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Entrevista DOP - Vanessa Azevedo




Vanessa Azevedo é bailarina e professora nas Caldas da Rainha e um dos nomes que se destacam actualmente na nova geração nacional de Dança Oriental.  Na segunda edição desta iniciativa entre Fantastic - Mais do que Televisão e o projecto Dança Oriental Portugal, falámos com esta artista sobre o início na dança, os desafios e semelhanças entre a profissão de Farmacêutica com a Dança, a Dança Oriental na zona Oeste de Portugal, a Convenção Aaminah, a importância dos concursos no seu percurso artístico, entre outros.

Quando começou a tua paixão pela Dança Oriental?
A minha paixão pela Dança Oriental começou em 2001, com a novela ‘O Clone’. Sem dúvida que foi o ponto de começo para muitas bailarinas! Sempre dancei desde que me lembro. Não fiz ballet nem outro tipo de modalidade, apenas fazia as aulas extra-curriculares de dança, na escola. Mas em casa sempre dancei, coreografava imenso e depois apresentava o ‘espetáculo’ à minha mãe! A dança sempre fez parte de mim, mas quando descobri a Dança Oriental fiquei completamente fascinada. A dança, a música, as roupas. Foi amor à primeira vista! E fui tentando aprender pela novela, pelos programas de televisão onde iam bailarinas explicar alguns movimentos, porque na altura nem sequer tinha internet. Dançava imenso e motivava-me muito perceber que tudo parecia natural para mim, no meu corpo. As aulas só vieram uns 5 anos mais tarde, porque nas Caldas da Rainha não havia ninguém a ensinar. Mas durante esse tempo continuei sempre a fazer o pouco que sabia, e tinha 4 cds de música árabe que ouvi até à exaustão! Lembro-me de dançar muito com uma prima que me perguntou um dia se eu teria coragem de dançar em público e eu, introvertida, respondi ‘Nãoooo, não ia ser capaz’ (risos) . Nem sabia como tudo ia mudar! Entretanto descobri aulas nas Caldas e inscrevi-me logo! Fiz aulas com a Elsa Shams e a Cristina Coelho durante pouco tempo, e depois as aulas passaram a ser asseguradas por uma professora, Ângela Coelho, a quem agradeço tudo o que me ensinou, e todos os bons momentos que vivemos com o grupo que tínhamos. Bom escusado será dizer que nunca mais parei! E é maravilhoso tudo o que a Dança Oriental me trouxe e como teve a capacidade de me transformar. Libertou-me, deixei de ser a menina introvertida que não falava com ninguém, superei o meu problema de Anorexia Nervosa com uma ajuda enorme da Dança, que me fez gostar mais de mim e do meu corpo… Enfim, a Dança Oriental tem sido para mim o meu porto seguro, para mim é mais do que paixão, é um grande amor.

Quais são as tuas maiores influências artísticas?
Eu sou uma pessoa sensível no geral e há muita coisa me influencia/inspira. Inspira-me a natureza, as viagens que faço, pessoas que conheço, o dia-a-dia… E creio que tudo isso é importante porque tudo o que nos faz evoluir como pessoa, vai sempre refletir-se na nossa arte. No contexto artístico propriamente dito, eu gosto de dança no seu todo, e gosto de ver e experimentar outros estilos, porque há sempre algo que me inspira. O mesmo acontece na música, desde que a música ‘mexa comigo’ eu ouço, independentemente do estilo. Mais concretamente na Dança Oriental, é impossível não referir a bailarina argentina Saida. Ela foi a minha grande inspiração durante vários anos, via todos os vídeos dela e treinava com os seus tutoriais no youtube. De forma autodidata, aprendi imenso com ela. E essa influência marcou muito a minha dança. Podia referir ainda mais bailarinos e músicos cujo trabalho me inspira pelos mais diversos motivos mas a lista ficaria muito extensa!

