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Vale do Fim | Capítulo 24 (Parte 2)

 
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Capítulo 24 - A Cobaia (Parte 2)

      Edgar acordou num lugar que não conhecia. Sentia-se fraco e sem forças, muito provavelmente devido ao soro que lhe fora administrado no seu pescoço. Aos poucos recuperava, através de flashes, as memorias daquilo que tinha acontecido antes de cair inanimado. Estava preocupado com o seu pai. Ele tinha ido para o centro do concelho onde a aldeia pertencia. Ele e um grande grupo de habitantes estavam determinados a matar August e a sua equipa de cientistas. Ele não percebia porque se sentia preocupado com um bando de gente que o tinha feito passar pela pior experiencia da sua vida até ali. No fundo ele só estava preocupado com Viktor. Ele podia não ter gostado do rapaz durante muito tempo mas no fundo foi o único que conviveu com o pequeno grupo durante toda a jornada que passaram. Ele estava sempre ao pé deles quando eles precisavam do que quer que fosse.
    Não demorou muito tempo até que alguém entrasse naquela pequena camarata que tinha apenas uma cama e uma mesa-de-cabeceira com um candeeiro. Quando o rapaz entrou Edgar estava sentado no chão. Ele conhecia-o, ele era do PastFuture. Ele era um dos cientistas do August. Isso fê-lo sentir uma raiva enorme e levantar-se e dirigir-se a ele. Ainda cambaleava e a força para lhe dar um murro desvaneceu-se por completo.
    - Calma rapaz! Não estou aqui para te fazer mal, muito pelo contrário. Estou aqui para te ajudar a permaneceres vivo.
    - Então o August tinha tudo planeado! Ele já tinha o Joel no seu comando! A PastFuture fugiu toda antes dos aldeões chegarem ao barracão. – Isso fazia-o odiar ainda mais o velho líder dos cientistas. Ele tinha sempre tudo estudado, não havia nenhuma ponta solta, pelo menos era o que lhe parecia.
    - Estás enganado Edgar! A PastFuture já não existe. Foi extinta assim como o barracão onde eles estavam sediados. Eu nunca pertenci ali, eu sou e sempre serei do GDC.
    - GDC? Que raio é isso? – Edgar estava confuso, nunca tinha ouvido falar daquilo. – Eras um infiltrado?
    - Sim, era um infiltrado de uma organização que opera nas sombras. GOD, DEUS, CIENCE-CIENCIA. A PastFuture já não existe, assim como o seu fundador.
    August estava morto. O homem que ordenara o lançamento do soro no autocarro da excursão tinha morrido. Não desejava a morte a ninguém, mas não conseguia estar triste ao ouvir aquela notícia. Havia no entanto algo que o preocupava.
    - E o Viktor?
    - Está morto, assim como o resto da equipa.
    Edgar não sabia porquê, mas sentiu um aperto no peito ao ouvir aquilo. Talvez gostasse mais do rapaz do que demonstrou sempre que esteve perto dele.
    - Onde eu estou? Porque não me deixam ir para perto da minha família? Para onde me trouxeram? – Gritava até conseguir obter uma resposta.
    Santiago olhou para o corredor e certificou-se que ninguém estava por perto. Fechou a porta e sentou-se no chão. Pediu a Edgar que se sentasse ao pé dele. Ao inicio contestou, mas percebeu que só daquela forma ia conseguir saber o que queria.
    - O Joel salvou-te. Eu salvei-te. Achas que te prendemos mas é melhor este cativeiro do que a morte.
    Edgar só pensava em como aquele rapaz ali à sua frente só poderia estar louco. Como era possível estar a dizer que o tinha salvo se ele estava ali preso.
    - Sabes onde estão a Olívia e a Eva? Prontas para serem enterradas! Se o Raul conseguiu sair a tempo pode-se considerar são e salvo, se não é provável que esteja morto também. Todas as cobaias do MG estão a desaparecer, mas eu salvei-te. O Joel não teve coragem de te matar e eu convenci quem tinha a convencer que tu ainda poderias vir a ser útil para nós.
