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Vale do Fim | Capítulo 23 (Parte 3)

 
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Capítulo 23 - Génesis (Parte 3)
 
Santiago estava sentado no seu grande escritório na Área X. Era um espaço tão grande que além de uma secretária tradicional de um escritório, albergava ainda uma cama, um sofá de um lugar e uma grande televisão pendurada na parede. Muitos eram os dias em que não se deslocava à sua casa na capital. Ele era o responsável pelas principais experiencias que ali se passavam, sobretudo pelas sessões do quarto da ovelha. Longínquo ia o tempo em que as condições não eram as melhores. Ainda se lembrava da dificuldade que teve em criar o lobo geneticamente modificado usado para assustar o condutor do autocarro que transportava dezenas de pessoas para uma excursão. Santiago não sabia que era para isso que o seu pai George queria aquele animal. Se soubesse provavelmente não teria feito nada semelhante. Actualmente os seus projectos iam muito mais além de mutações em animais, iam sobretudo além do impensável. Tudo aquilo que se passava no quarto do coelho era impensável. Impensável para uma civil comum, Santiago e muitos outros membros do GDC sabiam que aquilo era o futuro.
    Santiago não era mais o jovem de vinte e poucos anos que saíra de Vale do Fim. Tinha crescido e sobretudo tinha conhecido o seu pai ao pormenor. E para ele isso não era bom. Via nele homens completamente cruéis que marcaram a história do mundo em tempos passados, responsáveis pelos momentos mais devastadores e bárbaros que a humanidade já tinha passado. Por vezes, sempre que ouvia uma ideia do que o seu pai tinha em mente, uma citação de um grande cientista lhe vinha à cabeça. “Não sei com que armas a Terceira Guerra Mundial será lutada, mas a quarta será lutada com paus e pedras!”, se Albert Einstein ali estivesse certamente iria ver que estava certo no que disse há mais de um século atrás. Por sorte o rapaz tinha privilégios que todos os outros não tinham. George sabia que ele não aceitaria os mesmos critérios que os outros membros, mas queria que ele o acompanhasse na sua jornada, por isso acedia a todos os seus pedidos. Uma das imposições que Santiago colocara ao seu pai foi o de sair do país quando assim quisesse. George era muito rígido nesse quesito. Ninguém que trabalhasse na Área X podia deslocar-se para outros países para que ninguém soubesse em que território se encontrava a sede do GDC. George tinha medo que houvesse um traidor que dissesse em que país se encontrava o centro da organização. Sabendo o país era fácil uma determinada potencia mundial investigar e encontra-los, mesmo vivendo numa área subterrânea.
    Um telemóvel tocou. Ele olhou para o telemóvel que tinha na secretária mas rapidamente percebeu que não era desse telemóvel que se tratava. Era do outro, daquele que escondia do seu pai. Aquele de que George não podia saber da sua existência. Viu quem era e certificou-se que se encontrava mesmo sozinho.
    - Perdeste o controlo ao carro? (…) Tens a certeza que não era o Miguel? O Miguel tem os mesmos poderes que o Adão, podia ter-vos tirado do carro! (…) Sim eu sei que conheces o Miguel, Renato. (…) Estás a falar com a tua filha em casa? – O homem não respondeu e desligou a chamada.
    Quando ia a pousar o telemóvel também ouviu um estrondo, algo de metal a cair no chão. Levantou-se rapidamente da sua secretária e foi ver o que tinha acontecido. Era uma das cozinheiras que tinha deixado a tampa de uma panela cair. Voltou a fechar a porta do seu escritório e sentou-se na secretária. Pensativo no que Renato poderia estar naquele momento a dizer à sua filha Luna, mas contente por Adão ter chegado a Vale do Fim. Finalmente ele estaria com os pais.
    Ao pensar em como seria o reencontro do jovem Adão com Artur e Alina recuou no tempo. Recuou ao dia em que August lhe abriu os olhos em relação ao seu pai. Parecia ter sido ontem. Tudo se encontrava em alvoroço, completamente em êxtase por Artur ter regressado dos mortos depois de Alina o alvejar. Contudo August parecia estar preocupado com outra coisa. Pediu que se sentasse à sua frente. Na secretária tinha um envelope.
