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Vale do Fim | Capítulo 23 (Parte 2)


 
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Capítulo 23 - Génesis (Parte 2)
 
Joel já não suportava ouvir George. Ele estava cada vez pior com o passar do tempo. Havia momentos que só pensava em fugir dali e levar Lígia e Adão, mas não tinha sido ele, ele não tinha deixado o rapaz fugir, se bem que quem o fez tinha o consentimento dele. Adão antes de um híbrido era um rapaz, um rapaz de carne e osso. Um rapaz com sentimentos que vivia isolado do mundo por ter algo a correr-lhe no sangue que o diferia de todos os outros comuns mortais.
    Joel gostava muito de Adão. Era como um filho para ele. Nos tempos em que viveu em Vale do Fim ele criara um laço muito forte com Artur. No fundo eles tinham trabalhado juntos todos os dias durante mais de nove meses. Era impossível, ao fim de tanto tempo juntos não terem criado algum tipo de empatia. E isso fazia Joel remoer-se por dentro. Não havia um único dia que não sentisse remorsos por ter ajudado George a levar o filho daquele que um dia o considerou amigo. Ele pensava que estava a fazer a coisa certa, que George iria fazer bem ao mundo, iria tentar manter a paz em todo o globo usando um híbrido para salvar aqueles que precisavam de auxílio, mas em dez anos com o velho cientista, percebeu que os super-heróis só iriam ser vistos apenas na televisão ou no grande ecrã, pelo menos enquanto fosse George a estar com ele. Embora não o tenha demonstrado naquela sala, Joel ficou contente por algum dos elementos do GDC ter criado um plano para libertar o rapaz e ter criado um nome de código. Génesis, criação. O híbrido devia ter sido pensado para salvar o mundo e não o dominar como George queria.
    Joel sentia-se enganado. Quando ele ia, há um longínquo tempo, àquelas reuniões que o faziam sonhar com um novo mundo, um mundo melhor, um mundo completamente utópico. Um mundo inventado por George para conseguir os seus seguidores e ajudá-lo num trabalho sujo que só começou a ser visível com o surgimento da Área X. George apenas queria criar uma nação única, uma nação suprema, aniquilando todas as outras, destruindo as fronteiras e as culturas, destruindo a identidade planetária, espalhando o caos a todos aqueles que tentassem se rebelar contra ele usando a força do Projecto Híbrido. Ele queria fugir, fugir dali com Lígia e Adão, mas para onde iriam? George tinha elementos do GDC em qualquer parte do mundo, entre eles atiradores furtivos que matariam qualquer pessoa que soubesse demais, e eles os dois sabiam. Não era possível escapar, estavam condenados se o fizessem. Tinha sido a vida que tinha escolhido, ele e a sua Lígia, tinham que arcar com as consequências.
    Saiu no primeiro autocarro que conseguiu para vir para a superfície. Quando subiu as escadas e olhou para os passageiros, voltou a pensar como era ridículo eles terem aquelas vendas na cara de forma a nunca saberem onde se localizava a tão imponente Área X, tudo porque o rei do submundo não queria que se soubesse. Eles apenas sabiam o país e que se situava longe da capital, pois andavam mais de uma hora para lá chegar, e sempre em via rápida. Joel não precisava de venda nos olhos. Sabia muito bem onde se localizava a Área X. Por vezes preferia viver na ignorância quanto a esse facto, talvez viveresse mais feliz na ignorância do que ali se passava. A maior parte daqueles cientistas, advogados, gestores, não faziam a mínima ideia do que George fazia na verdade. Andavam iludidos numa mentira. Talvez bastasse um dia a assistir a uma sessão no quarto da ovelha e ficassem a saber mais sobre o tipo de monstro que George era na realidade.