Para além de bailarina e professora de Dança Oriental, também és farmacêutica. Quais são os maiores desafios para conciliar as duas profissões?
Os desafios começaram logo quando ainda estava faculdade. Com algumas dificuldades a nível familiar, basicamente tive que parar por completo a minha formação na Dança Oriental, para poder fazer todo o investimento necessário no mestrado. Sabemos que a nossa formação é dispendiosa e durante os anos do curso apenas pude ser autodidata, o que logicamente atrasou todo um processo evolutivo na dança. Curso terminado, a dificuldade passa a ser outra, e é a que se mantém: o tempo. E como farmacêutica comunitária trabalho muitas horas! Fins-de-semana, feriados e noites não são necessariamente de descanso. Pelo que o desafio maior é sempre conciliar o tempo que resta com a preparação das aulas, espetáculos, concursos e outros eventos e projectos, com o meu estudo pessoal (teórico e prático), mais uma vida pessoal e familiar que também convém ter (risos). Mas é preciso foco e organização, e aproveitar realmente o tempo. Muitas das minhas coreografias de concursos, e não só, foram feitas na minha hora de almoço! É difícil, é exigente, e muitas vezes traz-me sentimentos de frustração. ‘Porque se tivesse mais tempo eu seria melhor bailarina, professora’... Mas não aceito que me digam que a dança para mim é um hobby, porque embora tenha muito prazer no que faço, trabalho a sério, estudo a sério e ensino o que realmente sei. Não o faço com menos brio e profissionalismo por não ser a tempo inteiro. Costumo até dizer que é o meu part-time! Se fosse o oposto também não seria menos farmacêutica não é? Mas logicamente que ter menos tempo disponível não permite evoluir tão rápido nem chegar tão longe quanto eu gostaria na dança.



Existem algumas semelhanças entre as ciências farmacêuticas e a dança? Se sim, quais?
Eu creio que sim. A primeira é que temos de estudar muito, e para sempre, em ambas as áreas! Mas posso dizer que a maior semelhança é que através das duas eu posso cuidar dos outros e promover o seu bem-estar. E não consigo propriamente separar as duas coisas. O aconselhamento em comunitária vai muito além das medidas farmacológicas… Por exemplo, para mim faz sempre sentido aconselhar um utente com depressão a encontrar algo que o faça sentir bem e que o ajude a reencontrar-se, e refiro muito a dança, qualquer modalidade... Há situações em que só os medicamentos não fazem milagres. E a Dança é uma forma de cura. Mais do que semelhantes, são duas áreas que se complementam.

A nível nacional, és uma das profissionais com mais destaque da zona Oeste. Como analisas o desenvolvimento da comunidade de Dança Oriental nesta zona desde que iniciaste a tua formação artística?
Pode ser por desconhecimento meu, porque não conheço todas as colegas de dança, nem tudo o que se faz nos 12 municípios que integram a zona oeste… mas parece-me que é uma zona ainda pouco desenvolvida no que diz respeito à Dança Oriental, tanto no que diz respeito à oferta de aulas, como também na organização de eventos. Mas lá está, com menos ensino, menos alunos da modalidade, é normal que haja mais desconhecimento e, portanto, menos interesse. Acredito que há muito mais que se pode fazer, eu própria pretendo fazer mais.

Em 2019, criaste a Convenção Aaminah, nas Caldas da Rainha. Como surgiu a ideia deste projecto?
A ideia deste projecto surgiu em 2017, enquanto regressava do festival Huelva Oriental com duas alunas minhas. Estava maravilhada com a felicidade delas por terem aprendido tanto, com o facto de vivermos algo tão intenso como um festival juntas e com toda a inspiração que trouxemos dentro de nós. Comecei a idealizar muita coisa na minha cabeça, mantive esta ideia mas não passei logo para a prática. O que eu sabia era que queria organizar um evento na minha cidade, com workshops e espetáculo, precisamente para divulgar mais a Dança Oriental na zona, e direcionado para um público mais iniciado/intermédio. Isto porque acho que é fundamental promover o estudo e a diversidade logo de início. É bom as alunas poderem estudar com outros professores, fazerem workshops de outros temas que ainda não foram abordados nas aulas. Muitas vezes eu convidava as minhas alunas para irem comigo a festivais mas acabava por perceber algumas barreiras como ‘é um investimento muito grande para quem só se quer divertir’, ou ‘é tudo muito longe’... E eu compreendo que haja muitas alunas que se sintam inibidas em começar logo em grandes festivais! Assim, quis criar um evento que permita reforçar o gosto pela aprendizagem, que deixe nas participantes o bichinho para saber mais e mais, mesmo que o objectivo seja só divertir. Fazê-las sair do ‘porto seguro’ que é a sala de aula! E penso que o consegui na 1ª edição!




