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Vale do Fim | Capítulo 27 (Parte 3)

 
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Capítulo 27 - O Quarto da Ovelha (Parte 3)

10 anos atrás
    Santiago sabia que tudo aquilo que se passava no quarto da Ovelha era uma loucura. Por isso mesmo vivia desgostoso ao fazê-lo. Sabia que o seu pai não tinha escrúpulos, mas aquilo ultrapassava o inadmissível. Aquilo era algo que o fazia odiá-lo ainda mais que o odiava. George nunca mostrara qualquer tipo de amor por ele, queria apenas que ele lhe seguisse os passos, por isso mesmo sempre o quisera presente em todas as palestras do GDC em Portugal. Ele sempre vivera revoltado com isso. Nunca tivera uma figura paternal presente e quando tinha era para lhe incutir valores completamente imorais, completamente deploráveis.
    Quando se passaram os nove meses de gestação da primeira mulher submetida ao processo de clonagem de Adão, foi Santiago um dos principais membros a estar no local, junto ao médico responsável. Quando viu uma menina sair em vez de um rapaz teve um dejá vu, parecia estar a acontecer o mesmo que na noite em que Alina tivera o seu pequeno híbrido. Isso intrigou o jovem cientista, porque razão o embrião criava sempre gémeos, se um deles acabava por morrer? Nem ele nem ninguém sabiam o motivo disso, mas que o enredava isso era inegável. Pegou nos braços AA (o nome que dariam ao híbrido, sendo o seguinte AB e por assim adiante) e uma lágrima escorreu-lhe pelos olhos. Tinha sido o primeiro a pegar no pequeno Adão, fora também o primeiro a pegar no seu primeiro clone. Era inegável o amor que ele sentia pelo rapaz, pelo verdadeiro, por isso era facilmente sentir também algum amor pela cópia, mesmo sabendo o destino que ela ia ter.
    Sentiu-se mal no minuto seguinte ao deitar o bebé na cama. Ouvira da boca do seu pai aquilo que temia ouvir.
    - Prepara a mulher, ela vai sair daqui a nada daqui! Iremos dar-lhe uma mala cheia de dinheiro, uma identidade, algo para que ela possa fazer uma nova vida…até ser assassinada por um dos nossos muitos assassinos profissionais.
    Santiago sentiu os seus músculos do seu estômago contorcerem-se. Seria aquilo que estava a ouvir realmente verdade? Ou seria apenas uma piada mórbida do seu pai? Naquele momento nada lhe parecia espantar.
    - Não tenhas pena destas raparigas Santiago! Para o mundo elas oficialmente estão mortas. Foram dadas como desaparecidas e supostamente encontradas mortas em locais abandonados. Elas não podem viver Santiago. Elas carregaram o clone do híbrido, estiveram nove meses em contacto com ele, provavelmente ficaram infectadas com a doença, não posso permitir que vivam para espalhá-la, ainda para mais sem sabermos como ela se propaga.
    O rapaz não concordava com nada daquilo, mas não podia fazer nada, por muito que ele se opusesse o seu pai era um homem de ideias fixas, um homem sem qualquer pingo de humanidade que via o mundo de forma distorcida.
    O tempo foi passando e tudo continuou igual, idêntico a um círculo vicioso, os bebés iam nascendo, os mais crescidos começavam a desenvolver-se e a iniciar o seu treino que Santiago apelidava de bizarro. E era! Não existia outra palavra para descrever aquilo pelo que os clones passavam, a dor que sentiam, a lavagem cerebral que levavam. No fundo, o jovem via Adão como um ser sortudo, mesmo não o sendo de todo. Ao menos ele não passava nem por metade do que as suas cópias passavam. Além disso, em todos os nascimentos que fazia existia um ser morto, parecia um ritual, o híbrido trazia sempre com ele um ser já morto consigo. O seu pai dizia que aquilo era uma metáfora, um presságio daquilo que ele era, um assassino. George apenas os via como um objecto, uma arma, por isso dizia aquilo como se fosse algo normal e não um acto condenável.
    A única esperança de Santiago residia em Edgar. Ele era sem dúvida o seu trunfo. Certamente ele teria a Doença Negra, ele tinha estado em contacto com o Projecto MG e pelas teorias certamente iria tê-la algum dia da sua vida. Muito antes de ingressar na PastFuture, antes de sequer conhecer August, ele estudou bastante o Projecto MG com o seu pai, mas ele nunca deixava as cobaias sobreviverem tempo demais para estudar a doença. Se havia algo que George tinha medo era sem duvida de uma praga mundial. Quando um dia o seu pai chegou com uma criança ao seu humilde laboratório, muito antes da Área X estar planeada, Santiago chocou-se. Era um menino doente, tinha insuficiência pulmonar. George nunca tinha testado o projecto que tinha desenvolvido com os seus irmãos num indivíduo tão jovem, mas o rapaz iria morrer e ele queria saber se os jovens também podiam ser afectados por aquilo. Exposto ao soro o rapaz não sofreu modificações ao inicio. Nem foi possível ver se conseguia sofrer, pois na mesma noite teve um episódio tão grave da sua doença que acabou por