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COMING UP | The Haunting of Bly Manor

 

Na semana do Halloween nada melhor do que falarmos do mais recente êxito da Netflix onde o terror é o ingrediente que faz tudo se mexer mesmo sem recorrer aos sustos que nos fazem saltar da cadeira, é adulto, trabalhado e exige alguma cultura para discutirmos The Haunting of Bly Manor para além do óbvio. A série começa com um modelo muito próximo de Murder House de American Horror Story mas rapidamente se descola da excentricidade de Ryan Murphy para cair num percurso muito mais próximo aos títulos de Jordan Peele para a Blumhouse. É aquele género de história de terror que exige de nós enquanto espectadores, precisa de atenção para que nos percamos numa narrativa que é um novelo muito bem entrelaçado mas que se pode embrulhar se falharmos algum ponto crucial da história. Com espaço para teorias e interpretações, o show dá ao público várias personalidades encaixadas na mesma série. Não há manuais perfeitos para entender a narrativa de Bly Manor mas vamos tentar apresentar alguns estágios pelos quais vais passar a assistir a nova produção do serviço de streaming. Vem connosco porque a viagem neste Coming Up promete ir ao fundo do poço para descobrir o bom e menos bom de The Haunting of Bly Manor e para criarmos juntos uma teoria do que está por detrás da maldição. Em vésperas de Dia das Bruxas há melhor opção do que meter mãos à hora e tentar descobrir o que está para la de um bom mistério?

No estágio um falamos de cansaço, sim, é estranho que a primeira coisa que tenhamos a dizer sobre uma série seja relacionado com o cansaço, mas neste caso faz todo o sentido. Flora vence-nos pelo cansaço e o número de vezes que repete o seu famoso bordão, “Perfectly Splendid”, quase nos faz desistir, mas The Haunting of Bly Manor vale a pena a insistência. Tudo faz sentido depois e vale cada momento em que respiramos fundo para ignorar o quanto a pequena miúda nos faz parecer um disco riscado é cansativo. Esta é a primeira barreira que temos de ultrapassar para avançar para dentro da intriga da série, é como se o argumento nos preparasse para uma história que não vai ser fácil de entender e que exige resistência mental para avançarmos. À parte disso temos em Flora a versão distorcida de Cole Star de The Sixth Sense. É trabalho brilhante de Amelia Bea Smith que se provou em cada cena como um dos melhores castings da história recente da Netflix. A pequena rapariga rouba todos os holofotes e encaixa-se tão bem como a sua Flora que não nos ocorre nada melhor para descrever a sua interpretação que não seja Perfectly Splendid. Flora é uma das melhores personagens da trama e transforma-se na imagem de marca desta série, os gritos e os olhares vazios vão tornar, no futuro, a sua atuação tão emblemática quanto a de Linda Blair em The Exorcist ou pelo menos tão memorável quanto o já citado Harley Joel Osment. Tanta classe e tudo tão clássico, numa única atuação!


Abandonando o misticismo entramos na fase do drama com o capítulo sobre Danielle em que tudo se poderia definir como mórbido, mas sobretudo com uma pitada de melodrama que pode não conquistar quem assiste pelo lado do mistério e terror. Mas é mais um ingrediente acrescentado que se torna necessário para nos fazer entender que a ama que parecia ser uma pura mulher na verdade foi a responsável pela morte do seu companheiro. Mesmo que lhe possamos desculpar a mostre da tragédia conseguimos encontrar poucas justificações que nos pareçam plausíveis para a mentira que alimentou, e até por momentos nos convencem a acreditar que a assombração que a persegue é na verdade uma honra do karma. Dani é a personagem mais discutível de The Haunting of  Bly Manor, porque por mais que nos vendam a imagem de heroína, no resultado final o que sobressai é o seu desequilíbrio e o seu lado mais chato, o que é uma pena porque a última vez que a maioria de nós viu Victoria Pedretti ela estava a entregar uma interpretação magistral como Love em You. Em Bly Manor cumpre, mas é engolida nas contracenas com Flora e resvala para a típica boazinha dos filmes de terror. Pedíamos muito mais porque às expectativas estavam altas, contudo a culpa neste caso nem é da atriz. O rumo do guião que forçou o seu envolvimento com Jamie, e que tresanda a Queer Baiting, retiram a essência e fazem parecer que os criadores se esqueceram da complexidade que lhe deram ao início.