A convenção teve de ser adiada em 2020 devido à pandemia do COVID-19 mas, em princípio, terá lugar em 2021. Como é pensada a programação deste evento?
Inicialmente eu tinha pensado em trazer sempre bailarinos das gerações mais recentes da Dança Oriental, para também dar a conhecer o seu trabalho como professores. No entanto não foi o que aconteceu na 1ª edição! De forma completamente natural, convidei a Cris Aysel e a Paula Dahab, que prontamente aceitaram o meu convite. Tenho um enorme carinho por elas, são duas grandes mulheres, bailarinas e professoras, o que tornou a 1ª edição mágica! E a questão geracional passou um bocado para 2º plano (risos). Assim quero simplesmente ter o prazer de ter comigo bailarinas/bailarinos que aprecio e que sei que têm muito para ensinar. São muitos! Os workshops deste ano não seriam apenas coreográficos, e pretendo manter sempre uma parte teórica associada. A próxima edição manterá a estrutura do ano passado: workshops com almoço convívio (comer e conviver é muito importante!), bazar e espetáculo!

Já actuaste em vários espaços e contextos (bares, eventos privados, espectáculos, concursos) ao longo destes anos de dança. Podes contar-nos também uma peripécia que te tenha acontecido ao longo destes anos enquanto bailarina?
Já me aconteceu muita coisa!! Mas vou referir duas, até recentes. Uma foi no Sultão Bar. Basicamente toda a noite foi um desastre! Na 1ª actuação, estava a dançar com velas e, num movimento menos refletido, parti um dos copos! Contornei os cacos e continuei a dançar como se nada fosse, com o público perplexo! Na 2ª música, ia vestir o fato que tinha programado, que tinha uma saia bem transparente, mas esqueci-me dos calções para vestir por baixo! Mudei os planos, visto outro fato e entro para dançar. Passado um bocado percebo que um dos colchetes do pescoço se tinha rebentado e tive que me recolher para a sala dos não fumadores, mais pequena e com menos gente, e pedir a uma senhora do público para me ajudar a dar um nó no soutien. Enquanto isso continuei sempre a dançar e na outra sala ninguém percebeu o que se tinha passado! Foi para esquecer (risos)! A outra foi na 1ª edição do Dancing World. Tinha sido convidada para dançar na gala, mas tinha uma bolha medonha no pé (fruto dos ensaios). Pus um penso para bolhas antes de entrar, mas à medida que fui dançando o penso começou a descolar e prendeu no palco, fazendo-me cair (risos). Levantei-me e continuei! Uns perceberam, outros não. Depois de me passar a vergonha, percebi que mais importante do que cair, é a forma como nos levantamos!


Ensinas Dança Oriental na Mooves Dance (Caldas da Rainha) e na Clínica Equilibrium (Caldas da Rainha). Podes falar-nos um pouco sobre o teu método de ensino?
O meu método de ensino é algo que tem muito ainda para melhorar e é algo que pretendo trabalhar mais ativamente. Isto para assegurar que consigo replicar o mesmo método para todas as turmas. No entanto isso nem sempre é fácil e depende muito do tipo de alunas que temos e dos seus objectivos, dos tipos de espaços em que damos aulas... Mas tudo começa como é lógico pela técnica base da Dança Oriental. Gosto muito de explicar e passar técnica, e que fique bem compreendida. Geralmente faço coreografias passado pouco tempo, porque é uma forma de manter as alunas mais interessadas, ao mesmo tempo que aprendem técnica, uma vez que a maioria não tem paciência para estar 1h30 a repetir os mesmos movimentos até saírem bem, nem sequer seria produtivo. E assim vai sendo, à medida que introduzo um novo estilo, um novo adereço: trabalho de técnica e coreografia, e sempre, mas sempre, teoria e história.
 

Tens um grupo de alunas de Nível Intermédio, as Raks al Aaminah. Podes falar-nos um pouco mais sobre a actividade deste grupo?
As Raks al Aaminah são as minhas meninas, a minha família dançante! Já estão comigo há algum tempo. É um grupo não profissional, mas quis que tivéssemos um nome, porque por vezes somos convidadas para algum evento e para mim não faria sentido serem só ‘as alunas da Vanessa Azevedo’. Assim temos uma identidade, todas juntas! Como disse o grupo é não profissional, todas com uma enorme paixão pela dança, mas cada uma com o seu objectivo. São alunas interessadas mas que, de modo geral, não pretendem dançar de forma profissional, e fazem-no mais para descontrair, porque são felizes a dançar, porque gostam desta nossa família. É uma forma de estar na dança como qualquer outra, e também muito boa, e que se reflete também na forma como acabo por conduzir as nossas aulas. Independentemente de conseguir com elas resultados mais ou menos rápidos, tudo o que fazemos juntas é trabalhado até à exaustão. Sou bastante exigente e procuro trabalhar tudo até que saia bonito porque, para mim, mais ou menos profissionais, é importante que haja dedicação. Mas algo que está sempre subjacente nas minhas aulas, e muito importante para mim, é que se tire partido da Dança, na sua vertente terapêutica. Que ela sirva para nos sentirmos femininas, que nos dispa de preconceitos, que nos faça aumentar a nossa auto-estima, que nos conecte da forma mais pura a outras mulheres. E isso eu tenho a certeza que tenho conseguido neste grupo!

