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Vale do Fim | Capítulo 34 (Parte 3)

 
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Capítulo 34 (Parte 3) - A Cura

  Ao ver a sua mãe em convulsões no chão, Adão não teve reação. Miguel e Luna correram até ela para a socorrer, mas o rapaz ficou imóvel. Recuou atrás no tempo, e deu por si na área X. Adão ainda tinha a sua aparência de miúdo de dez anos, Edgar deveria ter uns dezoito. Ele fora até ao quarto do seu único amigo como sempre fazia, não gostava de estar sozinho e ele era a sua única companhia. Naquele dia ele não estava bem, estava pálido e deitado na cama coberto com os três cobertores que Santiago lhe tinha levado na noite anterior. Mesmo assim ele tremia, tremia tanto que Adão conseguia ouvir os seus dentes baterem incessantemente uns nos outros.    - Queres que chame o Santiago? – Perguntou o rapazito ao ver o amigo tão fragilizado.
    - Eu estou bem! – Declarou Edgar a abrir os olhos e a puxar os cobertores para baixo, levantando-se de seguida.
    Quando se ia levantar acabou por cair, em convulsões por causa da febre. Desesperado, sem saber o que fazer, Adão gritou por socorro. Quando viu uma espuma branca sair pela boca de Edgar gritou ainda mais alto. Santiago provavelmente estaria por perto e não demorou mais de cinco minutos. Depois desse dia Edgar não acordou por uma semana. O cientista explicou-lhe que o seu amigo tinha uma doença grave, uma pneumonia, tinha entrado em coma, mas que dali a uns dias poderia brincar com ele. Adão não acreditou muito, começava a pensar que o seu destino era viver isolado para sempre, sem ninguém junto dele.
    Ao ver a mãe assim lembrou-se daquilo, do medo que sentira por perder o seu único amigo no passado, do medo de perder a sua mãe no presente.
    - Liga para o teu pai ou para o Santiago! – Pediu Luna. – Eles têm de nos vir ajudar!
    Adão pegou no telemóvel enquanto a sua mão tremia de ansiedade. Percebeu que o seu discurso era impercetível quando o seu pai lhe pediu para se acalmar e para que falasse mais devagar. Quando ele desligou anunciou aos outros que eles iam para ali imediatamente. As convulsões de Alina também tinham parado, encontrando-se naquele momento num sono profundo. Os dois rapazes pegaram nela e levaram-na para um dos quartos de hospedes. Deitaram-na na cama, mas ela não reagira, não dava sinal de que estivesse viva, mesmo apresentando ainda pulsação.
    Depois de a deitarem Miguel e Luna saíram do quarto, já Adão, esse colocou a cadeira que se encontrava no canto do quarto junto à cama e olhou para a mulher. Sentou-se ao pé dela, com a esperança de que ela acordasse rapidamente, que aquilo fosse apenas um susto, que daqui a umas horas estaria a apresentar o seu sorriso novamente.
    - Porque fizeste isto, mãe? Porque não esperaste o êxito do teste no Raul? – Perguntava enquanto olhava para ela, mesmo sabendo que não iria obter resposta. – Era só aguentares mais um pouco, era só aguentares mais uns dias, umas semanas talvez. Não era preciso mais tempo! Tu não nos podias ter feito isso connosco, não podias ter feito isso comigo! Eu entendo a tua ansiedade em viveres livre e feliz para sempre, eu entendo que queiras apenas viver finalmente a tua vida normal que nunca tiveste a oportunidade de ter, mas esse momento estava quase, estava à distancia de uma injeção no momento certo! Tu não podes morrer, eu não te perdoarei se isso acontecer! Tu não podes!
Adão chorava agarrado à mão da sua mãe, até que sentiu uma mão no seu ombro. Artur estava igualmente abalado. O rapaz levantou-se da cadeira e abraçou-o. Um abraço forte que nunca tinha sentido. O maior receio que o rapaz sentia naquele momento era receber a noticia de que o padre tinha falecido depois de ter sido injetada a vacina. Felizmente essa não era de todo a verdade, ele continuava em coma, mas estava vivo. O medo de todos naquele momento era o coma ser prolongado. Adão não conseguia imaginar a sua mãe em estado vegetativo o resto da vida. Como ele iria ser capaz de acabar a grande guerra que assolava o mundo se nem conseguia erguer a cabeça. Ele tinha de ser forte, mas era impossível ser forte naquela situação. As forças eram difíceis de se encontrar naquela altura.
