Header Ads

Vale do Fim | Capítulo 40 (Parte 2)

Também disponível no Wattpad em http://goo.gl/uVVbsb 

Capítulo 40 - A Herança (Parte 2)

Santiago acordou sobressaltado. Estava a ter um pesadelo. Sonhava estar dentro de uma outra sala de controlo, não a que se encontrava na Área X, mas outra, uma outra construída com o mesmo propósito. Felizmente abriu os olhos e percebeu que aquilo não passava disso mesmo, um pesadelo. A luz do sol que entrava pelo seu quarto e a sua cama aconchegante, no quarto do primeiro piso da casa de Lourenço, faziam-no saber que estava. Ele não dormia na cave há mais de duas semanas, altura em que vira o seu pai morrer e todo o mundo ficar em paz. Infelizmente nos seus pesadelos as últimas palavras dele estavam bem presentes. Tinha receio que o seu pai não estivesse a mentir, que existisse uma segunda sala de controlo. A questão era, quem a iria controlar com a morte dele? George estava sozinho, não tinha ninguém além do pequeno Adam! Lembrou-se do menino e deitou uma lágrima, provavelmente ele estaria morto também, era o que acontecia a quem convivia com George, ou morria ou tornava-se escravo dele. Adam apenas apareceu na invasão à Assembleia da Organização das Nações Unidas, depois disso nunca mais foi visto, era provável que o seu pai o tivesse morto quando percebeu que ele era inútil em relação à cura da doença.
Abanou a cabeça tentando afastar todos aqueles pensamentos que lhe foram trazidos pelo pesadelo e sorriu ao olhar os raios de sol que entravam pela janela. Ele tinha um lar, era feliz. Além de tudo era livre. O seu pai não tinha agora qualquer tipo de poder em ninguém, todos podiam respirar, todos podiam tomar as suas próprias decisões sem que ele controlasse. No fundo, não era apenas Alina e os híbridos que eram controlados. Santiago, Joel e Lígia sentiam-se controlados mesmo não sendo portadores do Projeto CM e isso devia-se tudo ao medo, ao medo que sentiam de George! Não fora só ele que decidira ficar em Vale do Fim, os outros dois antigos membros também. Era um sitio calmo, tudo o que precisavam naquele momento.
Artur perguntou se não queria morar com ele e com Alina e Adão, mas o rapaz preferiu ficar na casa de Lourenço. Foi ali que a sua família começou, foi exatamente onde se encontra aquela casa que o seu pai e os seus tios nasceram. Foi ali que tudo começou e ele sentia-se bem em ali ficar, talvez um dia, fosse ali que brincasse com o seu filho também. Renato não se importou, agradou-lhe a ideia de ter mais um inquilino, o inquilino que lhe mudou a vida, que lhe deu uma casa e ajudou a construir uma vida melhor. A vivenda era grande e tinha espaço para mais um. Além disso Santiago queria ajudar nas despesas e iria tentar trabalhar com os maiores centros científicos do mundo. Ele tinha de partilhar o seu conhecimento com alguém. O seu pai tinha-lhe deixado uma coisa boa, a educação, as evoluções cientificas que ele poderia trazer para o mundo eram mais do que os seus dedos das mãos podiam contar.
    Antes de pensar no futuro Santiago queria e tinha de pensar no presente! E era nisso que andava a trabalhar. Existiam duas prioridades na sua cabeça naquele momento. A primeira delas era curar todos os infetados com a Doença Negra. No dia seguinte à morte do seu pai, fez uma nova transmissão ao mundo, pedindo a que todos os infetados entrassem em contato com ele, criando um e-mail próprio para os pedidos de socorro. Santiago nunca pensou receber tantos pedidos de auxilio. Eram centenas. Provavelmente alguns foram contagiados por pessoas que George contagiou. Uma ferida podia ser logo um motivo de alarme e de propagação da doença para outra pessoa.