    - Para que me querem vivo? Para testarem mais uma bizarrice qualquer? – Confrontou-o Edgar. Mesmo quase sem forças ele mostrava não ter medo de ninguém.
    - Se eu te disser que tu és dos únicos portadores de uma doença desconhecida para a ciência, tu acreditas? Uma doença que desconhecemos por completo, algo que nem sabemos ao certo se o filho da Alina cura ou não. A doença que denominamos Doença Negra é algo da qual sabemos muito pouco ainda e podemos usar-te como peça chave. – Declarou o cientista.
    - Novamente uma cobaia é isso? Vou ser novamente um objecto de estudo nas vossas mãos! É isso que me queres dizer? – Edgar não sabia se aguentava novamente ter uma vida como tivera naquele último ano.
    Santiago colocou-lhe a mão sobre o ombro, parecia querer reconforta-lo, mas ele rapidamente fez com que o cientista a retirasse. Não queria falinhas mansas, queria apenas voltar a ter uma vida normal, a vida que Viktor lhe prometera quando disse que tinha começado a trabalhar na cura. Ele agora estava morto e ele voltou a ser uma cobaia de um projecto completamente diferente do MG. Seria para ser cobaia que tinha nascido. Começava a acreditar que sim.
    - Compactua connosco Edgar. Compactua comigo, com o Joel e com a Lígia. Nós não vamos deixar que te façam mal, se quiséssemos tu já estarias morto há mais de doze horas. – Disse Santiago, deixando-o sozinho de seguida.
    Sem conseguir fugir, pelo que via havia seguranças mesmo à porta daquele corredor como se ali se guardasse o maior tesouro alguma vez visto. Eles não deveriam estar ali por ele mas sim pelo pequeno bebé que ele ouvia chorar vezes sem conta ao longo do dia. Era nessas alturas que via a secretária do senhor Joaquim entrar no quarto onde se encontrava a criança e percebeu que também ela estava metida naquilo até ao pescoço. Como ninguém tinha percebido de um monte de gente infiltrada na aldeia?, era o que mais intrigava Edgar. Joel era um membro influente da esquadra de polícia do concelho, Lígia a secretaria do presidente e Santiago um dos cientistas que pertencia ao grupo de experiencias do MG. Todos contactaram de certa forma com eles e nunca ninguém deu conta de nada. Eles tinham tudo estudado e eram certamente bastante engenhosos na arte da infiltração.
    Santiago, Ligia e Joel iam várias vezes até àquele corredor vazio onde mais ninguém ia. Por vezes ia um homem que Edgar jurava ser o August mas que tinha uma bengala para o ajudar a caminhar. Eles iam sobretudo pelo bebé, o que quer que ele fosse. Edgar sabia que não tinham passado mais de seis meses mas aquele bebé que chorava já falava como um miúdo de três ou quatro anos. Ele apenas o conhecia pela voz. Nunca o quis visitar. Todos aqueles quartos ao longo do corredor encontravam-se vazios à excepção do dele e daquele miúdo.
    Uma noite foi acordado por alguém que lhe batia insistentemente no braço. Ele esfregou os olhos para ver se o que estava a ver era real. O bebé que ouvia há pouco mais de seis meses estava agora ali ao pé dele e aparentava ter cinco anos.
    - Desculpa estar-te a acordar. Mas sinto-me sozinho ali e tu também te deves sentir aqui. Além disso… - o rapazito deixou de falar e meteu o dedo na boca, parecendo-se arrependido do que ia dizer. - … o Santiago está-me a dizer que te sentes triste por estares longe de casa.
    - O Santiago?! – Edgar achava que aquele miúdo devia estar a delirar. Nunca ninguém se deslocava àquele corredor durante a madrugada. As últimas pessoas que ali se deslocavam costumavam ser a Lígia e o Joel e eles já se tinham ido embora há algumas horas atrás. – É impossível estares a ouvir o Santiago puto, deixa-me dormir. Isso é tudo da tua cabeça.
    - Não, ele está mesmo a dizer-me para vir ter contigo, que devíamos ser amigos, tal como tu eras amigo do meu pai! – Respondeu o menino.
