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Vale do Fim | Capítulo 40 (Parte 3)

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Capítulo 40 - A Herança (Parte 3)

- Estive a estudar todas as probabilidades de cura! Estive especialmente a estudar o vosso caso, saber quais as probabilidades de vocês sobreviverem se eu vos injetar a cura! Acredito que haja uma probabilidade de oitenta por cento de que ela seja eficaz! Vocês podem deixar de ser semi-híbridos, vocês podem comuns mortais novamente!
Artur e Miguel entreolharam-se. Talvez não estivessem à espera daquela declaração de Santiago. As probabilidades eram altas, mas nem sempre as probabilidades estavam certas, o caso deles poderia estar entre os vinte por cento que falhavam. Esse talvez fosse o medo de Artur, mas foi Miguel quem quebrou o silêncio.
- Se me fizessem essa proposta há um ano atrás, sem hesitar eu responderia sim de imediato! Neste momento, não! – Aquela resposta de Miguel surpreendeu Artur, não parecia o rapaz que aceitou o falso antidoto de George há alguns meses atrás. – Antes eu estava sozinho, era o único com condições únicas, era o único incompreendido que existia neste meu mundinho. Agora as coisas são diferentes, eu tenho o Adão. Nós os dois somos iguais agora que ele não pode ser controlado por ninguém! Somos os dois semi-hibridos. Como se sentiria ele se fosse o único?
As palavras de Miguel emocionaram Artur. Ao ouvir aquelas palavras ele lembrou-se do menino de seis anos que vira no caixão no dia em que ele retornou. As lágrimas correram-lhe pelos olhos ao pensar no que o mundo podia ter perdido se o Projeto MG não atuasse no menino a tempo de o deixar no planeta. Miguel era altruísta, a sua decisão provava-o. Ele iria ser assim para o resto da vida, iria ser diferente, e tudo apenas por compaixão ao seu melhor amigo!
- No fundo eu sempre fui isto desde que me lembro! – Prosseguiu o rapaz. – Em todas as minhas memórias eu corri como nenhum homem correu, tive a força que nenhum homem teve e sobretudo, tive a sorte que nunca ninguém teve! Eu retornei, morri e voltei e tudo graças a este Projeto MG. Eu não posso ser curado, se o Projeto sair de mim… quem serei eu?
A ultima pergunta do rapaz deixou Artur perplexo e igualmente pensativo. Ele tinha memórias, memórias onde o Projeto MG não existia, tinha muito boas recordações, mas já se tinham passado dez anos, dez anos desde que o Projeto fazia parte do seu corpo.
- Tenho de pensar! – Disse por fim.
- Claro, pensem o tempo que for preciso! – Disse Santiago de forma calma e compreensiva. Ele sabia que no fundo eles podiam morrer e por isso não fazia força para que aceitassem de imediato. – Apenas queria que soubessem que pode ser possível reverter a vossa situação. A cura que o Viktor criou há dez anos era uma versão mais simples desta. Retirou grande parte do Projeto, mas não o reverteu por completo. Ele ficou no organismo de todas as cobaias e, consequentemente, fez com que elas ficassem infetadas com a Doença Negra. O vosso caso é diferente, o vosso organismo nunca vos deixará doentes, a cura iria focar-se em tirar de vocês as vossas alterações genéticas que vos permite correr a velocidades incomuns e ter uma força maior que o normal. Vocês sabem onde me encontrar! Eu estarei aqui, estarei sempre aqui para vocês, sempre que precisarem. – Concluiu Santiago antes de eles se levantarem para sair.
Artur e Miguel saíram do anexo após visitarem mais uma vez Lígia e Edgar. Eles iriam acordar novamente, eles iriam ter as suas vidas normais de volta. Quando olhou para Edgar, a sua mente recuou, parecia ter voltado à noite chuvosa em que um rapaz com dezasseis anos lhe ligara, completamente aterrado, depois de sentir o seu coração a explodir, a querer saltar da sua caixa torácica. Lembrou-se do rapaz que lhe ligava para lhe pedir conselhos, e ele tentava estar sempre lá para ele, e para os outros membros do…
- Clube de Mutantes! – Disse Artur, acabando o seu pensamento em voz alta, chamando a atenção do jovem Miguel, que criara esse nome com apenas seis anos.
- Que foi isso Artur?
- Era o que tu nos chamavas quando eras criança, quando fazíamos as reuniões no café da tua mãe!
- Eu era um miúdo, Artur, pensava que eramos super-heróis, mas não eramos, eramos aberrações criadas por cientistas loucos!
- Não os podemos condenar. A nossa vida mudou por causa de tudo isto, mas, como seria a nossa vida sem o Projeto MG? Como estaríamos agora sem a chegada do August a Vale do Fim?
- Provavelmente não conhecerias a Alina e serias um policia com uma vida monótona, se não a encontrasses provavelmente viverias sozinho, não terias o Adão, eu poderia nunca ter ido viver contigo porque a minha mãe poderia nunca se ter ido embora… a nossa vida seria tão diferente!