    Santiago estava feliz porque seria naquele dia que os primeiros cinco pacientes contaminados com a doença chegariam a Vale do Fim, e além de tudo estava feliz por ver que o barracão onde August fez as suas experiencias estava reerguido tal como uma fénix se reerguia das cinzas. Ele precisava de um local para trabalhar e que local ele poderia escolher se não as antigas instalações da PastFuture. Santiago não conseguia saber, mas se o seu tio estivesse ao corrente da sua decisão estivesse onde estivesse, ele deveria estar orgulhoso, o seu sobrinho iria usar o seu antigo laboratório pré-fabricado para curar as pessoas que George num ato de maldade extrema infetou. O homem ficou surpreendido com a vontade dos habitantes em ajudar a reconstruir o antigo laboratório. Parecia que a visão deles tinha mudado em relação há década passada. Alguns daqueles que ajudaram a queimar o barracão que ainda tinham forças ajudaram a ergue-lo, talvez por sentirem em alguma parte do seu coração culpa por terem morto as pessoas que estavam dentro dele. Foram assassinos, isso eles não podiam negar alguma vez que fosse. Eles ajudaram a matar Viktor, Eva e mais dois ou três cientistas que estavam por lá. Podiam pensar que o barracão estava vazio quando atearam fogo nele, mas não estava, e no fundo Santiago também não acreditava que eles pensassem que não estava ninguém lá dentro. No fundo, Santiago entendia, Santiago até entendia de onde vinha a maldade daquela gente quando fez aquilo. A maldade estava no medo, no medo do desconhecido, era mais fácil aniquilá-lo do que conviver com ele. O seu pai teve a mesma reação quando pediu que todas as cobaias do Projeto MG fossem mortas. Ele tinha medo da doença!
    Naquele dia, Santiago decidiu ir a pé até ao barracão. Era apenas um quilometro de distância, e enquanto caminhava a brisa fresca fazia-o pensar e sentir-se me paz. A doença estava prestes a ser erradicada e ele preparava uma vacina para ser administrada às pessoas para terem resistência caso algo não corresse como o planeado. Santiago tinha pesadelos com a sala de controlo, queria que eles apenas fossem isso, pesadelos, não queria ter de voltar a ter de curar cidadãos do mundo o resto da sua vida, ele queria que ninguém mais se preocupasse com aquela doença, queria que ela fosse apenas lembrada como uma peste do século XXI, como eram lembradas outras pragas de séculos anteriores. Além disso a cura era uma inconstante, os pacientes entravam em coma, e o homem tinha medo que alguns pudessem não resistir e morrer durante aquele período. Naquele momento Edgar e Lígia estavam em coma há três dias. Ele tinha o coração nas mãos. Chorava secretamente, longe dos olhares dos restantes amigos, pensando que eles podiam não acordar, que eles podiam não ser tão resistentes como a Alina e o Raúl, que o Projeto MG podia levar a melhor.
    Perdido nesses pensamentos nem se apercebeu que um carro parou mesmo ao seu lado. Era Artur. Abriu o vidro e acenou para o rapaz.
    - Em que estavas a pensar? Estou a buzinar há um tempão e tu pareceste nem ouvir. – Ele tinha razão, Santiago não tinha dado por nenhum barulho à sua volta. – Entra! Vais para lá, certo?!
    Santiago acenou e entrou no carro. Olhou para Artur e pensou em como ele era feliz. Ele estava completo. Alina estava curada, Adão estava com eles e Miguel, embora passasse mais tempo com Joana e Raul por acharem ambos que ele o devia fazer, ainda passava muito tempo com o seu filho, por isso estava rodeado por gente que lhe fazia bem. Santiago olhou para o sorriso dele e não pôde deixar de sorrir também. Acabou por soltar uma lágrima.
    - Que foi rapaz? Pareces estranho! – Disse Artur enquanto olhava para ele.
    - Tu e o Miguel pregaram-nos um susto no dia em que o meu pai vos alvejou! Vocês não acordaram no dia seguinte… eu e a Alina ficamos com medo. Estou feliz por o Projeto ainda estar ativo e vocês terem retornado, é só isso! – Santiago calou-se por alguns segundos e o seu amigo acelerou. – Sobre… bem há uma coisa que eu quero falar contigo e com o Miguel, Artur! Podes ligar-lhe e dizer para vir ter connosco ao laboratório?
