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Vale do Fim | Capítulo 21 (Parte 2)

 
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Capítulo 21 - Fuga (Parte 2)

Artur ainda não tinha qualquer reacção para o que estava a acontecer ali na sua sala, quando viu que Alina caíra inconsciente no chão. Aí sentiu apenas desespero. Alina não andava bem e aquilo que tinha acabado de ouvir podia ter causado danos irreversíveis. Ele correu até ela sempre a gritar o seu nome e a bater-lhe de leve na cara. O jovem que tinha entrado em sua casa a dizer que se chamava Adão e era filho dele correu também até ela.
 
- Deixe-a! – Disse o rapaz quando se aproximou dela. – Eu acho que sei o que está a acontecer.
 
Artur pensava se podia confiar nele. Ele parecia ter estado a lutar, aquelas feridas eram frescas, embora parecessem cada vez mais cicatrizadas, e ele sabia que isso só era possível através da mutação genética. Seria ele o seu filho ou mais um fantoche nas mãos de George. E se fosse, o que George queria agora passados tantos anos? Essas perguntas faziam Artur ficar ainda mais preocupado com Alina. Ele podia querer estudar aquela doença dela que ninguém parecia conhecer. E aquele rapaz podia ser a chave para isso.
 
Ficou surpreso quando viu o rapaz a levantar a mulher como se ela não pesasse nada. Ele tinha a força. Ele tinha de ser no mínimo um semi-híbrido, tal como ele e Miguel.
 
- O que estás a fazer? – Perguntou Artur a vê-lo com ela ao colo.
 
- Temos de a deitar, ela precisa de descansar. Ela tem a doença… ela tem a doença negra. – Declarou Adão.
 
- Doença negra? O que raio é isso? – Questionou Artur intrigado.
 
O rapaz não respondeu e começou a subir as escadas. Artur correu rapidamente para a frente dele para lhe indicar o caminho para o quarto.
 
Chegados ao quarto, Adão deitou Alina e Artur tapou-a. Ela finalmente estava a começar a recuperar os sentidos. O que o deixou bastante aliviado. A ele e ao rapaz que estava ali entre eles. Não sabia se podia confiar nele, mas o seu instinto dizia que sim. O rapaz parecia ter as suas feições e parecia ser determinado como ele e Alina eram. Miguel conseguiu preencher um pouco o vazio deixado pela perda dos dois gémeos que Alina carregou havia passado uma década, mas nunca tinha deixado sarar aquele buraco que eles tinham no coração sempre que isso lhes vinha à memória. Mas se o seu filho não tinha morrido porque razão August lhes tinha dito que sim? E porque razão ele estava a fugir de George. Como é que ele fora parar a ele? Eram tantas perguntas, tantas preocupações, que até se tinha esquecido que a mulher que mais amara na vida estava ali, prestes a desvanecer.
 
- Falaste da Doença Negra… o que é isso? Porque razão a Alina iria ter essa doença? – Questionou Artur com esperança que o rapaz lhe pudesse explicar de que doença a mulher padecia e qual a cura.
 
- Eu não sei muito sobre a Doença Negra! Eu ouvia falar dela na Àrea X, principalmente o Santiago e o George. Quer dizer, não sei se eram eles dois, não consigo lembrar-me das vozes deles, não consigo lembrar-me das vozes de nenhum dos cinco que me controlavam a mente! – Declarou o rapaz.
 
- Controlo da Mente? Tu és o novo Projecto CM? – Questionou Artur constrangido, se ele estivesse controlado mentalmente para levar Alina até George? Ele não podia deixar isso acontecer.
 
- Não! Eu sou o Projecto Híbrido! A junção dos Projectos MG e CM! Sou a vossa criação!
 
As coisas começaram a ficar mais claras na cabeça de Artur. Ao longo de dez anos ele questionou-se sobre a vontade exagerada de August querer que a Alina ficasse grávida rapidamente. Só podia ser isso, a criação de um terceiro projecto. Por isso ele a queria grávida. Por isso ele disse que o rapaz tinha morrido pouco depois do parto. Agora o incêndio e a sua morte faziam sentido na sua cabeça. George também queria o bebé. Santiago estava a trabalhar para ele. O George venceu infiltrando um dos seus no laboratório do August. Aquele puzzle estava a começar a ser decifrável. Agora algumas coisas faziam sentido.
 
