Header Ads

Vale do Fim | Capítulo 37 (Parte 1)

 
Também disponível no Wattpad em http://goo.gl/uVVbsb 

Capítulo 37 (Parte 1) - Domínio da Mente


    Quando a porta do seu avião supersónico se abriu, George observou as gigantescas árvores que tornavam Vale do Fim um sitio verde. Algo que também o fazia sorrir era a aragem que lhe batia na cara, fresca e tão agradável, sem qualquer tipo de poluição. Fechou os olhos, mas não sem antes verificar se alguém o estava a ver. Não queria ser apanhado de forma descontraída, com um sorriso no rosto. Para o mundo ele era um monstro, e os monstros não sorriam. Isso não era verdade, ninguém era verdadeiramente um monstro. Ele podia ter feito tudo aquilo, podia ter destruído milhares de pessoas, podia ter tornado o mundo numa anarquia total, mas no seu ver ele não era um ser maligno, não totalmente. Um ser maligno não sentia amor por ninguém e ele ao longo da sua vida sentiu amor por vários. Sentiu amor pela mãe do seu filho, pela sua família, pelo seu irmão gémeo August e pelo seu irmão mais velho, principalmente por estes últimos dois. Ele gostava tanto do pai de Alina que batizara o rapaz que levara consigo para Antártida de Adam, tal como ele se chamava. Ele podia ser um monstro, mas também era um ser humano, por vezes. Se não fosse não precisaria daquele pequeno rapaz para não se sentir só. Todos os humanos precisavam de companhia, todos os monstros viviam sozinhos.
    Ao fechar os olhos e a sentir aquela aragem, o seu pensamento vagueou, levando-o até à sua infância, até Vale do Fim de quase sete décadas atrás. George corria pelos campos com os seus dois irmãos. O Adam estava à frente deles pois era mais velho e consequentemente mais rápido que eles. August conseguia também ganhar um pouco de avanço, sempre olhando para trás a troça-lo. Eram felizes. Faziam fisgas com a madeira dos ramos das árvores que Adam tirava quando subia nelas. Por vezes George atirava a pássaros que estivessem a voar baixo e dissecava-os. Sempre tivera interesse em saber como tudo funcionava por dentro daquele corpo, sempre se sentira um homem da ciência. Não era o único, os seus dois irmãos também gostavam de tudo o que se relacionasse com experiências. O irmão mais velho gostava de misturar líquidos, soros com ácidos, fazer engenhocas com tudo o que fosse solúvel. Muitas vezes acabavam por ser bons venenos para ratos. George não ficara admirado quando ele dissera que criara um soro que conseguia fazer uma pessoa obedecer a todas as suas ordens. Infelizmente a sua loucura, aliada às más influencias das drogas fizeram-no usar a única amostra desse soro na sua filha. Felizmente os três eram uma equipa e George criara um soro, que evaporado, as pessoas que o inalassem teriam transformações físicas sobre-humanas, um organismo capaz de resistir a qualquer tipo de ataque. August fora a mente por detrás da junção daqueles dois projetos. Infelizmente August era um homem bom demais, queria salvar o mundo de todas as doenças, uma potencialidade que as pessoas não mereciam. Ele não entendia como as pessoas podiam ser cruéis, mas ele não tinha culpa de ser um rapaz popular, de não viver na sombra como George vivera, de ser gozado, de ser espezinhado, de ter sido completamente ostracizado nos tempos de escola. Naqueles tempos o bullying podia ainda estar longe de ser algo que fosse problemático, a violência não era tanta pois o sistema era mais rígido, principalmente no seu colégio, um colégio que o seu pai podia pagar, mas os seus sentimentos não. Fora para ele um pesadelo quando o pai revelou que tinha conseguido um alto cargo em Inglaterra, que tinham de ir para lá. O seu progenitor estava extremamente feliz, iria voltar à sua terra natal, a sua mãe partilhava a alegria do marido assim como os seus irmãos, mas George, ele amava Vale do Fim, amava aquela calmaria, amava aquela floresta, ele não queria ir, ele queria ficar. Era feliz ali, foi mais que infeliz lá. Com o passar dos anos ele achou na ciência um escape para o seu coração não se sentir tão solitário. Ele tinha os irmãos, mas os irmãos tinham um grupo que os ajudaria a erguerem-se. Ele sentia inveja de eles serem mais sociais, sentia inveja deles serem admirados e ele não.  