    Artur ligou. Tentou que ele lhe dissesse o que tinha para lhes dizer, mas ele não disse nada a respeito, mudando de assunto:
    - E o Adão?
    - Não estava em casa. Deve estar mais uma vez no avião supersónico a ver se descobre alguma coisa sobre como parar os híbridos se eles forem reativados. – Declarou o amigo.
    - Quando o meu pai falou numa sala de controlo eu acredito que ele estivesse a falar de uma sala semelhante à que foi destruída na Área X, mas ele faz bem em ir até lá, distrai-se, não pensa em outras coisas.
    Artur concordou e permaneceram em silencio. Fazia bem a Adão andar ocupado. Nos últimos dias que tinham passado ele tinha andado cabisbaixo, mesmo de que fosse de forma inconsequente, ele sentia-se culpado por Will ter-se sacrificado por ele. Sacrificou-se para que ele fosse salvo, para que a sua mãe não o perdesse. Santiago não conseguia estar na pele de Adão, mas tentava perceber o que ia na sua cabeça e o que, na visão dele, estava a ocupar-lhe a mente, era o facto de não se achar à altura de vingar a morte de Will, de que ele tivesse morrido apenas para ele ser feliz e para não ajudar a humanidade em nenhum problema que pudesse vir a surgir.
    - E quanto aos híbridos? Já sabes o que vais fazer quanto a eles? – Perguntou Artur, quebrando o silencio, quando parou o carro junto ao pequeno anexo que se encontrava junto ao barracão em construção.
    - Sim! – Disse, começando a explicar a Artur tudo o que já tinha feito até então.
    Santiago revelou ao mundo a localização da Área X. Era um edifício gigantesco e, embora subterrâneo, tinha muitas potencialidades que poderiam ser exploradas. Chegou a acordo com o governo do país e a construção iria ser nos próximos meses uma base militar e um centro de inovação tecnológica. A parte onde iria estar albergada a área da ciência e da tecnologia era a extinta Área H, e era nesse local que ficou decidido que alguns dos híbridos iriam ficar. Algumas centenas pelo menos. Os restantes iriam ser divididos por outros centros científicos. A todos eles iria ser retirado o chip que continha a voz de quem os podia controlar. A todos, exceto a três de cada instituição, para o caso de algo ser acionado o mundo saber e poder começar a preparar algo para trava-los. Um desses centros científicos seria o próprio barracão que outrora pertencera à PastFuture, que iria albergar aqueles híbridos que estavam com George no dia do confronto em Vale do Fim. Naquele momento eles encontravam-se na cave da casa de Renato. Estavam calmos, estáveis. Santiago já tinha tirado o chip a quatro, deixando a três. Se houvessem problemas, ele saberia de imediato, pois no seu laboratório encontravam-se três possíveis controlados.
    Santiago sentiu raiva do seu pai enquanto contava tudo a Artur. Mesmo depois de morto ele conseguia ser ainda uma sombra na vida de todos. Ele deixara o medo de que pudessem, mesmo depois de morto, controlar os híbridos, deixou, mesmo depois da sua morte o medo de que um dia aqueles rapazes, que tinham um olhar vazio naquele momento, podiam voltar a ser controlados para completar uma missão que ele tinha passado para outra pessoa. Isso fazia-o pensar, mais uma vez, em quem poderia ser a pessoa em quem ele depositasse confiança. Ele estava completamente sozinho! Os membros mais leais do GDC estavam ali em Vale do Fim e tinham-se revoltado contra ele, lutado contra ele. Tudo aquilo não poderia passar de uma jogada de mestre para os atormentar a todos após a sua morte, para viverem sempre com a sua sombra.
    - Porque estás tão pensativo? – Perguntou Artur um pouco depois de ele permanecer calado, a pensar em todas aquelas coisas.
