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Vale do Fim | Capítulo 39

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Capítulo 39 - O Sacrifício

    Adão sentia-se impotente enquanto a porta continuava a abanar. Por trás dela, centenas de cópias suas tentavam a todo o custo entrar ali, na sala onde elas tinham sido criadas, na sala onde George fez todo o processo de inseminação artificial que levou à criação daqueles monstros quase imortais. Sabia que estavam ali os três encurralados, ainda por cima com um clone inconsciente com eles, que Peter deitou na maca onde as mulheres eram deitadas no dia em que o processo acontecia.
    O rapaz olhou para aquela maca e tentou pensar o que aquelas mulheres pensavam no momento em que tudo acontecia. Ele não conseguia! Era algo que deveria ser tão aterrador que nem ele próprio tinha consciência do que poderia passar na cabeça delas naquele momento. Lembrou-se de Santiago, de como ele também se deveria sentir cada vez que completava um processo no Quarto da Ovelha. Ele era quase obrigado a fazê-lo, mesmo contra a sua vontade ele tinha de o fazer. Se o seu pai soubesse que ele um dia se revoltaria contra ele, ele podia não o ter ajudado, podia ter morrido muito antes de ter danificado a sala de controlo no dia em que ele fora até Vale do Fim pela primeira vez.
    A porta continuava a abanar e Adão e Will levavam a última secretária para perto da porta. O rapaz achou absurdo aquilo que estavam a fazer. Se eles conseguissem rebentar uma porta blindada como aquela que se encontrava ali naquela sala, eles iriam rebentar com todo o resto sem pestanejar. Nenhum dos objetos que eles tinham colocado ali a travar a porta seria suficientemente forte para travar uma manada como aquela. Eles tinham de ser ágeis a pensar, tinham de ser rápidos a encontrar uma solução, se não o fossem certamente iriam morrer mesmo antes de explodir com a sala de controlo.
    Com o ranger cada vez mais forte da porta Adão sabia, eles estavam condenados, não havia nada que os fizesse chegar à sala de controlo e explodir com ela, eles nunca sairiam daquela sala com vida, os híbridos iriam rebentar com aquela porta em menos de trinta minutos ele tinha a certeza. George tinha fortificado a segurança de todo o edifício subterrâneo, mas certamente nunca pensou em reforçar as portas caso uma centena de híbridos a quisesse rebentar.
    Peter deixou o hibrido inconsciente na maca e pegou no mapa enquanto Adão o observava a fazê-lo.
    - A nossa esperança reside apenas ali, naquela porta! – Disse o rapaz apontando para uma porta que Adão não tinha conhecimento, mas o homem parecia ter. – Aquela porta dá acesso ao local onde o George deixava os híbridos a crescer! O Santiago dizia que lhe chamavam de Área H.
    Tudo aquilo que Peter dizia fazia sentido, ele às vezes ouvira choros de criança, mas nunca as vira realmente, eles tinham de ficar num outro lugar, eles tinham de ficar em algum outro lugar.
    - E como isso nos ajudará a conseguir acabar com a Área de controlo? – Questionou Will, tão curioso como Adão, não viam conexão entre as duas zonas do edifício.
    - Aqui! – Disse Peter apontando uma área no mapa. Era uma zona que ficava bem próxima da sala de controlo. – Nesta área, a parede entre as duas zonas não pode ser muito grande, um explosivo conseguirá abrir uma brecha pela qual o Adão, com a velocidade que consegue atingir conseguirá passar assim que o buraco se abrir.
    Will e Adão ficaram surpresos com a dedução do homem. Olharam para o mapa e poderam perceber que havia mesmo uma sala entre aquela parte da Área H e a parte da Área H. Se George quisesse poderia ter ali feito uma porta, não seria difícil. Talvez aquela sala estivesse ali com esse propósito mesmo, George conseguir destruir a parede e desativar os híbridos caso algo corresse mal. Adão pensou naquele velho, como ele provavelmente tinha pensado em tudo. Ao olhar para o mapa e perceber que ao longo do corredor a distancia entre as duas áreas se tornava menor em relação à espessura da parede era algo que ele podia ter pensado mesmo, pois a seguir àquela sala percebia-se que a espessura voltava a aumentar.