- É através de um chip que tenho no pescoço que cinco dos mais importantes membros da GDC me conseguem controlar. – Disse Adão apontando para a ferida no pescoço. – Mas algo aconteceu. Um desses membros tirou-me o chip e deve ter feito alguma coisa, porque eu não consigo recordar-me de nenhuma das cinco vozes e oiço apenas uma, uma que me deu um dispositivo móvel com a vossa morada. Diz que vocês vão precisar de mim!
 
Artur ficou a magicar coisas. Se essa voz que ele não conhecia fosse George? Ele podia querer levar Alina para a controlar assim como o seu filho. Isso deixava-o numa completa angústia, sem saber o que fazer. Não poderia colocar o seu próprio filho na rua, mas ele podia ser a causa para a vida deles voltar a ser uma montanha russa como há uma década atrás. Ele não sabia se estava preparado para viver tantas emoções em tão curto espaço de tempo. O seu coração já não era o que era. Ser semi-híbrido podia dar-lhe uma esperança de vida maior que qualquer outro ser humano que vagueava pela terra, mas talvez não fosse capaz de não o salvar se fosse o seu coração o culpado pela sua queda.
 
Sem saber se podia confiar ou não, ele não tinha escolha, Alina estava cada vez pior e aquele rapaz que estava agora ali em casa parecia a única solução que tinham para que ela não morresse. Ela não podia morrer, Artur precisava dela, assim como ela precisava dele quando ele a fez disparar vários tiros na sala redonda do extinto barracão. Artur pensava, naquele momento, se aquilo não era o seu castigo por tê-la feito sofrer nessa altura. Ela pensou que o tinha morto que tinha ficado para sempre sem ele. Isso durante um dia. Agora ocorria o inverso. Ela tinha uma doença que estava cada vez mais agressiva e nenhum médico conseguia ajudar. Ele tinha nas suas veias o Projecto MG para o salvar, ela não tinha nada. Mais cedo ou mais tarde ela morreria se nada fosse feito. E por isso mesmo ele pensava que aquilo era o seu castigo por ele ter pregado uma partida tão cruel à sua amada.
 
A esperança dele residia agora num rapaz, num adolescente que batera à porta a dizer que era seu filho. Ele sabia que George era matreiro, que não iria deixar escapar um Projecto que para ele era tão importante. Quais seriam as intenções do velho homem? Seria voltar a tentar que a Alina tivesse um novo filho? Eles tentaram durante anos que ela ficasse grávida novamente, mas ela não conseguia, o parto agressivo de Adão e da sua irmã fez com que ela nunca mais conseguisse ter outro bebé.
 
Alina começou a falar. Olhou para o rapaz que estava ali ao lado deles e, mesmo ainda sem forças, levou a mão até à cara de Adão. Ela estava branca como cal, estava branca como a neve, mas quando tocou na face daquele rapaz os seus lábios roxos esboçaram um sorriso e Artur podia jurar que ela estava a voltar a ganhar cor.
    
- És mesmo nosso filho? – Perguntou-lhe ela quase sem forças para conseguir falar.
    
- Sim… mãe, eu estou aqui! Não vou deixar que nenhum mal te aconteça.
    
Artur olhava para Alina, ela estava feliz ao tocar no rapaz, os seus olhos brilhavam como tinham brilhado quando o seu bebé saíra do seu ventre no dia do parto, no dia em que a Aldeia de Vale do Fim nunca mais fora a mesma. Ela parecia acreditar nele, talvez fosse aquilo a que chamassem instinto maternal. Isso fazia Artur temer ainda mais pela saúde da mulher. Ela estava frágil, uma decepção daquele nível podia acabar de vez com ela.
    
Pensou em Olívia, Edgar, Raul e Eva. Dos três apenas um ainda se encontrava vivo. Seria por aquela doença de Alina? Seria Raul portador de tal doença, a Doença Negra comparada à Peste da Idade Média? A cura podia não ter retirado todo o Projecto MG do corpo, eles podiam vir a padecer da doença, talvez por isso o Lourenço matara Olívia e o jovem Edgar fora possivelmente morto na sua casa. E ele e Miguel? Eles também podiam ficar tão doentes como Alina? Artur tentou não pensar tanto, aquilo fazia-o ficar pior do que já estava.

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