    - Nada de importante! – Respondeu ele, tentando não preocupar o amigo. – Já telefonaste ao Miguel? Gostaria de falar com vocês ainda hoje, antes de chegarem os primeiros pacientes. – Viu Artur pegar no telemóvel. – Se não te importas vou ver o Edgar e a Lígia, depois vem ter comigo! – Respondeu, deixando Artur sozinho a contatar o rapaz.
    Santiago entrou no pequeno anexo. Era constituído apenas por duas salas, o seu gabinete, onde tratava de tudo sobre a doença e sobre os avanços que quereria mostrar ao mundo e um quarto constituído por cinco camas onde os pacientes da Doença Negra iriam ficar durante o coma. Ele foi até a esse quarto e olhou para Lígia e Edgar que se encontravam ainda em sono profundo. 
    - Porque a cura não podia ser mais fácil? Porque tenho de ter o coração nas mãos sempre que venho até aqui e pensar que podem não voltar a acordar? – Dizia Santiago como se aqueles dois corpos inanimados o pudessem ouvir.
O homem não sabia como era o coma, era uma experiencia de quase morte como muitos falavam, ele tinha medo de os perder, de perder duas pessoas tão importantes para ele! Não, ele não os podia perder, eles eram parte da sua vida. Ele perdera a mãe muito novo, o seu pai era um homem que não podia confiar, mas quando conheceu o seu tio August tudo mudou. Ele percebeu que não estava sozinho, que não precisava de viver só. Joel e Lígia aliaram-se a ele, o Edgar e o Adão ligaram-se a ele por todas as visitas que ele lhes fazia. No fundo eles sempre lhe lembraram ele. Ver Edgar fechado sozinho num quarto sem mais ninguém, apenas com Adão, fazia lembrá-lo da vida só e solitária que teve com a sua mãe. Foi impossível não deixar verter uma lágrima ao vê-los ali naquele impasse. Ele só queria que eles acordassem! Foi então que Edgar mexeu o braço, e Santiago sorriu! Ele não estava morto, estava a lutar, a lutar para vencer aquela terrível doença que podia ser evitada se os seus antepassados não quisessem criar um super-soldado ou um curandeiro para todas as doenças. Naquele momento pensou nos dois irmãos. Os dois agiram mal, com razões distintas, uma escolha boa e outra má, mas não agiram bem de forma alguma. Ninguém tem o direito de transformar a vida de pessoas sem a sua autorização e ao longo da vida deles tudo o que eles fizeram foi modificar e moldar a vida daqueles que os rodeavam. Santiago odiava isso, odiava o que eles tinham feito com a vida de todos os inocentes em que tocaram. Arrependeu-se também de ter infetado Lígia apenas para que a pequena Maria nascesse.
Olhou para ela e viu ela a esboçar um sorriso. Fechou os olhos e abriu rapidamente para ver se não estava a sonhar! Era mesmo um sorriso. Eles estavam a dar-lhe um sinal que ficariam bem, que mal passassem os sete dias eles iriam acordar, iriam ser livres das experiencias para sempre. Isso deixava-o feliz, e a compreender que não era nem igual ao seu pai nem ao seu tio, que o rumo que queria seguir era sem dúvida outro, que não iria usar ninguém à sua volta para testar técnicas absurdas! Ele seria diferente.
Artur e Miguel entraram no quarto e Santiago tentou limpar o rosto disfarçadamente.
- Eles vão voltar! – Disse Miguel esperançosamente, dando força e alegria ao cientista.
- Não tenho dúvidas! – Declarou ainda um pouco emocionado com tudo aquilo.
Levou-os até ao seu gabinete provisório e pediu que se sentassem nas duas cadeiras que tinham à sua frente. Santiago sentou-se e começou a abrir uns papeis que tinham várias fórmulas. Ele andava a estudá-las nos últimos dias, queria contar-lhes a eles, queria que eles soubessem.
- Eu queria falar com vocês os dois porque acho que descobri algo que pode ser do vosso interesse. Tenho de vos dizer uma coisa, uma proposta!
Artur e Miguel ficaram surpresos com a declaração do cientista e olharam atentos enquanto ele falava.

Sem comentários