    - Sabes, às vezes somos traídos pelo mínimo pormenor. Sei que és meu sobrinho. – Santiago ficou confuso, como podia ele saber daquilo se ele nunca lhe tinha contado. Nunca mencionara o nome do seu pai uma única vez desde que tinha ingressado no extinto PastFuture, mas mesmo assim ele sabia. – Essa marca no teu braço é muito peculiar. Só há uma pessoa que a tem. Eu! – O seu tio August levantou-se e levantou as suas calças até ao tornozelo. E lá estava, a marca que ele tinha no braço.
    - Porque nunca disse que sabia quem eu era? – Perguntou Santiago preplexo.
    - Porque estava à espera de um momento certo para ter esta conversa contigo. Sei que foi o teu pai que mandou alguém trazer-me isto. – August abriu o envelope e tirou de lá a fotografia do quadro de Picasso que baptizou a missão que mais lhe custou fazer. – Acho que isto quer dizer que tenho os dias contado não é? Que vou ficar sem o híbrido, que irei perder. Como lutar com um membro do GDC.
    - Ele não é um simples membro, ele é o seu fundador! – Declarou Santiago. August mostrou alguma surpresa, parecia não estar a espera daquilo, talvez tivesse o irmão em melhor conta.
    - No fundo já o esperava! Apenas não queria acreditar que fosse verdade. O teu pai sempre quis ser mais do que o deveria querer. Ele sempre quis ter o mundo nas mãos, sempre quis conseguir o domínio absoluto de todas as situações em que se encontrava. Desde pequeno! Sabes, eu não me orgulho de tudo o que fiz, longe disso, eu tomei decisões erradas para conseguir indivíduos modificados geneticamente, usei a Alina para fazer testes, usei-a sobretudo para ter o híbrido. Mas não o quero para nada de mal, quero-o apenas para que as pessoas não sofram com a perda de quem é mais importante na vida delas. Quero que vivam saudáveis, que vivam mais anos, que sejam felizes na companhia daqueles que mais amam.
    Santiago estava a ver pela primeira vez o seu tio ser sincero com ele. Até aquele momento a relação entre eles resumia-se a poucas palavras, apenas a ordens entre um chefe e um subordinado. Continuaram a conversa durante muito tempo. Falaram sobre várias coisas, algumas Santiago já tinha ouvido de uma forma diferente, outras ele nunca tinha ouvido. Ficou curioso com a misteriosa doença. O seu pai nunca lhe falara que aquelas modificações todas podiam trazer malefícios para a saúde dos intervenientes. Só isso mostrava bem que a preocupação de George para com os outros era muito, mas muito pequena. August parecia sincero em tudo o que dizia, parecia ser diferente do que o seu lhe dissera. No fundo o que ele pretendia era algo mais útil para a sociedade do que aquilo que o seu pai queria.
    - Ele quer o híbrido, ele quer e eu vou dar-lho, mas com uma condição! – Disse-lhe August já a conversa levava extensas horas. – Quero que o trates como um filho, quero que o ajudes em tudo o que ele precisar, e quero que arranjes forma de seguires a Alina. Eu estive a estudá-la, sei que ela vai ter a doença negra. Não sei quantos anos vai demorar para começar a apresentar sintomas mas o Viktor disse que poderia ser entre oito a dez anos. O bebé que ela carrega tem a cura para a sua doença, não a deixes morrer por favor.
    Foi isso que aconteceu. Santiago não ficou totalmente convencido ao inicio, era estranho os dois gémeos terem duas versões tão distintas da mesma história. Contudo, nove meses juntos fez com que August e ele ganhassem uma grande cumplicidade. Até nascer o híbrido e George o obrigar a pegar nele e a sair o mais depressa possível do barracão. Não sabia o que ele iria fazer com o PastFuture, mas queimar viva praticamente uma equipa inteira era algo que nunca lhe tinha passado pela cabeça. Como podia o seu pai ser alguém tão cruel que para se vingar do irmão matou-o a ele ao seu sonho e à sua equipa de cientistas. Desde aquele dia teve de fingir ser quem não era, ser alguém que mostrava orgulho no que fazia mas por dentro guardava rancor e repúdio de tudo o que ali se passava.
    Os anos foram passando, Adão foi-se desenvolvendo e Santiago foi percebendo que August tinha razão quando dizia que o rapaz tinha no seu sangue propriedades desconhecidas pela ciência. Proteínas, grupo sanguíneo, DNA alterado e diferente ainda de qualquer um dos elementos do grupo de cobaias do Projecto MG que teve oportunidade de ver. Sempre que conseguia pedia ou pagava a alguém para ver como se encontrava Alina, a sua doença podia começar a ser visível a qualquer momento e teria de estar preparado para o que viesse a acontecer. Era perigoso contratar pessoas para vigiar Alina, além dela poder desconfiar de algo e sentir medo que George andasse à sua procura, isso podia também chamar a atenção do seu pai.