Artur concordava. A vida deles sem o Projeto MG iria ser completamente diferente. A herança deixada por August e George a todos eles era questionável, mas, e se eles não tivessem existido? Se eles simplesmente não tivessem realizado todas aquelas experiencias? Seria algum dia feliz como era naquele momento em que tudo tinha terminado?
Saiu do anexo e sentou-se no carro. Olhou para o barracão que começava a ser construído, onde se iria sediar o novo grande centro cientifico da região, mas a sua mente levou-o para a noite mais terrível da sua vida, não aquela em que não conseguiu salvar Eva, Viktor e August, mas aquela em que obrigou o amor da sua vida a matá-lo. Quando ele ouviu da boca de Alina que ela estava grávida ele tremeu, ele lembrava-se disso como se tudo aquilo tivesse acontecido no dia anterior. Talvez August e Viktor, com aquela revelação, esperassem que ele recuasse com a loucura, que revelasse ali que ele tinha de morrer apenas para comprovar uma teoria. Mesmo assim ele seguiu em frente, pensou no bebé que ela carregava no ventre e pensou que ele precisava de apoio, e quem lhe poderia dar mais apoio do que uma pessoa que não morria de forma fácil.
Os seus pensamentos pararam quando sentiu o telemóvel vibrar no seu bolso. Olhou para o visor. Alina.
- Não te atrases para o almoço! – Disse ela. – Estou a fazer o teu prato preferido, o teu e o do Adão!
- Eu prometo que vou tentar não me atrasar, mas antes… eu tenho de ir a um sitio. O Santiago disse-me uma coisa, eu depois falarei contigo sobre isso, mas eu quero ir a um sitio, quero ver se decido acertadamente e acredito que ali será o sitio certo.
- Estás-me a assustar, Artur! – Disse Alina preocupada. – É alguma coisa grave?
- Confia em mim, Alina! – Disse ele, rindo e chorando ao mesmo tempo. – Eu nunca te falhei desde que me conheceste, bem tirando os tiros que me deste pela minha vontade. – Riu-se novamente. – Amo-te, Alina, nunca te esqueças disso! Eu irei para casa assim que arejar, assim que tomar a decisão!
Ligou o carro e seguiu caminho. Quando a estrada terminou parou o carro e entrou pelo meio das grandes e velhas árvores. Lembrou-se da noite em que o barracão foi queimado, que as árvores lhe metiam medo enquanto segurava Eva, que devia ter treinado de imediato para a conseguir salvar e ter evitado a tragedia que não conseguiu evitar. Talvez por causa disso, por se sentir culpado, ele treinasse todos os dias, mas só se dirigia àquele local nos dias em que queria recordar mesmo que tudo era real.
Os destroços do autocarro ainda lá estavam. Cheios de ervas daninhas, cada vez com maior dificuldade de acesso, mas mesmo assim ele correu até lá e entrou no autocarro. Lembrava-se ainda do banco onde estava sentado, do banco onde Eva estava sentada, mesmo atrás do seu, do banco do Raul, da Olívia e de onde as forças de emergência tinham entrado. Ele lembrava-se de tudo. Naquele momento, animais selvagens, não lobos, esses eram raros, também, já tinham andado por ali, já tinham mordiscado aqueles bancos, já tinham deixado ali a sua marca. Artur saiu do autocarro e olhou para ele novamente. Se não fosse aquele autocarro a sua vida tinha sido tão diferente.
Sentiu alguém chegar ao seu lado.
- Estás aqui? – Perguntou Adão. – Bem me parecia que era o teu carro que estava ali parado quando ia a caminho de casa.
Artur não respondeu e abraçou o filho. Chorava que nem um bebé. Adão não entendia, mas abraçou-o da mesma forma. Um abraço forte que apenas dois híbridos poderiam fazer.
- Eu não quero curar-me! – Gritou Artur a olhar para o autocarro. – Tu tornaste-me assim e eu quero ser assim para o resto da minha vida! Eu não quero ser normal, tu trouxeste-me o que mais tenho de valioso, eu não me vou curar! Apenas assim posso agradecer ao August por ele me ter dado tudo o que tenho agora. Ele pode ter agido mal, sim, mas inconsequentemente ele trouxe-me a melhor vida que eu podia ter. Eu serei assim para sempre! Eu serei um semi-hibrido até ao fim dos meus dias. Isto faz parte dos meus genes, faz parte do meu ADN! Eu quero proteger o meu filho, a minha mulher de todo o mal que poderá vir um dia! Eu serei assim para sempre porque é assim que sou feliz! – Prosseguiu, deixando Adão um pouco atarantado, sem saber o que ali se estava a passar.
- Vamos Adão, vamos para casa, a tua mãe espera-nos.
- Passa-se alguma coisa? – Perguntou o rapaz.
- Nada, estou apenas feliz! – Respondeu o homem.
Caminharam enquanto o autocarro ficava para trás e o sorriso de Artur aumentava, era altura de viver a sua vida, era altura de ser ainda mais feliz do que era até ali!

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