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Vale do Fim | Capítulo 27 (Parte 1)

 
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Capítulo 27 - O Quarto da Ovelha (Parte 1)

10 anos atrás
    Joel entrara apenas uma vez na Área X e nessa vez ela estava deserta. Estava praticamente finalizada, apenas faltavam pessoas a trabalharem por lá, a desenvolverem tecnologias para tornarem um mundo mais fácil, pelo menos para George o dominar. Ele sabia que o homem e toda a sua organização tinha muita influência em todos os departamentos e governos do mundo, mas aquela obra ainda assim o impressionava. Joel sabia que a Área X estava localizada no meio do nada, numa área onde não havia nada, mas mesmo numa terra de ninguém um jornalista poderia aparecer para dizer que ali se passava algo, algum investigador poderia querer armar-se em herói e tentar saber o que ali se passava. Nada disso aconteceu, nunca ninguém falou sobre aquele mega-laboratório feito dez metros abaixo do solo.
    Contudo, houve uma divisão da Área X que nem mesmo foi mostrada aos elementos de maior importância do GDC, o Quarto da Ovelha. Joel bem tentou que o seu líder dissesse o que ali se iria passar, mas ele disse que todos apenas saberiam o que se passaria ali depois do término da Missão Guernica, que aconteceria onze meses depois do dia em que ele visitara aquela grandiosa obra pela primeira vez. Até lá, apenas Santiago e Lourenço saberiam o que se iria passar lá, pois eles estariam encarregues de tudo o que ali se passava.
    O dia em que Joel saberia o que se passaria naquela divisão chegara logo no dia que se sucedeu ao fim trágico da PastFuture. Ele não tinha recordação de nenhum dia em que George estivesse tão eufórico como aquele. Nem ele nem Lígia entendiam o que poderia se passar naquela divisão para estar a deixar o seu velho líder em êxtase.
    Quando entrou na sala percebeu que ela dava acesso a uma sala ainda mais profunda, o quarto da Ovelha não passava de um acesso a uma outra sala, uma sala redonda que ao centro tinha uma cama. Ao fundo dessa sala tinha uma porta para o lado oposto, para o lado onde Joel achava que nada havia, fazendo-o lembrar que a Área X era sem dúvida um labirinto, cheio de segredos e o que ali se ia passar era uma incógnita tão grande como esses mistérios todos. Santiago fora o último a entrar. Não trazia um sorriso nos lábios, muito longe disso. Ele não partilhava nem uma décima dos cem por cento da felicidade do seu pai. Trazia consigo um frasco de sangue, que fez o homem mais velho delirar assim que o pegou.
    - Finalmente vamos fazer jus ao nome desta sala. – Declarou George como se fosse uma criança a receber o seu primeiro brinquedo. – Joel, nunca te questionaste por esta sala se chamar quarto da ovelha? – Daquela vez ele tinha-se direccionado para ele. – Sabes, a ovelha Dolly foi o primeiro animal a ser clonado. Para o mundo a clonagem é vista como um crime, um tabu na sociedade, por isso tem de ser feita nas sombras. Este frasco que aqui vês, ele contém as celulas-tronco e o ADN do nosso jovem Adão. Trabalhei com os melhores cientistas desta área, aqueles que vivem frustrados por não terem espaço para fazer as suas pesquisas para saberem se os seus projectos teóricos resultam na prática. Eu ajudei-os. Eles já clonaram pessoas, eu dei-lhes uma sala para isso, mas hoje há um marco, vamos clonar um híbrido. Um não, três. Este processo será repetido três vezes por dia todos os dias do ano. Centenas de Adões serão feitos aqui durante um ano, milhares estarão connosco nos próximos anos! Em pouco mais de uma década teremos um exército de híbridos! – Declarou o homem. 
    As suas palavras começavam a assustar Joel. Ele sabia os poderes que Artur tinha, sabia que eram em tudo semelhantes aos do híbrido, ele apenas não podia ser controlado. O que George queria eram milhares de cópias de seres que podiam deslocar-se a velocidades inimagináveis, que tinham uma força fora do comum e que se regenerassem se se magoassem. Além de tudo isto, controlados por ele. Eram no fundo objectos de um cientista, nunca iriam ser pessoas normais. Quando ele entrara para a GDC o seu sonho era melhorar o mundo com tecnologias, com pessoas super-dotadas, mas não com exércitos que podiam ser perigosos para as outras pessoas. Onde iria George chegar com todas aquelas armas mortíferas?