Como bailarina que participa regularmente em vários concursos em festivais nacionais e internacionais, qual é a tua opinião sobre os concursos nos festivais de Dança Oriental?
Tal como muitas outras colegas têm respondido: há coisas boas e outras menos boas. Eu gosto de ir a concurso e tenho plena noção do que vou lá fazer. É uma forma de me desafiar, de fazer uma coreografia, dançar num palco. Isto porque eu não danço assim com tanta regularidade em palcos! A maioria das minhas actuações são em bares ou outro tipo de eventos, nas quais improviso sempre, e estou perto do público. Geralmente as bailarinas têm dificuldade em improvisar e estar perto das pessoas. Eu tenho mais dificuldade em disciplinar-me para fazer uma coreografia se não souber quando a vou apresentar e tenho poucas oportunidades para dançar em palco. Por isso, porque não ir a concurso? Claro que depois os resultados são subjetivos, dependem da opinião individual do júri, e há-que perceber isso. Mesmo quando pedimos ao júri para nos dar a sua opinião (considero que devemos sempre fazê-lo), é preciso saber ouvir e filtrar, aproveitar o que nos pode fazer crescer, mas não ficar demasiado presa aos resultados. Mas sinceramente os concursos têm-me feito crescer e tenho tido muito boas experiências. Por isso continuo a ir, quando quero e posso. E com isto passo para uma das coisas menos boas: parece que os concursos estão a tornar-se obrigatórios por algum motivo, e não são. A bailarina que não vai ou que não gosta não é melhor nem pior. É preciso respeitar a escolha de cada um. Outra coisa negativa que ouço em relação a concursos é a competição pouco saudável, as comparações, a pouca união entre bailarinas nos camarins… Felizmente nunca o senti de forma muito intensa, mas quanto a isso, a minha opinião é que não é um problema dos concursos, é das pessoas que os frequentam! Pode parecer mal eu dizer isto, mas é como em tudo, as pessoas não são todas iguais, não têm os mesmos ideais nem a mesma postura na vida… É assim nos concursos e em todo o lado. Cabe a quem vai porque gosta, tentar não valorizar esse tipo de coisas e desfrutar!

És uma das poucas bailarinas nacionais que já participou e venceu prémios nas categorias Profissional e Master dos três festivais nacionais – Dancing World, East Fest Lisbon, Oriental Dance Weekend. Estes prémios e estas participações têm ajudado no teu desenvolvimento profissional? Se sim, de que forma?
Sim, sem dúvida! Noto que aos poucos o meu trabalho foi sendo mais conhecido dentro da comunidade da Dança Oriental, o que é muito positivo. As participações são sempre positivas porque acrescem mais uma experiência em palco, mais um desafio para pôr em prática os meus conhecimentos, mais uma oportunidade de evolução. Como disse antes, as opiniões dos júris são subjectivas e há que saber filtrar, mas o que é certo é que, de um modo geral, tenho recebido feedbacks muito úteis, apontamentos, correcções, coisas para melhorar, e até os elogios que me dão uma motivação extra! E os prémios logicamente, são muito bem-vindos! Claro que não consigo aproveitar tudo, mas muita da minha formação tem sido feita graças aos prémios, o que significa mais formação com um menor investimento, e isso é excelente!



Qual a tua visão sobre a Dança Oriental portuguesa actualmente?
Creio que a Dança Oriental em Portugal tem evoluído muito nos últimos anos.  Há mais acesso a informação, há muito oferta de boa formação e, nesse sentido, o ‘trabalho’ de quem quer estudar está muito facilitado. Eu quando comecei, e durante muitos anos, não tive a informação assim, quase ‘de mão beijada’, por isso acho que é um aspeto muito positivo. Mas é fundamental que haja interesse em estudar, desde os que estão agora a começar aos que já ensinam e se apresentam como profissionais. Para que tanto quando ensinamos como quando nos apresentamos em público possamos realmente ser fiéis à arte que estamos a representar.
Na minha opinião, temos excelentes profissionais em Portugal! Mas o processo de chegar às massas continua a ser difícil e lento. Tem sido feito um excelente trabalho dentro da comunidade mas ainda temos um longo caminho a percorrer até a nossa dança ser vista como são outras modalidades, que nos vejam e valorizem como profissionais.