As horas foram passando e a esperança de que estivesse a acontecer o mesmo que acontecera com Miguel e Artur há dez anos atrás foi passando. Eles não tinham morrido, o Projeto MG não estava a renovar nada no seu corpo. Raul não acordara, Alina também não.
Uma semana passara. Nem Raul, nem Alina deram sinais de melhoria. Santiago voltou a estudar o sangue de Maria, na esperança que algo pudesse ter calculado algo errado e que ainda houvesse esperança para os dois. Durante aqueles dias Adão não saíra de perto da mãe. Lembrou-se novamente dos dias em que Edgar esteve em coma. Também nesses tempos ele não saia de perto do amigo. Ele era fiel perante as pessoas que mais gostava. Tinha de o ser, o que mais na vida era importante do que as pessoas que iluminavam o seu dia? Ele já vivia nas trevas, sem aqueles que gostava o seu dia nunca iria ter luz.
- Há uma semana que estás assim! Porque não acordas, porque não vives para me ajudar a vencer a luta que se avizinha! O George, ele anda a conquistar mais terras, ele anda a colocar híbridos em toda a parte do mundo! Nós temos de o travar, mas eu não consigo! Eu não consigo deixar-te e ir à sala de controlo ao saber que estás aqui… assim, deitada nesta cama sem me dares um sinal, eu queria apenas um sinal, apenas o teu sorriso, apenas o teu apoio! Por favor mãe, ajuda-me! – Dizia o rapaz. As suas emoções estavam cada vez mais à flor da pele. Não lhe fazia bem-estar ali trancado todos aqueles dias, mas ele não queria sair, ele apenas queria estar ali ao pé da sua protetora, ao pé da sua fonte de felicidade.
Inesperadamente a mão de Alina mexeu-se. Ao inicio Adão pensou que aquilo não passava da sua imaginação, mas a sua mão mexeu-se novamente. Ele gritou por gente que se encontrava em casa. Foi até à porta e gritou ainda mais alto.
- Adão! – Disse com voz fraca, fazendo-o virar-se para trás.
- Mãe?! – O rapaz nem se lembrou que ela devia estar fragilizada e saltou para cima da cama. – Mãe! Eu sabia que não me ias deixar, eu sabia que eras forte, eu sabia que ias sobreviver! - Disse o rapaz tão alegre como nunca estivera.
Receberam a noticia de que Raul acordara poucos minutos depois. A vacina tinha feito algo. Se os tinha curado era o que Santiago iria saber naquele momento. No mesmo dia retirara uma amostra do sangue dos dois para os analisar.
Poucas horas depois era oficial, Alina e Raul estavam completamente curados. A única resposta que ele tinha para o ocorrido era que a razão do coma se devia ao conflito entre o Projeto MG e os glóbulos presentes no sangue de Maria. Era uma situação plausível. Santiago já tinha dito a todos que o Projeto MG era bastante resistente, não iria facilitar a vida a quem o tentasse exterminar. Ao ouvir as palavras de Santiago imaginou os glóbulos brancos de Maria a lutarem contra as réstias do Projeto MG. Era provavelmente uma luta tão dura como aquela que iria ser travada na Área X dali a uns dias, ele tinha a certeza. Apenas algo extremamente gigantesco era capaz de fazer um organismo entrar em sono profundo durante dias, apenas algo extremamente gigantesco iria fazê-lo ir embora de perto de sua mãe. Se algo corresse mal na Área X ele poderia nunca mais voltar, poderia dar a maior desilusão à sua mãe. Se para desativar todos os mecanismos da sala de controlo ele tiver de morrer, como Santiago lhe confidenciou numa noite que passara, ele não conseguiria cumprir a promessa que prometera àquela mulher que tanto gostava dele, a de nunca abandonar.