A fase seguinte chama-se frustração, porque entre os episódios cinco e seis não entramos nada do que se passa no enredo e até sentimos que podemos estar a perder alguma parte importante deste quebra-cabeças. A série quase nos perde neste ponto, a partir do momento em que entramos a fundo no arco de Hannah parece quase um caminho sem retorno, e nesse momento enquanto espectadores a frustração não podia ser maior. Queremos entender o que raio de passa ali, mas aquilo que a trama nos dá é mais um conjunto de pormenores soltos que se transformam num milhão de teorias. Quem já assistiu deve compartilhar a sensação de que ao longo de seis episódios já matamos metade do elenco e já achamos que 90% das personagens drama a senhora do lago. Isto é ótimo para nos prender a atenção e felizmente estamos a falar de uma série de streaming em que uma maratona dá cabo de qualquer mistério num instante, mas não deixa de ser muito interessante ver a quantidade de debates e teorias que podem surgir desta realidade. Há apenas a necessidade de entregar um destaque negativo ao ritmo do episódio sobre Hannah. Todas as idas e vindas por mais justificáveis que sejam no final acontecem na altura errada porque estamos numa fase a história em que ainda não sabemos quase nada sobre o que acontece realmente naquela casa e ter mais uma enxurrada de pormenores acrescentados só nos deixa com a sensação de que não estamos a ser  suficientemente rápidos a assimilar tudo o que os autores contaram até então.

 

A chave vira e finalmente entendemos o misticismo a partir do sexto capítulo. Depois de muito romance finalmente o toque sobrenatural começa a avançar e numa fase em que já se perdia a esperança porque o episódio dedicado a Henry arranca com a mesma fórmula que o de Hannah. Mas aqui foi uma artimanha inteligente para agarrar naquele gancho final do destino de Hannah e finalmente começar a desvendar e a entregar um contexto para que tudo aquilo acontecesse. E o mistério quando apresentado só liberta ainda mais mixed feelings. E porquê? Por um lado, a justificação que encontraram para os eventos assustadores da Bly Manor parecem saídos de uma side Story da franquia Conjuring, quando aquilo que esperávamos seria algo mais eloquente é mais psicológico, algo mais ousado. Não que a solução encontrada seja má, pelo contrário, porém a narrativa tem tantos laivos de Jordan Peele que acho que as nossas teorias acabam por perspetivar origem que fujam mais da caixa. Sentiu-se essa falta de risco, sobretudo porque nos deixa com a sensação de que a densidade dos episódios iniciais não casam com o mistério “básico” que move o argumento. Neste quarto estágio de The Haunting of Bly Manor o resultado não é animador, ou pelo menos não é o esperado, para sermos mais justos e precisos.

E no final? Bem aqui voltamos à comparação com as longas-metragens da Blumhouse. O último capítulo segue os mesmos guias que ditaram o sucesso da maioria das produções do estúdio. Se não tivéssemos o cronometro do episódio visível tínhamos caído que nem tordos no suposto final feliz, mas não tão feliz que nos tentaram vender. A mecânica já está tão batida em títulos do género que já não caímos tão facilmente e no final até pareceu uma resolução bem óbvia. Com um início pouco ortodoxo e um mistério que com as suas imperfeições até se parece conseguir mover o resultado de The Haunting of Bly Manor é uma série que é inconsistente, mas boa. Além dos cinco estágios que criamos para quem assiste há, ainda, uma clara divisão de um antes e depois do episódio cinco. A divisão não parece ser propositada, mas sim um fruto das expectativas que todos criamos em torno dos personagens. A série é traída várias vezes pela nossa veia de detetives de bancada, mas não sai como algo inconsumível, pelo contrário é a solução perfeita para o serão de Halloween para quem ainda não consegue ver um filme de terror sem ter a almofada à mão. E já agora, obrigado Flora, que mesmo na sua versão adulta não deixa de nos conquistar e que até no último diálogo diz exatamente o que pensamos a partir do meio do show. Foi uma boa love story Jamie, agora descansa em paz.