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Vale do Fim | Capítulo 29 (Parte 1)

 
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Capítulo 29 - Um Amor Indescritível (Parte 1)

    Lígia não dormira praticamente nada naquela noite. Nem ela nem Joel. Joel estava agitado com a conversa que tinha tido com Renato, o homem que tinha ajudado Santiago a monitorizar o estado de saúde de Alina. Já Lígia estava ansiosa com o que o jovem cientista lhe tinha para dizer. Há anos que ela sonhava em ser mãe. Com quase quarenta anos a esperança de um dia sê-lo começava a ser escassa. Joel era estéril, não podia ter filhos, e desde que os seus dias eram passados na Área X que tempo para tratamentos de fertilidade eram praticamente impossíveis de serem uma solução. Num acto de desespero, talvez por saberem que ele sabia como se desenrolava todo o procedimento devido ao seu trabalho no Quarto da Ovelha, o casal pediu ajuda a Santiago. Ele disse que era necessário um dador de esperma, que se um dia o arranjasse que os iria ajudar. Esse dia chegou passados quase três anos, mas ela continuava com o mesmo desejo que tinha há muito tempo atrás.
    Quando chegou à Área X, não teve qualquer problema em seguir directamente para o laboratório de Santiago. Ela precisava de o ver, precisava de saber o que ele lhe tinha para dizer, precisava que o processo começasse, precisava de ter o seu filho nos braços. Adão foi aquilo que mais se aproximou de um filho para ela. Embora em poucos dias ele já andasse, ela ainda o pegou ao colo, ainda lhe mudou fraldas, sentiu-se uma mãe que nunca foi. Sentia um amor por ele, mas sabia que ele não era seu filho, sabia que não era aquele o amor indescritível que uma mãe tinha para com um filho. Ela queria sentir esse sentimento, e graças a Santiago esse sentimento estava prestes a ser sentido por ela.
    Entrou no laboratório de Santiago muito ansiosa. Não era uma mulher muito ansiosa, mas naquele momento o seu coração palpitava, uma das coisas que mais queria no mundo estava prestes a acontecer.
    - Acalma-te, estás ansiosa demais. Eu preciso de saber que o que está prestes aqui a acontecer fica apenas entre nós Lígia. Preciso mesmo! Este assunto é apenas de conhecimento meu, teu e do Joel. Porque razão ele não está aqui? – Questionou o rapaz.
    Ele não demorou a bater à porta. Também estava nervoso. Joel tinha ido primeiro falar com George, tal como num dia normal de trabalho na Área X, primeiro falar com o seu superior sobre aquilo que se iria passar no mega-laboratório naquele dia. Era mais um dia como os outros, provavelmente tudo o que de importante se passaria lá era no Quarto da Ovelha. Provavelmente a criação de dois novos híbridos.
    - É o único trabalho que vou ter daqui para a frente, e não poderei interferir em mais nada a não ser na colocação do ADN do Adão no óvulo da mulher! – Explicou Santiago quando Lígia lhe perguntou se ele iria continuar no processo.
    Joel sentou-se ao lado dela e os dois olharam para Santiago como estivessem num consultório médico preparados para ouvir um que um verdadeiro médico tinha para dizer. Isso lembrou a Lígia a primeira consulta a que foram quando não conseguiam engravidar, há mais de quinze anos, mesmo antes dela se ter mudado sozinha para Vale do Fim para ser a secretária do Presidente do Concelho. Nesse dia sentiu um aperto enorme quando soube que o seu marido não lhe podia conceder o desejo de ser mãe. Nesse dia ela deitou-se na cama e chorou, chorou até a noite dar lugar ao dia. Naquele momento tudo era diferente, ela ia sair dali com a certeza que aquilo iria acontecer, que iria ter um filho, o filho que sempre quisera ter.
    - O que te disse ontem ao telefone era apenas para te trazer até aqui, não queria falar do que quer que fosse através do telemóvel. – Aquelas palavras de Santiago fizeram a felicidade de Lígia recuar. Seria tudo um esquema para a trazer aquele laboratório para debater mais algum dos seus esquemas. – Não, estão aqui mesmo por causa de uma gravidez, isso não vos menti… mas… bem deixem estar, não vos quero preocupar com mais nada, isto tem de ser um momento de felicidade para vocês também! Hoje há noite, quando o meu pai sair daqui, eu irei realizar o processo. O esperma está congelado e preparado para o procedimento!
    Lígia sentiu algum nervosismo naquele discurso de Santiago, mas a felicidade de ter um filho não deixava espaço para questionamentos, afinal aquilo não podia trazer desgraças na sua vida, disso já estava rodeada. Um filho era uma graça no meio de tantas adversidades que tinha à sua volta.