    Pensou em algo diferente. Rumou até África, mais propriamente até Angola. Santiago adorava viajar, conhecer novas terras, novas culturas. Não era difícil George acreditar que ele se deslocava para lá para conhecer a cultura, embora a razão fosse diferente. Ele seguia para aí para procurar alguém que estivesse disposto a mudar a sua vida. Foi lá que conheceu Renato. Um policia que vivia com a sua mulher e a sua jovem filha num bairro da capital angolana. Ele queria fazer algo diferente para a sua vida, queria ser alguém que marcasse o mundo. Para já isso era impossível, mas poderia ajudar a curar Alina.
    Renato seguiu para Vale do Fim, com alguns contactos que Santiago ainda possuía na aldeia não foi difícil que ele se tornasse companheiro de Artur nas investigações na sede de concelho a que Vale do Fim pertencia. Alina nunca iria sentir-se ameaçada por uma família que não parecia em nada ter segundas intenções, e Santiago conseguia saber tudo sobre ela. Assim que soube dos primeiros indícios da doença negra começou a pensar em algo para levar Adão para lá. E foi então que criou o Génesis. Sabotar o sistema e toda a segurança era a única forma de o fazer conseguir fugir dali. Sabia que o seu chip ia fazê-lo não se lembrar de nenhum dos timbres de voz deles, mas a sua mãe era mais importante que isso.
    A sua mente voltou ao escritório quando bateram à porta. Era Lígia. Parecia um pouco irritada quando entrou pela porta. Santiago percebeu que ela tinha estado com o seu pai, só ele tinha a capacidade para a tirar do sério. Ele gostava da mulher. Ainda pensava em como ela poderia pertencer ao GDC. Acreditava que ela apenas ali estivesse por duas razões. A mais gritante talvez fosse a de que não havia escapatória, sabia demais sobre tudo o que ali se passava, sobretudo sabia tudo sobre o quarto da ovelha. Nunca sairia viva, George iria contratar alguém para a matar. A outra razão era não deixar Joel. Nunca o iria deixar, eles tinham sido feitos um para o outro. Santiago sentia inveja disso. Queria encontrar alguém com quem pudesse ficar até ao fim dos seus dias como aqueles dois.
    - O teu pai está furioso, é melhor não o fazeres esperar e ires já para o quarto da ovelha! – Disse-lhe Lígia fazendo-o soltar um suspiro de aborrecimento.
    - Ainda tenho de ir ter com ele, eu disse ao meu pai que hoje era dia de testarmos outra fórmula. Eu preciso de ir buscar o frasco.
    Lígia acenou afirmativamente com a cabeça como se consentisse a sua deslocação a outro local antes de ir para o tão badalado quarto da ovelha. Seguiu no caminho oposto do da secretária. Rumou para uma zona longínqua da Área X, uma zona onde não havia praticamente nada nem ninguém. Entrou numa porta e entrou num corredor parecido com o de uma prisão. Olhou para uma das portas abertas e lembrou-se de Adão. Sabia que se não o tivesse deixado escapar ele iria estar ali naquela cela que George teimava em chamar de quarto. Andou um pouco mais à frente e parou junto a uma porta trancada. Meteu a mão ao bolso e tirou de lá uma chave. Quando abriu a porta observou-o sentado no chão, com os joelhos a tapar a sua cabeça.
    - Fizeste-o? Tens o frasco para me dar? – Perguntou Santiago a olhar para o rapaz embora ele não tirasse a cabeça de entre as pernas.
    O cientista aproximou-se dele e viu que o frasco se encontrava vazio.
    - Tu tens de compactuar connosco… Edgar! O meu pai tem-te aqui há dez anos. Ele é impaciente e tu podes ter os dias contados. Ele só não se livrou de ti porque eu disse que tinha esperança que pudesses criar uma nova linhagem de híbridos. Preciso do teu esperma Edgar. Não tornes as coisas mais difíceis. Eu não sei quanto tempo mais vou conseguir manter-te a salvo.
    - Porque não me matam! – Falou Edgar. O seu cabelo estava rapado, os seus olhos estavam negros. A sua pele estava a cair deixando parte da carne viva no seu rosto. Ele estava a piorar e temia que Alina estivesse num estágio tão avançado como ele. – A morte era o melhor que podias fazer por mim Santiago!

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