    Os anos passaram e George estava cada vez mais fechado, cada vez mais arrogante, cada vez mais distante do mundo. Os tempos de faculdade fizeram-no conhecer muitas pessoas, em especial Robert, um ser desprezível que o atraiçoou com uma das experiências mais importantes, mesmo assim ele aceitou-o anos mais tarde no GDC, recebendo em troca uma segunda traição. Lembrar-se daquele homem dava-lhe um sorriso no rosto, pois recordava-se da última vez que o vira, a ser completamente chacinado pelos híbridos quando estupidamente teve a ideia de raptar um.
    A morte de Adam fizera-o ainda um ser mais frio, mais cruel. Ele não conseguia olhar para Alina, mesmo sendo uma bebé, uma menina de dois anos. Também não conseguia olhar para a mãe dela, por isso, assim que elas chegaram à Roménia, George seguiu-as. Ele próprio matou a mãe daquela menina, culpando-a por ter morto o irmão dele, uma das duas únicas pessoas que ele tinha no mundo. Ela sabia que no fundo o irmão se tinha morto a ele próprio. Tinha exagerado no consumo de cocaína, morrera de overdose, mas ele culpava-a por ela o ter inserido naquele mundo. Contudo não conseguiu matar a bebé, ela era sangue do seu sangue, e, além disso era o único ser que tinha o Projeto CM no corpo. Adam foi uma pessoa muito inocente ao pensar que George não usaria a sua filha se fosse necessária para todos os seus projetos. A discussão acontecera dois dias antes dele morrer, ele encontrar esboços de Projetos, descobrira que ele comandava uma pequena organização na faculdade, um grupo que não tinha grande amor pelos bons sentimentos, uma sociedade que poderia inquietar qualquer um com os seus ideais. No meio dessa discussão ele pegou no frasco, ele estava drogado, George lembra-se bem, talvez são ele não tivesse feito aquilo. Alina era a única pessoa em casa além deles. Ele pegara numa seringa que tinha e injetara o liquido na bebé dizendo que assim nunca ninguém lhe iria tocar, que nunca ninguém saberia como a controlar. Ele acabou por ter razão, acabou por levar essa resposta para o túmulo junto com ele. Mas George não desistira, e durante anos procurou uma forma. O principal entrave era nunca saber se aquilo estava certo ou não. Foi com receio que teve medo que não resultasse na noite em que Alina foi até ao convento matar aquela falsa Madre Superiora. Felizmente tudo isso correra bem, exceto o facto de August ter descoberto os seus planos e ele ter novamente perdido o Projeto CM. Isso fê-lo novamente atrasar o seu processo de criação de um Hibrido. Felizmente o seu irmão continuou com a sua fixação de salvar o mundo e criou-o por ele.
    Continuou a caminhar pelo meio das árvores. Mesmo atrás de si os híbridos seguiam-no de cabeça baixa, de olhos bem aberto a olhar o chão. Ele sabia que o seu filho e os restantes elementos da Rebelião certamente o esperariam ali, por essa razão ele decidira escolher o caminho mais longo. Queria fazê-los esperar, e sobretudo queria apanhá-los de surpresa. Iria passar pelas traseiras da moradia que um dia pertencera à sua família e apanhá-los de surpresa.
    Mesmo não querendo, ele estava feliz por ir ver o seu filho. Mesmo estando a lutar do lado oposto ele ainda era sangue do seu sangue, conviveu com ele grande parte da sua vida. Por vezes chorava durante a noite, quando até o pequeno Adam se encontrava a dormir. Sentia-se triste por o filho não estar do lado dele naquela altura, por o filho não entender que nem todas as pessoas mereciam ser ajudadas, que provavelmente alguma das que ele estaria a ajudar algum dia se iriam virar contra ele. Infelizmente ele tinha saído ao tio naquele aspeto, era bastante benevolente.
    Quando chegou perto da casa o seu coração começou a bater mais rápido, era um momento decisivo o que ali iria acontecer, ele iria ter a cura da doença e poderia assim contaminar ainda mais pessoas que iriam fazer tudo o que ele pedisse para a obter. Ele iria dominar o mundo não só através dos híbridos como com a doença criada devido ao seu desenvolvimento. Se ele já dominava grandes pontos do território global, com a cura ele dominaria o mundo inteiro. Ele precisava dela, precisava de levar a pequena Maria assim como no passado levara Adão.
    Quando estava prestes a virar a esquina da vivenda, George colocou a mão num bolso e tirou uma pequena pistola. Quando os viu de costas sorriu. Apontou a pistola ao seu alvo e disparou sem hesitar, vendo-o a cair no chão.

Sem comentários