Que dicas dás às bailarinas que estão a surgir e que querem seguir a Dança Oriental de forma profissional?
Na minha opinião é importante que amem realmente esta arte. E ainda antes de decidirem o que quer que seja, entreguem-se, tenham vontade de evoluir, de estudar, ser curiosas, não ter medo de ir atrás do conhecimento. E perceberem que nada nesta dança se consegue de um dia para o outro. É preciso ser paciente e não desistir. E se essa ‘base’ existir, então creio que há condições para seguir de forma profissional - seja a tempo inteiro ou não (há coisas que só se definem ao longo do percurso). Acrescento ainda duas coisas que considero fundamentais, logo desde início - improvisem muito e aproveitem as oportunidades que surgem para dançar em público!

O que achas que se pode fazer para a Dança Oriental se desenvolver mais em Portugal?
Esta pergunta é difícil de responder! Bem, começo por bater novamente ´na tecla’ da formação e do estudo. Quem ensina tem de estar muito seguro daquilo que está a ensinar, para que tenhamos alunos bem formados. E sabemos que é algo que não se controla propriamente, não há um certificado que nos diga ‘agora já podes dar aulas’. Assim como não existe também um certificado que diga ‘agora podes dançar em público’. Porque o que ainda acontece infelizmente é vermos pessoas a dançar em público, a serem pagas para fazê-lo, mas com grandes falhas a vários níveis. E o que acontece é que o público vê uma coisa que não corresponde à realidade, e isso acarreta muitas consequências para os profissionais da área e influencia a forma como a nossa dança é vista pela sociedade em geral. No fundo o que quero dizer é que não sendo uma actividade oficialmente certificada, não há forma de controlar algum tipo de trabalho que se faz. Não sei como melhorar esta questão, mas creio que pode ser um bom tema para debate! Na minha opinião, seria muito interessante organizar algo como um congresso para bailarinos de Dança Oriental, com foco na actividade profissional. Há temas que deviam ser mais debatidos entre nós: contratações e comunicação com o contratante, determinação de cachets, organização de espetáculos, redes sociais, entre muitos outros. São assuntos que fazem parte do nosso dia-a-dia, mas que não foram estudados em sala de aula. Quantas de nós não pensaram logo no início ‘mas qual é o que cachet que vou pedir’? Há coisas que deviam ser mais consensuais e mais padronizadas para o mercado ser justo, tal como acontece noutras áreas. Penso que este tipo de partilha seria benéfico e ajudaria ao nosso desenvolvimento, tornando a comunidade ainda mais forte. Acho que ainda vou amadurecer esta ideia! Por último, quero referir a importância que nós bailarinas temos dentro das nossas comunidades, sobretudo em meios pequenos como é o meu caso. Sinto que tenho o dever de, na comunidade onde me insiro, dar a conhecer a Dança Oriental como a maravilhosa arte que é e dignificá-la, educando de alguma forma o público. É sem, dúvida, um dos meu propósitos com a convenção Aaminah.

Se te pedisse para nomeares um filme,  uma música e um livro que aches que toda a gente precise de ver, ouvir e ler, quais seriam? E porque é que os escolherias?
Filme: Joker, muito recente mas fez-me pensar muito sobre a nossa sociedade actual. Música: qualquer uma de Oum Kalthoum, mas eu amo Alf Leyla wa Leyla e faz-me chorar muitas vezes! Livro: aqui vou fazer batota! Adoro ler, mas com o meu estilo de vida sobra-me pouquíssimo tempo para me dedicar à leitura. Por isso vou referir um livro que comprei, que me suscitou muito interesse, mas estou há séculos para começar que é ‘Música Árabe: expressividade e subtileza’, da Márcia Dib. Pode ser que assim me sinta comprometida com os leitores e comece de uma vez por todas (risos)!



Quais são os teus próximos projectos e objectivos profissionais?
Como objectivo, tenho sempre o de ser melhor bailarina e professora. Quero continuar a trabalhar sempre para evoluir, superar-me e aprender mais. Como professora, pretendo melhorar o meu método de ensino e torná-lo mais uniforme entre turmas. Pretendo continuar a trabalhar na convenção Aaminah e na divulgação da Dança Oriental na zona Oeste. Devido aos prémios que ganhei no ano passado, serei pela 1ª vez professora num festival em Portugal (Dancing World) e noutro em Salamanca (Aywa Salamanca Bellydance Festival), o que é uma enorme responsabilidade. Espero estar à altura e preparar-me o melhor possível para transmitir algo de bom a quem frequentar os meus workshops!



Entrevista DOP - Vanessa Azevedo

Por Rita Pereira
Maio de 2020