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Vale do Fim | Capítulo 24 (Parte 1)

 
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Capítulo 24 - A Cobaia (Parte 1)
 
10 Anos atrás
   
    Quando Joel tirou a seringa do pescoço de Edgar ele caiu-lhe nos braços. Estava tão frágil, tão indefeso naquele momento. Ele não o conseguia matar. Joel nunca tinha morto ninguém na sua vida. Desde que era inspector sempre tentou nunca acertar a matar em quem quer que fosse e agora estava ali, no maior dilema da sua vida. A ordem de George era simples, matar todos aqueles que tinham levado a vacina para a cura do Projecto MG que Viktor tinha administrado aos sobreviventes. Primeiro mataria Edgar, depois mataria Olívia. Eva não seria necessário, pois a rapariga iria correr para o barracão para junto de quem amava, se não morresse no fogo, George iria matá-la. Os três seriam portadores da doença negra, pelo menos era o que o seu chefe dizia. Pouco sabiam da doença, mas George receava que ela se pudesse propagar pelos seres humanos causando uma pandemia mundial. Os únicos que ele queria vivos era Miguel e Artur, esses sim poderiam ser úteis um dia mais tarde. Alina ainda foi um nome colocado em cima da mesa, mas George ainda devia ter algum amor naquele buraco negro onde um dia esteve o seu coração e essa ideia foi posta de parte.
    Ele não podia matar um rapaz, um adolescente que não tinha culpa de ter embarcado num autocarro que ia servir de experiencia científica. Ele não o podia matar. Não, ele não podia fazer isso àquele pobre rapaz que agora estava sereno depois de tanto lhe dar luta. Em vez disso levou-o para o seu carro e colocou-o no seu porta-bagagem. Seguiu até à casa onde Olívia se encontrava. Joel sabia o quanto Lourenço ainda gostava da mulher, sabia que ele iria ter com ela enquanto a missão Guernica decorria. Era por saber desse amor maior que Lourenço sentia ainda pela mulher que deixou, que George apenas dissera a Joel para a matar. Mais uma morte que iria ter nas suas mãos. Morte, essa, que não chegou a ser culpa sua. Ficou chocado e surpreendido quando viu tal cenário na casa do ex-presidente do concelho. Rapidamente chamou uma ambulância numa chamada anónima.
    Não ficou ao pé da residência tempo suficiente para ver a ambulância chegar lá, queria chegar o mais rápido possível ao aeródromo onde os outros esperavam, a mais de cinquenta quilómetros de distância. Enquanto acelerava pela estrada quase deserta pensava no que ia dizer a George quando ele visse Edgar com eles. Iria chama-lo de fraco, de maricas, que nem para matar um puto de dezasseis anos servia. O George que conhecera há alguns anos parecia muito diferente daquele com quem convivia naqueles tempos. A sua preocupação era controlar o híbrido e tudo aquilo que ele podia trazer.
    Quando chegou ao aeródromo Lígia e Santiago já lá se encontravam. Santiago tinha o pequeno Adão ao seu colo. Parecia um pouco desajeitado ao pegá-lo, mas ele também não o podia censurar, iria certamente fazer a mesma figura. Ele e Lígia também queriam ter um filho, mas o GDC e as ideias que George os levava a crer deixaram isso para segundo plano.
    - O que tens na mala do carro? – Perguntou Lígia quando ouviu um barulho vindo do porta-bagagem.
    Ao ver Santiago com o bebé fê-lo por momentos esquecer que tinha um problema maior entre mãos. Foi até à parte de trás do seu carro e abriu a bagageira. Foi aí que viu que Edgar tinha acordado com o seu mau humor habitual, mas daquela vez tinha razão. Joel lembrou-se que tinha outra seringa no bolso e voltou-o a pôr a dormir.
    - Trouxeste o rapaz contigo? Foi por isso que demoraste tanto? – Perguntava Lígia quando a noite já era cerrada.
    Um novo carro chegou ao aeródromo, parando mesmo junto ao pequeno avião que os ia transportar. Desse carro saíra George. A sua bengala estava ainda vermelha, parecia ser sangue fresco que ele não tinha limpo. Quando viu que Edgar estava perto deles ficou furioso.