    Pediu ao motorista para o deixar sair mal chegasse à superfície. E assim o condutor do autocarro assim o fez. Joel ainda teve tempo de ver a grande abertura que dava para baixo da terra voltar a fechar-se e tudo à volta parecer um grande descampado abandonado. Não havia nada ali, não havia nada a quilómetros de distância. O céu também estava nublado, estava quase sempre, por isso já não era novidade para Joel. Não saía daquela ilha gigante há quase dez anos. Não tinha férias, não viajava com a sua Lígia, e tudo porque estava ligado a George. Por vezes pensava em como seria a sua vida se não tivesse tido conhecimento do GDC. Não iria conhecer Lígia, isso era um dado adquirido, mas talvez fosse mais feliz. Naquele momento vivia em medo constante. Em medo que George soltasse tudo o que tinha para soltar. Tinha medo de pensar como seria o mundo dali a dez anos. Provavelmente já tinha assistido a uma Grande Guerra. George podia controlar os grandes órgãos governamentais, mas não controlava o povo. E o povo é aquele que mais ordena, pelo menos era o que Joel ouvia dizer vezes sem conta, era também o verso de uma das canções que marcaram a revolução dos cravos no seu país. A população mundial nunca iria deixar que voltassem a um estado em que não tivessem qualquer tipo de liberdade, controlados por um novo inimigo mundial.
    Joel continuou a caminhar pelo descampado. Era certo que Adão tinha passado por ali, não havia outro local para sair daquele sítio se não aquele, mas se por ali tinha passado não havia qualquer tipo de vestígios. Parecia ter sido ajudado. Perguntava-se a si próprio se o tal Génesis, aquele que destruíra um sistema tão complexo que o devia conhecer melhor que ninguém, tinha ido com ele. Como era possível um rapaz que não conhecia completamente nada do mundo podia ter conseguido escapar da Área X. Pensou em como tudo aquilo devia ter sido pensado ao pormenor e nas sombras. Assemelhava-se em tudo ao GDC. Também aquela organização nascera nas sombras para conseguir dominar o mundo. Era irónico como um dos seus membros usou os mesmos meios para tirar o seu maior trunfo do seu cerne. O investigador por momentos invejou aquela pessoa que tinha escolhido um nome em código para actuar. Queria ter sido ele a ter aquela ideia. Queria ter sido ele a tornar-se livre e fugir de vez daquela vida. Rapidamente voltou a por os pés na terra e pensou bem. Aquele Génesis, ele tinha cometido uma loucura. Ele iria ser descoberto, o George sempre descobria tudo. Ele ia ser morto e o híbrido ia voltar para a sua clausura. O líder nunca ia perdoar tamanha traição. Joel temia que fosse alguém que ele gostasse. Havia pessoas com quem convivia todos os dias e naquele dia ainda não tinha visto. Teria sido um deles?
    Quando sentiu algo em baixo do seu sapato preto parou. Podia ser apenas uma barata, mas parecia ser mais resistente. Olhou para o chão e viu que era uma pulseira. A pulseira que ele e Lígia tinham dado a Adão no dia em que ele completara cinco primaveras. Nessa altura já parecia ter dez anos. O jovem rapaz desenvolvia-se muito mais rapidamente que um rapazito normal. Ele devia tê-la perdido ao fugir. Ou então o Génesis podia o ter levado. George de certeza que devia ter muitos inimigos, alguns deles podiam até estar na Área X a beijar-lhe os pés. Podia estar a levar o híbrido para lhe fazer frente. Se fosse isso ele devia estar apenas à beira da loucura. Como um homem sozinho podia tentar fazer frente ao GDC. Também podia ser alguém a querer começar algo novo, Joel temia esse cenário. Já bastava um louco, não precisavam de dois.
    Mergulhado em teorias Joel viu o último autocarro da manhã a entrar pela grande rampa que os levava ao subsolo. Ele aproveitou para entrar e ir mostrar a pulseira a George. Ele iria ficar furioso, mas o que lhe interessava e preocupava mesmo era em saber por onde Adão andava.

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