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Vale do Fim | Capítulo 21 (Parte 1)

 
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Capítulo 21 - Fuga (Parte 1)
   
 
A noite serrada e o lugar deserto em que se encontrava deixavam Adão ainda mais desorientado. Tinha aberto os olhos há segundos, não sabia como tinha ido ali parar. Não se lembrava de quase nada do que tinha acontecido antes de acordar. Sentiu uma dor no pescoço, uma dor forte que o fez levar a mão até lá. Sentiu um líquido quente e quando olhou para a mão viu que era sangue. Era a primeira vez que estava a ver sangue do seu corpo. Todas as suas feridas saravam em segundos, mas aquela ainda não tinha sarado. Era uma ferida profunda para não ter sarado.
   
 “Corre, assim que acordares corre o mais depressa que conseguires!” – Aquelas palavras ecoava na sua cabeça, o que não era difícil, a sua mente sempre fora controlada desde que tem lembrança da sua primeira memória. Aquela voz era-lhe familiar, mas por alguma razão não conseguia lembrar-se a quem pertencia.
    
Enquanto aquela frase persistia na sua cabeça, Adão voltou a colocar a mão no pescoço. Foi aí que teve a primeira noção do que tinha acontecido. Alguém deve ter mexido no seu chip. Ele sabia que tinha um chip implementado no pescoço, todos aqueles com quem tinha convívio, falavam-lhe dele. Era através desse chip que aqueles que George queria, podiam controlar a sua cabeça. Eram muito poucos, aqueles que tinham esse privilégio, apenas cinco dos pertencentes ao GDC. Um deles, aquele que estava a ecoar na sua cabeça devia ter-lhe feito alguma coisa, devia tê-lo arrancado para fazer algo. Além do controlo da mente, o chip confirmava sempre a sua localização, todos iriam saber onde ele estava por isso não conseguiria escapar deles, a menos que a pessoa a quem pertencia aquela voz tivesse feito alguma coisa.
    
“O telemóvel, olha para o telemóvel! Abre o mapa, terás a localização de Vale do Fim. Corre à velocidade da luz e vai para o aeroporto! Eles precisam de ti! Os teus pais precisam de ti, Adão!” – A voz continuava a ecoar na sua cabeça, dizendo-lhe coisas que ele nem percebia.
    
Meteu a mão no seu bolso das calças e viu que tinha um dispositivo móvel. Era semelhante a um telemóvel, mas sempre que carregava para o desbloquear ele ia directo para um mapa. O mapa de uma península que se assemelhava a um quadrado, com ponto vermelho num país que se assemelhava a um rectângulo. Voltou a meter as mãos no bolso, sentia ainda mais qualquer coisa dentro dele. Era um papel, mais propriamente um bilhete de avião.
    
Adão estava a ficar desconfiado. Ele nunca tinha saído da Área X, e naquele momento, dez anos depois, estava na rua, livre para voar até aos seus pais? Quem estaria a fazer aquilo? Porque razão, passados dez anos, alguém o estava a libertar. Ele sempre ouvira as pessoas falarem dele, do que ele era. O rapaz mais forte, mais veloz, que não precisava de comer e dormia apenas três horas para ficar acordado quarenta e oito. Ele sabia que não era normal, ele sabia o que o esperava. A Guerra, a tão almejada conquista de George de um mundo que não lhe pertencia. Ninguém pode almejar uma coisa que não pode ser conquistada. Ele via que o velho era sonhador e Adão sabia pouco sobre o mundo, mas como ele podia sonhar ser líder de biliões de pessoas quando se vê desnorteado a tentar liderar centenas. Ao longo dos anos Adão vira muitas pessoas entrarem na Área X. Ele tentava saber a sua localização, mas nunca nenhum dos seus professores privados lhe dizia. Talvez nem eles mesmo soubessem, já que ninguém praticamente o sabia. Quando estudara sobre a mitologia grega, e tivera conhecimento de Hades, começou a imaginá-lo um pouco como a Área X, um inferno que ninguém sabia onde se localizava.
    
Era certo que agora estava fora da Área X. Essa era a única hipótese. A não ser que tudo aquilo fosse uma das inúmeras experiencias que estavam a acontecer naquele grande círculo sem janelas. Podia estar enfiado em algum espaço de realidade virtual, e aquilo fosse o seu objectivo, chegar ao aeroporto. Parecia um pouco rebuscado, mas ele sabia que eram feitas as mais experiencias loucas. Ainda se lembrava daquela vez em que o lobo gigante, modificado geneticamente por aqueles cientistas, saiu da sala experimental e andava à solta enquanto todos as outras pessoas gritavam aflitas ao ver o perigoso animal ali. Teve de ser Joel a matá-lo.
    
Lembrou-se de Joel, da sua cara, mas não da sua voz. Sabia que ele era um dos cinco membros do GDC que tinham a capacidade de o controlar. Talvez quando lhe mexeram no chip ele tivesse perdido a capacidade de conhecer a voz dele. Será ele que está a dizer para ir para Vale do Fim?, era tudo o que pensava enquanto ouvia aquela misteriosa voz a ecoar na sua cabeça. De quem seria ela, porque ele não se conseguia lembrar. Porque razão o estavam a deixar ir ter com os verdadeiros pais se nunca o tinham deixado sair dali em dez anos. Já lhe doía a cabeça de pensar em tudo aquilo.
    
Começou a correr. Pela primeira vez sentia-se livre. Era uma sensação única aquela de sentir o vento a bater-lhe na cara. Não era a melhor sensação do mundo mas fê-lo sorrir. Pela primeira vez estava a fazer alguma coisa sem o impedimento de alguém. Pela primeira vez estava a caminho das pessoas que mais queria conhecer, os seus pais.
    
Quando bateu à porta da casa de Artur, um dia e meio depois de acordar no meio do nada, sorriu. Vinha cheio de feridas e arranhões que tinha feito quando entrou em Vale do Fim. Não pensou que fosse capaz de fazer aquilo que fizeram, mas conseguira. Era poderoso, o que o fazia crer que não era a voz de George que ele ouvira naquela terra de ninguém. Ele provavelmente já estava à procura dele.
    
Como ninguém abriu a primeira vez, tornou a bater à porta. Fora um homem que lhe abrira a porta. Ele nunca o tinha visto pessoalmente, mas tinha visto uma foto com dez anos, era ele, ele sabia que era. Era o seu pai. E foi isso que disse quando entrou em casa dele e Alina. Que era o seu filho. Eles ficaram chocados. Tinham razões para isso. Afinal Adão aparentava ter muito mais idade do que realmente tinha. Parecia ser um adolescente já prestes a entrar na fase adulta e não uma criança de dez anos como deveria ser.
    
Estava emocionado ao ver as duas pessoas que lhe deram a vida, embora eles estivessem receosos e em estado de choque. Não era todos os dias que um rapaz aparecia em casa deles e dizia ser seu filho. Compreendia-os. Além disso vinha cheio de feridas que ainda não tinham tido tempo para cicatrizar. Ao olhar para o seu braço, ainda com vestígios de sangue, perguntava a si se aquelas pessoas que ajudou estariam bem. Ele apenas as ajudara, depois correu novamente para a casa que estava marcada no mapa. Precisava de ver os seus pais, estava cheio de vontade de os ver pela primeira vez.
    
Quando ia começar a explicar a sua história viu a sua mãe perder os sentidos e o seu pai a correr em seu auxílio. Ele correu também para perto dela. Ainda agora a tinha conhecido, não a queria perder.

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