    - Eu disse-te para o matares e te desfazeres do corpo e tu trazes-me o rapaz para aqui?! – Os seus olhos pareciam deitar chamas. Talvez o fogo do barracão tivesse consumido o pouco da alma que tinha e agora um pobre demónio naquele mundo negro que ele tanto almejava ter.
    - Fui eu que lhe disse para não o matar! – Disse Santiago antes que Joel tivesse tempo para responder.
    O investigador olhou para ele e ele olhou para ele acenando com a cabeça. Não sabia o que ele estava a tentar fazer mas o melhor seria deixa-lo fazer o que ele queria. Santiago sabia que o pai o queria na equipa e George sabia muito bem que tinha de seguir as regras que ele impunha para que ele lá ficasse. Santiago tinha George nas mãos. Se alguém que ele queria ao seu lado era o seu filho.
    - Eu disse para ele não matar o Edgar e a Olívia. Principalmente o Edgar. Ele é jovem, ele pode ser muito importante para podermos estudar a doença negra. – Declarou o rapaz.
    - Sabes que isso é uma loucura?! Nós nunca estudámos a doença ao pormenor, não sabemos se ela se transmite entre humanos e vocês trazem-me portadores da doença? Eles são mais que propícios a apanhá-la, eles tomaram um antídoto qualquer para que perdessem as mutações, sabes o que isso significa? A doença vai avançar, vai avançar a um ritmo muito mais alucinante que à Alina quando ela parar de tomar a medicação para o controlo da mente. Como foste imprudente, Santiago! – George voltou-se novamente para Joel. – Mata-o agora Joel. Redime-te do erro que cometeste.
    - O Joel mata-o e eu não embarco no avião! – Declarou Santiago. – E como fará as tão ambiciosas sessões no quarto da ovelha? O pai tem de perceber que o Edgar é importante para nós. Eu irei ser responsável por ele. Se ele causar transferir a doença para outros humanos ela não sairá da Área X.
    A conversa entre George e Santiago prosseguiu ainda mais algum tempo. O jovem parecia determinado em não deixar matar o jovem Edgar. Fez tudo o que esteve no seu alcance para o conseguir persuadir. Era difícil convencer George de alguma coisa. Ele era um homem de ideias fixas. Foram precisos uns bons minutos de conversação para Santiago conseguir alguma coisa. Felizmente conseguiu. A última coisa que Joel queria naquele dia era matar um jovem rapaz que tinha ainda tanto para viver. Talvez não fosse viver, talvez fosse apenas sobreviver, mas era melhor respirar do que deixar de o fazer. Pelo menos era o que pensava Joel.
    - E onde raio anda o Lourenço? Quero deixar a aldeia de uma vez por todas! – Perguntou George e Joel percebeu que ele ainda não sabia do que tinha acontecido.
    - George… o Lourenço, ele matou a Olívia e suicidou-se de seguida! Quando cheguei à casa deles eles já estavam mortos, não havia nada a fazer.
    George mostrou-se abalado. Lourenço era uma das poucas pessoas por quem, aquele homem que liderava aquela organização que vivia nas sombras, parecia nutrir algum tipo de sentimentos.
    - Loucos são aqueles que cometem as maiores loucuras por amor! – Disse, suspirando por fim. Aquele desabafo pareceu-lhe sentido. Joel ficou curioso em saber mais sobre a mãe de Santiago. Ele nunca falara sobre a mulher. Sabia que Santiago sempre vivera com ela mas nunca soube porque os dois se zangaram. O rapaz talvez soubesse, talvez fosse essa a razão pela qual eles tinham as suas desavenças, mas nunca lhe quis perguntar nada sobre o passado. Ele já tinha percebido uma coisa. Por vezes era melhor não saber tudo, isso fazia-o um alvo a abater.
    Entraram no avião. Quando ele levantou voo deu para ver Vale do Fim, deu para ver o barracão onde a equipa de August um dia levantou um pequeno laboratório. Deu para ver que ia ficar reduzido a pó e a PastFuture estava extinta. Extinta também estava a sua permanência em Vale do Fim, talvez nunca mais voltasse àquele lugar. Isso entristeceu-o.

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