por cento o que são. Esse banho de realidade aproxima-nos do tratamento de American Gods, que na subtileza nos vende cada detalhe sem precisar de uma fábrica de efeitos visuais que mudem a atmosfera e tornem as figuras que vemos plásticas. Mérito para as soluções que foram encontradas para não desfazer a mitologia de cada personagem, num cuidado notável que se vê logo em Manaus mas que inevitavelmente se estende à fita de Saci, que parece fruto da erosão do tempo do gorro clássico que conhecemos, e do detalhe de ter o Curupira preso a uma cadeira de rodas. Inês e Camila são polos opostos na adaptação, com a Cuca de Inês a manter a essência que define a entidade mas a trocar lagartos por borboletas, uma jogada de alto risco mas que vem dar tons muito mais profundos ao enredo é que no futuro poderão trazer consigo conceitos como o efeito borboleta, é algo que consegue por certo encaixar-se na linha geral de Cidade Invisível. Camila tem o revestimento mais básico, com as roupas a alusivas ao mar e praia a denunciarem a sua espécie antes de tempo, mas por mais óbvio que seja também não há nenhum outro caminho por onde os guionistas pudessem entrar, até porque o canto tem um papel fulcral, e super bem aproveitado, neste plot.

Nos primeiros quatro episódios é fácil desmontar alguns dos arcos, são os tais clichês que vêm quando tratamos de um género tão explorado quanto o mistério. Mas há um ganho aqui, porque por mais que seja um assunto já batido e com recurso a soluções que já estamos habituados, há a vantagem de fazer bem aquilo que outros já fizeram. Aparentemente poderá parecer fácil, mas caso não fosse bem conseguido poderia ser uma machadada final na história e não o é neste caso. Temos momentos em que a trama caminha para o terror, e no jogo de adivinhas do “quem matou?” há uma certa proximidade criada com franquias tão bem desenhadas quanto The Conjuring ou os highlights de Paranormal Activity. Não é terror puro, são menções que vem dar esse banho de argumento adulto ao lado sobrenatural de Cidade Invisível. No fundo e mesmo com as tais amarras que não atiram o texto da série para fora de pé, vai misturando ingredientes que vão funcionando numa equação que apesar de provável é difícil de encaixar ao ponto de nos agradar. Sente-se falta, talvez, de uma atmosfera ainda mais absorvente. Apesar de fugir da regra básica das coloridas produções brasileiras para assemelhar muito mais na estética a um produto da Amazon Prime, talvez falte abusar ainda mais disso, mais ou menos como a Globo Play fez com a mais recente série, Desalma. Se trouxéssemos a técnica de Desalma para o argumento de Cidade Invisível seria o ponto mais que sentimos falta. O budget poderá ser um problema, mas caso a razão seja essa, a falta de meios, então vale a pena dizer que os efeitos visuais foram aplicados no sítio certo. Por mais que a trama aposte em elementos subentendidos, as borboletas de Cuca já conquistam e preenchem a cota parte dos efeitos que uma trama destas precisa.



Marcos Pigossi vem com o papel clássico do herói romântico que tem o carimbo de “o escolhido” em cima. Mas na interpretação traz as mudanças certas para não o podermos apelidar de apenas mais um protagonista igual a tantos outros. Eric é muito mais obstinado e tem laivos suficientes de ações categoricamente erradas que o distinguem. Ele carrega muito do enredo nas costas, mas não é por demérito do restante elenco, mas sim pela forma como abraçou o papel e se esforçou para dar ao textos os elementos certos que mudam a métrica típica destes personagens que parecem engolir a história toda com as suas cruzadas. Veterano na representação, José Dumont e o seu Ciço é representativo de uma cultura, é a Wikipédia necessária para desenrolar a trama mas é, sobretudo, um show de interpretação que salta à vista. Dumont é um dos destaques da história, por saber balançar muito bem o papel ativo que tem na narrativa e os silêncios necessários para que o seu personagem mantenha o lado místico ao de cima. Num elogio que se estende a Alessandra Negrini, um casting perfeito em que o figurino ajuda mas que não se perde no guarda-roupa. Dentro do género de representações sobrenaturais, Alessandra e a sua Inês convencem e fazem com que facilmente deixemos de parte as críticas que podíamos ter pelas mudanças dadas na conceção da Cuca. Jessica Córes e Wesley Guimarães até podem não ser tão reconhecidos como os restantes membros mas nem por isso merecem menos destaque. A química entre Camila e Eric é exímia, e tem tudo para no futuro funcionar ainda melhor. Já Wesley entrega tudo o que o nosso imaginário tem sobre o Saci e carrega a responsabilidade de entregar um dos maiores e mais surpreendentes twists da temporada. Se bem que é difícil acreditar que seja algo assim tão definitivo quanto aparenta ser.

Dentro do catálogo de produções brasileiras na Netflix, Cidade Invisível não alcança o título de mais inovadora mas de longe consegue entrar no pódio das melhores tramas trazidas de terras de Vera Cruz. O folclore, voltamos a dizer, foi uma jogada excelente numa montra para o mundo daquilo que é um património que temos vindo a perder e nem nos damos conta disso. Os Estados Unidos, que têm figuras culturais muito menos elaboradas já o fazem nas produções para televisão há anos, veja-se Supernatural ou True Blood como exemplos, mas há algo que o Brasil tem que não existe noutros pontos da América, o aconchego de histórias da avó, a nostalgia da crença dominada pelo forte cristianismo, numa cultura evoluída mas que tem um profundo respeito por aquilo que são as suas construções enquanto sociedade. A Netflix faz-lhe jus agora. E em boa hora, para provar mais uma vez que há espaço para nos surpreender com tramas que fujam do habitual inglês. A primeira temporada foi o porto seguro que já falámos, o que deixa uma possível sequência muito mais apetecível por vermos como vão trabalhar um universo já instituído. Porém, o encerramento da temporada já deixa alguma sensação de fecho, pelo que poderá ser uma escolha artística não ir além desta primeira leva de episódios. O que queremos? Bem, uma segunda season que vá mais longe nesta representação de entidades é sempre um caminho apetecível, e há uma curiosidade maior para saber onde chega a criatividade quando os autores forem forçados a ir para fora de pé. No limbo entre algo que pode ser muito melhor e a possibilidade de desfazerem o bom trabalho, a melhor opção no entender de quem ficou fã é o risco, porque sem dúvida que merecemos ver as consequências disto tudo em Eric. Mais um selo de qualidade para a plataforma de streaming e para a reinvenção num mercado tão congestionado como está agora.