    A mente de Edgar pareceu ter dado um nó. Depois de pensar aquilo fazia sentido, aquele devia ser o filho que Artur e Alina esperavam com tanta ansiedade. Como tinham sido eles capazes a eles? Tudo em prol da ciência? Edgar sentia-se cada vez mais devastado com tudo aquilo.
    - Sabes, eu oiço vozes na minha cabeça quase a toda a hora. Bem durante muitas horas do dia não as oiço, mas actualmente eles falam muito. Quem eu mais gosto de ouvir é o Santiago, ele, a Lígia e o Joel. A voz do senhor mais velho causa-me arrepios sabias? – Disse o pequeno miudinho.
    - Como consegues tu ouvir as vozes deles sem eles estarem aqui? – Questionou intrigado, ainda mais intrigado do que pensar na razão que fez o rapazito crescer tão rapidamente.
    O pequeno rapaz baixou o pescoço e tocou na cicatriz que tinha. Edgar pôde pela primeira vez vislumbrar o alto que ele tinha no pescoço. Assemelhava-se a um caroço.
    - O Santiago diz que isto é um chip. Um cartão onde estão gravados os timbres de voz dos que me podem controlar.
    Edgar ficou boquiaberto quando ele lhe disse aquilo. Surpreso e aterrado com o que podiam estar a fazer ao miúdo. Ele sabia um pouco sobre a história de Alina, que ela podia ser controlada pela mente, mas nunca lhe tinham introduzido um chip. Aquela crueldade fazia-o sentir medo de continuar ali.
    - Não te dói? Não te dói teres isso aí? – Perguntou ao olhar para o rapaz que lhe fez um sorriso inocente antes de dizer o que quer que fosse. Nesse momento ele viu Artur nele. Era exactamente o mesmo sorriso, exactamente a mesma expressão que o pai tinha.
    - Não! Já o tenho há muito tempo. Desde bebé!
    - Tu eras um bebé! Aliás ainda devias ser um! – Declarou Edgar ao olhar novamente para ele.
    - O Santiago diz que eu me desenvolvo muito mais rápido que uma criança normal, que as mutações do meu corpo me fazem crescer mais depressa até atingir a puberdade pelo menos.
    Isso fazia as coisas ficarem mais claras para Edgar. Claro que os bebés que Alina carregava no ventre tinham de ser diferentes. Eles eram a junção de dois dos Projectos de August e George. Tudo começava a fazer sentido.
    Os meses passaram e Edgar apenas tinha Santiago e Adão. Eram eles os únicos que lhe falavam, os únicos com quem convivia. Joel e Ligia tentavam pôr conversa com ele mas ele não queria, estava magoado com o que eles lhe tinham feito, traíram as pessoas que confiavam neles. Ele não perdoava traições daquele tipo. Santiago podia tê-los traído, mas nunca tinha tido assim tanto contacto com os sobreviventes como eles dois.
    Adão cresceu a uma velocidade estonteante. Com cinco anos já aparentava ter dez e, embora com uma regressão da velocidade continuou a crescer rapidamente nos quatro anos que se seguiram, parecendo cada vez mais um adolescente de catorze, quinze anos.
    Foi nove anos depois de estar preso ali que Edgar começou a ter o primeiro sintoma. O sangramento do nariz, a coceira no braço, as tonturas, a perda de forças. Foi aí que descobriu que estava doente, embora não soubesse que doença era aquela. Santiago também não sabia, pelo menos era o que lhe parecia. Mas havia algo que o salvava, pelo menos ao inicio. O sangue de Adão. Ele conseguia regredir a doença através do sangue do pequeno híbrido que ali tinha.
    Quando Santiago entrou naquela sala a sua pele estava a sangrar novamente, mas ele sabia que não podia levar uma transfusão de sangue de Adão. Ele tinha visto o rapaz a ser levado por ele, sabia que Santiago o ia deixar ir até Alina que também se encontrava doente.
    Ele coçou a cara e percebeu que a pele tinha vindo com as unhas. Percebeu que a doença estava a avançar cada vez mais e não sabia se Santiago o podia salvar. Naquele momento não sabia se era preferível morrer a estar vivo.

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