    - Tivemos sorte em acabar nesta sala! – Disse o rapaz. Ficou feliz com a noticia, mas triste com aquilo que teria de fazer logo de seguida. Ele teria de explodir com a sala de controlo, ele não iria ter tempo de sair dela.
    - Achas que por trás daquela porta não teremos híbridos? – Questionou Will. – Não acredito que ele a tenha deixado livre.
    - Não temos outra hipótese! – Dizia Peter enquanto os murros à porta continuavam. – Toda a certeza que tenho é que não há tempo a perder, ou vamos agora ou morremos aqui!
    - Eu vou! – Voluntariou-se Will. – Eu vou à frente e explodirei a parede. Temos três explosivos, restarão dois para a sala de controlo. Eu irei à frente e o Adão seguir-me-á logo depois, com uns minutos de atraso, para que mal eu expluda com a parede ele acabe com a sala de controlo.
    - E eu? – Perguntou Peter.
    - Tu? Bem, algum de nós terá de sair vivo daqui. – Will foi até ao outro segurança que conhecera e partilhava a mesma missão dele. Abraçou-o e atirou para dentro do seu bolso algo que Adão não percebeu o que era, talvez fosse algo que teria um grande valor sentimental para ele. - Tens de o fazer! Tens de o fazer o mais rapidamente possível! – Disse o homem por fim, abraçando Adão, embora olhando para Peter enquanto o abraçava.
    Will abriu a porta que levava à área desconhecida e fechou-a, para que se algum híbrido ali estivesse não entrasse por aquela sala.
    - A quem estava ele a referir-se quando disse que tinha de o fazer depressa? A ti ou a mim? – Perguntou Adão ainda com a curiosidade sobre o que Will tinha posto no bolso de Peter presente.
    - Não sei Adão, não sei! Mas é provável que se esteja a referir a nós dois. – Respondeu o homem, colocando a mão no bolso e retirando de lá o que Will lhe tinha colocado.
  

- Tens de o fazer! Tens de o fazer o mais rapidamente possível! – Disse Will, abraçando Adão, embora o seu olhar estivesse virado para o seu amigo Peter.
    Quando se despediu, abriu a porta que dava acesso ao desconhecido e entrou. Estava escuro, as luzes estavam apagadas, acendendo à medida que Will passava em cada sensor. Trazia consigo o mapa, olhando sempre para a zona onde provavelmente seria a parede onde se encontrava a pequena espessura que dava acesso a uma sala da Área X. Ele tinha de ser rápido, não havia tempo a perder, o relógio estava em contagem decrescente e um segundo a mais poderia ser fatal e os híbridos entrariam no Quarto da Ovelha.
    Quanto mais se aventurava por aquele extenso corredor mais vontade tinha de saber o que se encontrava por detrás daquelas portas. Uma delas parecia ser de uma garagem. Will deduziu que fosse ali que se encontrava o grande avião supersónico que assustava todo o mundo sempre que era visto sobrevoar o céu. Ele não estava ali naquele momento, ou estaria ali um outro de reserva para o caso de um se avariar? Will sentiu-se tentado em espreitar, mas e se estivessem por lá híbridos a guardá-lo? Híbridos! Essa era outra das principais coisas que lhe estavam a invadir a mente naquele preciso momento. Como George foi tão parvo ao não colocar híbridos a guardar aquele sitio? Talvez pensasse que nunca ninguém ali chegasse. Ou talvez ele mantivesse aquele corredor livre para se algum dia ele precisasse de fazer aquilo que ele estava prestes a fazer naquele momento.
    Continuou a percorrer aquele corredor silencioso. O silêncio conseguia fazer aquele sitio um lugar sinistro. Will receava a cada passo que dava que algo pudesse surgir das sombras enquanto a luz não ligava. Ele não conhecia George pessoalmente, mas sabia que ele era um homem de surpresas, sabia que provavelmente ter deixado aquele corredor sem qualquer tipo de segurança podia não ter sido um mero acaso. Não existia também qualquer sinal de Adão, aquele que iria rebentar com a sala de controlo, mas isso não era algo que o fizesse temer, ele podia correr quando ouvisse o estoiro da bomba que iria chegar ao local no momento exato em que tinha de chegar. Ele vira-o correr, ele vira a sua velocidade, ele sabia que ele o era capaz.