falecer, talvez por ter tido sido exposto a um soro daquele tipo. Santiago odiou o seu pai naquele momento, ele tinha morto uma criança para testar o seu projecto. O mais bizarro aconteceu no dia seguinte ao teste, quando o rapaz acordou na morgue de um hospital dirigido por um membro do GDC. Claro que conseguiram abafar o que aconteceu, mas George quis estudar o rapaz e Santiago ajudou-o. Ele era um híbrido. Tinha força, conseguia regenerar-se, conseguia correr a uma velocidade que Santiago nunca tinha pensado que seria possível. Era sem dúvida um menino milagre, além de todas as suas novas aptidões, não existiam quaisquer vestígios da sua doença. Aquele rapaz era uma excepção a tudo o que aquela equipa de cientistas tinha observado, deitava por terra tudo aquilo que eles achavam certo. E como todas as excepções, também aquele miúdo foi um objecto de estudo de George. Eles não precisariam de Alina e de um híbrido se aquele rapaz fosse suficiente. Infelizmente, para o rapaz, ele não era. George tentou controlá-lo através do Projecto CM, mas Alina era sem dúvida única, ela era a única que tinha no seu organismo o elemento secreto, aquele que o seu irmão criara e lhe colocara no sangue, apenas nela esse projecto era possível. Com medo do que o rapaz lhe poderia trazer o temível para Santiago aconteceu. Aquele rapaz não podia morrer, a menos que os órgãos vitais sofressem alguma lesão. Santiago preferiu não estar ao pé do jovem quando os homens do seu pai lhe cortaram a cabeça. Foi a primeira vez que o seu pai usara o argumento de que matou para proteger a humanidade da Doença Negra, mas no fundo ele sabia que o seu pai estava apenas a defender os seus interesses e o miúdo poderia ser uma pedra no seu sapato.
    Era desse destino, do mesmo que aquele rapaz teve, que Santiago tinha medo. Ele tinha medo que o pai matasse Edgar, pelo mesmo critério. Na realidade ele tinha mais de noventa por cento de probabilidades de a ter. E nisso tinha razão, nove anos depois de ali chegar ele teve o primeiro sintoma. Infelizmente não era o único.
    Naquele momento, dez anos depois de ajudar Edgar e de ter estudado bastante pouco da sua doença, pois até ao primeiro sintoma não havia nada que a indicasse, Santiago via a sua pele da cara sair com facilidade através de um pequeno raspar com as unhas. Não podia desesperar naquele momento, tinha de perceber como é que ela se transmitia, como é que ele tinha apanhado a doença. Foi aí que se lembrou do frasco de sangue que caíra ao chão há algumas semanas atrás quando ele estava para sair do seu laboratório. Um pouco da amostra do sangue de Edgar caíra-lhe no chão e nesse momento ele não tinha luvas. Tinha-se cortado com um vidro, provavelmente essa ferida aberta foi um passo para o sangue de Edgar se infiltrar. Sangue contaminado. Aquela doença só poderia passar através do sangue, pelo menos era a teoria que tinha naquele momento em que tudo lhe passava pela cabeça.
    Ele estava infectado com a Doença Negra, tinha de ter cuidado para não infectar ninguém e mais que nunca precisava de arranjar uma cura. Olhou novamente para o seu rosto no espelho. Tocou no olho esmurrado e ficou parado, parado a pensar. Ele tinha deitado sangue, o seu pai tinha-lhe feito uma ferida no momento que lhe dera um dos murros. Ele vira George a levar o seu punho, o mesmo que tinha algum do seu sangue aos lábios. O cenário tinha ficado ainda pior, Santiago desejou nem ter pensado naquela possibilidade, se o seu pai descobrisse não sabia o que poderia acontecer, apenas sabia que nada de bom provavelmente iria acontecer.
    Assim que se apercebeu do cenário que poderia ter criado Santiago correu o mais que pôde até ao local onde Edgar se encontrava. Pelo caminho deparou-se com os olhares e sussurros de muitos dos cientistas que se encontravam na Área X no momento em que o seu pai lhe esmurrara a cara. Ele não ligava aquilo, não havia tempo para ligar a olhares opressivos de pessoas que não sabiam sequer metade do que realmente estava a acontecer. Para eles o híbrido era uma inovação, algo que iria mudar o mundo de uma forma completamente diferente daquela que George estava a delinear. Se soubessem o que se passava no quarto da ovelha talvez esses olhares não fossem tão assim.
    Quando finalmente conseguiu chegar até Edgar não aguentou o choro. Estava completamente desesperado, e errado era aquele que disse que nenhum homem chorava, talvez nunca tivesse estado naquela situação.
    - Edgar, suplico-te… preciso mesmo da tua ajuda, preciso mais do que nunca do teu sémen, ele talvez seja a única hipótese de encontrar a cura da doença, ter uma criança que nasceu com a doença pode permitir-me saber se arranjou algum tipo de defesas, algum tipo de cura. E não temos muito tempo… eu também estou doente como tu, Edgar, e pior… o meu pai provavelmente também está!





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