Durante o resto do dia não saiu de perto da sua mãe. Embora ela ainda estivesse fraca para se levantar ele ficou com ela, junto à sua cama. Lanchou com ela, levou o jantar para os dois e fez-lhe companhia. Deu-lhe a noticia que Santiago lhe dissera, que dali a poucos dias já iria ter forças para se levantar, para começar a viver a sua vida normalmente. A seguir ao jantar o cientista apareceu pessoalmente para a ver. Foi aí que a mãe pediu para ele sair, queria falar a sós com o homem que descobrira a cura para a sua doença, com o homem que lhe salvou a vida. Ele fez-lhe a vontade.
Quando saiu do quarto deu de caras com Luna. Não a via há mais de um dia. Quando a viu chegou até ela e deu-lhe um abraço. Ele precisava daquele conforto. Quando se deslargaram ela olhou para ele, ele olhou para ela. A rapariga aproximou os seus lábios e ele aproximou os dele.
O beijo não durou mais de dois segundos, até Adão perceber que aquilo iria magoar o seu amigo Miguel. Pelo olhar de Luna, ela também estava arrependida do que tinha acontecido. O problema de Adão é que tinha gostado mais do que estava a sentir de arrependimento.
Santiago acabou por abrir a porta aliviando aquele clima de desconforto que se tinha instalado entre os dois.
- Adão, preciso de falar contigo. Quero que venhas comigo até à cave. – Disse o cientista e o rapaz seguiu-o. Luna acabou por ir também.
Quando chegaram sentaram-se na mesa onde se debatiam todos os assuntos relacionados com a Guerra que George declarara ao mundo.
- A hora está a chegar Adão! Com a cura da doença já foi encontrada e está na altura de seguirmos em frente. Amanhã eu irei fazer uma transmissão durante a noite, avisar as pessoas que sabemos algo sobre a cura. Não vou contar que a temos, apenas algo vago. Ao ouvir isso o meu pai provavelmente virá para Vale do Fim para roubar a pequena Maria. Tu já não poderás estar cá! Quando o George chegar aqui tu já não poderás cá estar. Não podemos correr o risco de enfraqueceres. O objetivo da minha transmissão é criar uma manobra de distração para vocês destruírem a área de controlo da Área X. Amanhã os dois seguranças que te falarei estarão aqui. O Will e o Peter irão treinar naquele dia connosco e tu partirás com eles durante a tarde. Assim que o George souber de algo sobre a cura ele irá à Área X provavelmente para ir buscar mais alguns híbridos para trazer para aqui. Nessa altura vocês já terão de lá estar. Precisam de ver códigos, precisam de saber mais sobre como poderão chegar à Área X, precisam de tudo o que for necessário para vencer.
Adão ouvia tudo aquilo de forma atenta, mas havia algo que ainda lhe ocupava um pouco as ideias.
- O que a minha mãe queria falar contigo que não queria que eu ouvisse? – Questionou o rapaz.
- Nada de importante nesta altura, Adão! – Respondeu o homem depois de ficar um tempo em silêncio, um pouco constrangido.
Sem mais nada para falar, Adão voltou para perto da sua mãe. A noite já ia a meio quando o rapaz decidiu ir até sua casa para descansar um pouco. O dia seguinte iria provavelmente ser decisivo para o desfecho da Guerra. Adão tinha medo de não estar preparado para conseguir destruir a sala de controlo. Era um grande peso para os seus ombros, ele teria de ser capaz de o fazer.
Ao chegar ao hall de entrada da casa de Renato ouviu uma voz a chamá-lo. Era Luna. Estava vestida com um vestido que ele nunca tinha visto. A sua pele ficou enriçada e ele não conseguiu controlar o sorriso parvo que os seus lábios fizeram.
- Só temos duas noites Adão, duas noites para vivermos as vidas que temos até aqui. O que irá mudar se tu conseguires? O que irá mudar se tu falhares? Só temos uma certeza, o mundo vai mudar e tudo está nas tuas mãos. Eu não te quero perder sem ao menos dizer o que sinto. Anda Adão, vamos viver! – Disse a rapariga a abrir a porta de sua casa e a agarrar-lhe a mão.
Adão foi levado para onde Luna queria ir!

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