    Não havia nada, nenhuma marca na parede que indicasse que era o local que o homem tinha de explodir a bomba. Viu novamente o mapa e observou o espaço da Área H que estava perto da parede menos espessa. Observou que a sala que se encontrava ao lado dessa parede era uma sala grande. Havia uma porta mesmo ao seu lado e ele tinha de ser rápido, ele tinha de perceber a dimensão da sala, tinha de perceber se era ali que era o local onde ele iria explodir a bomba.
    Abriu a porta e ficou incrédulo. Era uma sala enorme cheia de camaratas. E nelas havia centenas de rapazes deitados. Rapazes completamente iguais. Ainda não tinham a idade que tinham os híbridos que andavam a lutar no mundo, deveriam ser os últimos a ser clonados, mas provavelmente teriam força suficiente para o matar antes que a bomba fosse explodida.
    Ficou ainda mais aterrado quando um abriu os olhos de repente. A seguir um outro abriu, e outro. Ele fechou a porta desesperado. Eles não o conheciam e o instinto predador daqueles miúdos já devia estar incutido neles desde cedo. Ele tinha segundos para rebentar com aquela parede. A sorte de Will era que a bomba estava programada, era só carregar no botão e aguardar segundos. Foi isso que fez.
    A bomba explodiu no local exato. Ele conseguiu correr uma boa distancia para que não ficasse ferido, mas a porta da camarata dos híbridos abriu-se, era impossível escapar. Correu para o buraco que abrira na parede mesmo achando que isso era impossível. Conseguiu atravessá-lo, mas os híbridos que não pareciam ter mais de dez anos corriam atras de si. Ainda não estavam totalmente treinados porque apenas um ou outro usou uma velocidade maior e Will conseguiu golpeá-los de forma a livrar-se deles. O pior foram os híbridos que surgiram a seguir, aqueles que provavelmente se encontravam à porta do Quarto da Ovelha que foram para ali assim que ouviram o barulho da explosão. O segurança percebeu que não tinha escapatória, estava completamente encurralado.
    Antes que os híbridos começassem a agredi-lo em todas as partes do corpo, Will vislumbrou alguém a correr. A esperança de que fosse Adão fê-lo sorrir antes de começar a ser pontapeado e perder os sentidos.


Enquanto estava no avião, Peter pensava em tudo o que tinha vivido há menos de um dia. Tentava dormir, mas não conseguia, era difícil fechar os olhos e não voltar a estar no Quarto da Ovelha. Fechar os olhos levava-o para aquele local novamente, para o barulho dos híbridos a tentar rebentar com a porta, levava-o novamente para aquela situação de sufoco e pressão que nunca tinha sentido antes.
    Olhou para o banco do lado. Estava vazio. O seu companheiro do lado não estava ali, provavelmente levantara-se para ir até à casa de banho, mas esse colega de viagem não era Will. Will tinha-se sacrificado, tinha feito um buraco na parede para que Adão pudesse cumprir o seu objetivo. 
    - Abriste os olhos! Pensei que estavas realmente a dormir. – Disse uma voz que já lhe era tão familiar. A sua esposa estava ali, ia deslocar-se com ele a Vale do Fim. Ela era um porto de abrigo que ele precisava naquele momento. – Estavas a pensar nele, neles? – Não era uma questão.
    - Foste onde? – Perguntou-lhe o homem, sem responder à pergunta que a sua mulher tinha feito.
    - Ver se ele estava bem! Ele não precisa de se esconder da população. Ele ajudou a salvar todo o mundo!
    - Mas ele é igual a todos aqueles que o ajudaram a destruir a paz! Eu entendo-o, entendo o Adão! Ele ainda se sente culpado pela morte do Will? – Perguntou Peter curioso.
    A sua mulher agarrou-lhe a mão!
    - Sim, tal como tu! Vocês não foram os culpados da morte dele, ele foi o salvador da humanidade, ele será relembrado por todos os que o conheciam como aquele que livrou o mundo de um ditador como existiram em tempos passados.