    Tal como combinado, assim que não existia mais sinais de George pela Área X, Santiago e eles entraram no quarto da ovelha.
    - Espero que não estejas a pensar colocar-me um híbrido no útero! – Brincou Lígia. Há muito tempo que não tinha vontade de soltar uma piada, aquilo tinha sem dúvida sido uma lufada de ar fresco na sua vida.
    - Nunca te iria atirar esse peso para os ombros. Além disso… - Santiago mostrou aos dois o frasco com o esperma. - … podes verificar que não tem nada a ver com o ADN do Adão. Apenas estamos nesta sala porque é aquela que é mais apropriada para o processo.
    Quando o procedimento ficou concluído, Lígia tocou na sua barriga e Joel seguiu-lhe com o mesmo gesto. Sabiam que ainda não havia bebé nenhum ali, mas se tudo tivesse corrido bem, dali a alguns meses ele iria ali estar a dar pontapés.
    Tudo correu como deveria e em três meses Lígia descobriu que carregava uma menina no seu ventre. Maria, um nome tão comum no mundo, um nome tão comum no seu país. Ela gostava daquele nome desde criança, era mais que normal que ela e o seu marido o escolhessem para apelidar a sua menina.
    Aos quatro meses começaram as tonturas e as comichões na pele. As tonturas, Lígia pensou serem normais, afinal havia relatos de várias mães que as tinham, sobretudo devido a uma descida da pressão sanguínea. Já as comichões eram algo estranhas, falaram com Santiago e ele também não sabia do que poderia ser, dizendo que se poderia tratar de uma reacção alérgica a algo. Era para ela também a razão mais plausível. Ele ficou, mais uma vez, um pouco nervoso, mas ele era dos únicos que a acompanhava na gravidez, além de um médico ou outro que também trabalhavam na Área X no desenvolvimento de alguns projectos ligados ao futuro da medicina.
    Os exames foram feitos, mas Santiago nunca lhe chegou a mostrar os resultados, tentava sempre mudar de assunto quando ela perguntava se ele já sabia os resultados. Um dia, já haviam passado cinco meses de gestação e estava prestes a acabar mais uma ecografia, a vontade de coçar o seu braço foi intensa, intensa demais que a fez coçar o braço. Foi aí a primeira vez que a sua pele veio com as unhas. Foi aí que o olhar de desespero de Santiago foi visível e ela o confrontou.
    - Desculpa! - Disse ele. Ela não sabia o que se estava a passar, mas começava a prever o que tinha ganho. – O sémen… o sémen que eu usei no teu processo foi do Edgar! Eu preciso de estudar a Doença Negra, já somos vários afectados com ela.
    Lígia ficou chocada com aquela notícia. Em todos aqueles anos sabia que os cientistas não olhavam a meios para conseguir comprovar teorias, mas aquela tinha ultrapassado todos os limites do aceitável. Ela estava doente com uma doença completamente desconhecida para a ciência. Uma coisa que a intrigou foi algo que ele disse, por isso ela questionou:
    - Tu falaste que existe muita gente a portar a doença, que são vários afectados! Quem são eles? Quem mais está afectado.
    - Existem seis afectados, que eu tenha conhecimento. O Edgar e o Raul são aqueles que estão mais afectados. O Raul está em voluntariado em África e eu consegui falar com o seu médico de família para que lhe fizesse transfusões de sangue do Adão. O problema, é que tal como o Edgar, a doença do Raul está a começar a agravar-se e as transfusões têm de ser cada vez mais frequentes. A Alina, que apanhou a doença por ter ficado grávida do Adão, está agora melhor, mas as transfusões de sangue provavelmente serão mais frequentes. O caso dela é idêntico ao teu, embora o dela tenha sido muito mais retardado, já que demorou nove anos a dar sinal. Pensei que a ti ocorresse o mesmo, infelizmente enganei-me. O Projecto CM que ela tem a correr no seu organismo deve ter retardado a doença.
    - Como é que tu fizeste isto Santiago? Porque achaste que ias conseguir uma cura para uma doença se nem o teu pai descobriu! – As lágrimas começaram a cair dos olhos de Lígia, embora ela não soubesse se eram de raiva e desgosto por Santiago a ter usado ou se de culpa por pensar apenas no amor indescritível de ter um filho. – Tu disseste que conhecias seis pessoas com a doença mas só mencionaste quatro… quem são os outros dois? Um deles é o Joel? Por ter tido relações sexuais comigo achas que pode ter apanhado a doença é isso?
    - A menos que ele tenha entrado em contacto com o teu sangue ele não adoeceu. – Respondeu Santiago depois de algum tempo em silêncio. – Eu tenho a doença há uns meses, Lígia. Há quase um ano! Eu tenho andado a fazer transfusões para mim próprio. Com tantos doentes o sangue do Adão não irá dar. Eu não posso tirar sangue para tantas pessoas. Eu preciso de estudar uma cura. E se a cura estiver no filho de um portador da doença? O Adão não tem a doença, há algo no seu organismo que o defende dela. Por mais que o estude não consigo perceber. Além disso o sangue dele cura qualquer doença excepto aquela que ele cria, o que pode significar que embora o seu sistema se consiga defender daquela doença, ele não tem nada que a possa curar. Mas a tua filha pode! Eu tenho a certeza que a Maria é a chave para a nossa cura!
    Lígia voltou a ficar calada a ouvi-lo. Entendia o lado de Santiago, no fundo ele era como qualquer comum mortal, ele tinha medo de morrer, e por isso faria de tudo para encontrar a sua cura e a dos outros o mais depressa possível. Era assim que a mente dele funcionava, principalmente tratando-se de um cientista com uma vida inteira pela frente.
    - Cinco! Disseste apenas cinco afectados. Quem falta? Eu… - Lígia ia continuar a falar mas foi interrompida por um sinal de anúncio.
    - Quero todos os elementos do GDC presentes neste momento na Área X no Auditório. Apressem-se, preciso de todos imediatamente no Auditório. – Era George e pareceu a Lígia bastante irritado.
    Os dois saíram do laboratório onde se encontravam a fazer a ecografia e seguiram para o Auditório. Santiago não pronunciou qualquer palavra, mas Lígia temia o que George quereria. Ele parecia furioso pelo seu tom de voz e tinham-se passado cinco meses desde que ele batera ao seu filho. Ela vira a mão de George com o sangue do seu filho, a sua mão ensanguentada a ser levada aos seus lábios. Ele era o sexto infectado, ela tinha a certeza.
    Entraram no Auditório e sentaram-se nos lugares da frente. Era um espaço amplo onde ocorriam algumas palestras e onde George gostava de anunciar as novidades que se desenvolviam naquele grande espaço chamado Área X. Quando ele viu Santiago a sentar-se ao lado de Lígia chamou-o para o palco. Santiago olhou para ela. Estava com medo, aí ela não teve mais dúvidas, George estava doente e provavelmente tinha descoberto a doença.
    - Dá-me uma razão para não te matar! – Vociferou ele ao olhar para o filho. Depois levantou a manga do seu casaco e mostrou o seu braço, com alguma pele danificada mostrando a carne que estava por baixo dela. – Dêem-me uma razão para eu não o matar! O meu filho, este homem que está a partilhar o palco comigo, deixou viver um rapaz que tinha sido submetido ao Projecto MG. Embora ele viva ao pé do híbrido, numa das partes menos usada da Área X, este meu filho continuou a visitá-lo, continuou a confortá-lo e o que ele trouxe para nós? A Doença Negra! Eu estou contaminado com a Doença Negra e nenhum de nós sabe como pará-la.
    Joel levantou-se e seguiu para o palco. Lígia estava com medo do que podia acontecer. Ela sabia que se o Edgar tivesse sido morto, assim como todos os elementos do Projecto MG ela não teria a doença, mas o Edgar era uma pessoa e, como qualquer pessoa, tinha o direito à vida.
    - Eu sou o culpado não ele! – Disse Joel assim que subiu ao palco. – Fui eu que o trouxe vivo de Vale do Fim para o avião. Fui eu que não tive coragem, se a doença se está a propagar eu sou o único culpado.
    - Não Joel, o único culpado dele ter a doença é ele próprio! – Declarou Santiago deixando todos de boca aberta e o seu pai furioso. – A Doença Negra apenas se propaga através do sangue, ele apenas a apanhou porque num ataque de raiva de eu ter deixado o Adão ir ter com os pais ele me esmurrou e levou a mão à boca. Cada um é o culpado das suas acções e tu não és diferente, pai!
    - Dizes que sou o culpado?! – Vociferou George. Lígia nunca o tinha visto tão furioso como daquela vez, ela nunca o tinha estado daquela maneira. – Então serei o culpado de mais uma coisa, daquilo que vem aí a seguir!
    Lígia tremia por cada palavra que se ouviu a seguir!
Vale do Fim | Capítulo 29 (Parte 1) Reviewed by Fantastic on 19:00:00 Rating: 5

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