    Peter percebeu que a sua mulher não compreendia. Will era um mártir, um homem que se sacrificou para salvar todos, mas a sua vida podia ter sido salva, podia ter sido evitada a tempo. Podiam estar ali os três naquele avião, a caminho de Vale do Fim. Will seria lembrado por todos, poderia até receber uma estátua perto do sitio onde a Área X estava sediada, mas de que valia, de que valia ser relembrado se um dia, uma geração futura o iria esquecer, iria esquecer todos os feitos que ele fizera, iria esquecer que ele deu a vida dele para que os outros pudessem ser livres para sempre.
    - Sabes porque me culpo ainda mais? – Disse ele novamente para a mulher. – Porque ele tinha tudo em mente desde o inicio, desde a entrada na Área X que ele sabia o rumo que queria tomar. Ele estudou o mapa como eu, ele sabia que o Quarto da Ovelha era perto do sitio onde ele agarrou o outro hibrido. Ele projetou tudo para nos salvar e nós nem tivemos tempo de lhe agradecer, ele sabia que ia morrer, mas mesmo assim sorriu, mesmo a dar-me o papel, a abraçar-me, ele encarou tudo isto como um sorriso.
    A mulher abraçou-o quando o viu a soluçar, quando o viu desvair-se em lágrimas. Ele tinha razão para estar assim, se Will tivesse conversado com ele, eles arranjariam uma solução, em vez disso ele escreveu uma carta e escondeu-a na mala de Adão que ficara no apartamento de Lígia e Joel. O papel que ele lhe pusera no bolso eram apenas indicações que se ele lhe tivesse dado mais cedo poderia o ter salvo. Peter sabia, se havia um chip, só podia haver um controlo, só havia forma de capturar um hibrido, se esse hibrido explodisse o buraco ele não iria explodir a sala de controlo, Adão teria de ser aquele que iria colocar a bomba e morreria antes de conseguir sair. Culpava Will por não ter contado sobre aquilo, culpava-o a ele tanto como culpava a si.
    A sua mente voltou atrás, ao momento em que o silencio reinou no Quarto da Ovelha logo após a explosão na sala de controlo. Ele e Adão saíram pela porta da Área H na esperança de encontra-lo vivo, que tivesse conseguido fugir dos híbridos depois de abrir o buraco na parede. Quando o encontraram ele estava por baixo de um monte de clones. Estava a sorrir e uma lágrima cintilou no canto do olho. Peter não sabia se aquela lágrima significava felicidade por provavelmente ter visto o clone passar e destruído a sala que precisava de ser destruída, ou apenas de dor, de sofrimento. Tudo podia ter sido diferente, era tudo o que vinha na cabeça de Peter. Adão ficara igualmente fragilizado com tudo aquilo, ele fizera aquele ato para o salvar, tal como escrevera na carta que lhe deixara.
    Chegaram a Vale do Fim ainda o sol brilhava. Peter pensou que há vinte e quatro horas tudo estava a acontecer, tanto na Área X como ali, no local onde se encontrava agora mais a sua esposa e Adão.
    Foi inexplicável a sensação que sentiu quando viu a mãe do rapaz abrir a porta do carro assim que ele parara o seu veiculo alugado e abraçou o filho. Era aquilo que Will queria que acontecesse, que aquela mulher tivesse a alegria de poder conviver com o filho depois de tantas e tantas desgraças ao longo da sua vida. Era o momento daquela mulher ter paz, era o momento daquela mãe finalmente poder ter o seu tempo com o filho que lhe fora retirado à nascença e que, se o pior acontecesse, lhe seria retirado para a vida. Foi naquilo que Peter pensou no momento em que vira aquela cena, que o Will tinha tomado a decisão por ter um coração de manteiga, por querer ver aquela mulher ter o seu final feliz.
    Ao ver os dois sorrirem Peter não teve coragem de sair do carro, apenas ficou a observar Alina e Adão num misto de alegria e choro. Chorou também, as suas emoções estavam à flor da pele naquele momento. A sua mulher agarrou-lhe a sua mãe e os dois ficaram ali a contemplar aquele amor entre mãe e filho que se tinham voltado a juntar. Se Will ali estivesse tinha chorado com eles, era aquilo que ele queria ter assistido!

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