    Ele seguia George com o olhar. Era capaz de ver o seu sorriso de orelha a orelha enquanto descia as escadas com o frasco na mão. Ao mesmo tempo que ele descia os degraus, a porta que Joel nem tinha conhecimento que existia abriu-se e dela saíram quatro pessoas. Das quatro, ele apenas conhecia Santiago. Nunca tinha visto os restantes. Isso era compreensível, o GDC era composto por centenas, senão milhares de pessoas, era impossível Joel ter-se cruzado com todos eles, muito menos conhecer todas as suas caras. Uma das pessoas nem sequer parecia ser um membro. Era uma mulher e vinha agarrada aos outros. Pela sua expressão não estava ali de livre vontade. O seu olhar vazio e apático fazia-o crer que estaria até sobre efeito de estupefacientes. Ele acreditava que sim, quem no seu perfeito juízo aceitava arriscar a sua vida para carregar na sua barriga um híbrido. Alina fê-lo sem o saber, estas mulheres devia ser diferente, elas sabiam para o que vinham. Pelo menos era o que, o ex-investigador do concelho do interior onde Vale do Fim pertencia, queria acreditar.
    George entregou o frasco ao seu filho e correu novamente para junto dele e de Lígia, que também parecia desnorteada com tudo aquilo que via. Tudo aquilo que ali estava a acontecer nunca tinha sido debatido em nenhuma das palestras que George realizara quando eles ingressaram no GDC nem em nenhuma das que ele fizera para angariar novos membros. Joel seguia-o, sabia tudo o que ele dizia nos eventos, não entendia o que ele pretendia com aquilo. 
    Apercebeu-se que a sua mulher acabou por virar a cara quando os cientistas iniciaram o processo, o primeiro de muitos que George pretendia fazer. A vontade de Joel era desistir daquilo tudo, sabia que Alina tinha sofrido muito na sua gravidez, sabia da vida que aquelas mulheres iria ser dali para a frente, sabia que não era aquele o futuro que queria para si, que viveu anos iludido ao pensar que aquilo era o certo mas que bastou o primeiro dia nas novas instalações para perceber que nem tudo era o que parecia, que George nunca dissera toda a verdade do que pretendia realizar.
    Quando o processo terminou a mulher foi levada e George pediu para ele e Lígia o seguirem. Ele ia leva-los até àquela porta desconhecida, uma porta que certamente os levaria a um novo mundo, a uma realidade desconhecida para qualquer um dos dois. Desceu as escadas de mãos dadas à sua esposa, com medo do que ali poderia haver. Certamente aquelas mulheres iriam viver em cativeiro, George não as deixaria escapar dali. O seu maior receio era ainda o que se seguiria depois do nascimento daquele clone. O que seria feito aquelas mulheres depois disso. Naquele momento ele tinha medo de saber e ainda mais de perguntar.
    Entraram naquela porta e seguiram aquele túnel. Era um túnel escuro, embora tivesse algumas luzes de presença. Até Joel sentia arrepios ao atravessar aquele sítio. Depois de quase dez minutos de andamento finalmente chegaram a outra porta.
    - Apresento-vos a Área H, H de híbrido! – Declarou George.
    Joel ficou completamente surpreso com aquela declaração. Existia um laboratório à parte da Área X? Como podia ele não ter conhecimento sequer daquela Área?
    - Esta área foi feita em sigilo absoluto com alguns dos meus principais amigos cientistas. Só aqueles da área da clonagem em que eu tinha plena confiança souberam deste laboratório, embora ele tenha sido construído pela mesma altura que a Área X. Esta é uma área isolada, tem outra entrada, também por baixo da terra como a outra. Venham, quero mostrar-vos tudo, desculpem eu não vos ter dito nada sobre isto, mas era algo muito importante, eu não podia andar por aí a espalhar com ninguém.
    Enquanto caminhavam Joel voltava a ver pessoas que nunca tinha visto vez alguma. Eram provavelmente pessoas ligadas à clonagem, ligada à multiplicação de seres iguais, cópias de um original já existente. Pessoas que estavam a brincar de Deus. George adorava brincar aos Deuses, ele próprio criou pessoas cheias de mutações, mas isso podia ajudar o mundo, aquilo muito provavelmente não. Híbridos em demasia podiam ser um problema no futuro.
    Passaram por uma divisão onde o barulho era ensurdecedor. George parou nesse lugar e começou a falar. Teve de aumentar o seu tom de voz para ser audível. Com aquele barulho era difícil.
    - Esta área não é só feita de clones. Esta entrada gigante que aqui vêem é também a porta de saída da Área H e também chamada de garagem. Quando entraram viram esboços do que ainda era um objecto numa fase muito inicial. Joel associou de imediato aquele objecto aos objectos voadores que via nos filmes de ficção científica sobre vida extra-terrestre.
    Não demoraram muito tempo na Garagem. O que George realmente queria mostrar naquele dia era tudo o que tinha a ver com os clones, o seu Projecto Híbrido. À medida que avançavam viam várias mulheres. Joel conheceu uma delas, era a mesma mulher a quem foi inserido o ADN do Adão no seu óvulo. Ela estava sentada numa cadeira de rodas, não tinha forças para andar e continuava anestesiada, com o seu olhar vago e sem qualquer tipo de expressão no rosto.
    - Vamos, o melhor ainda está para vir! – Disse George ao perceber que ele e Lígia tinham parado.
    Eles voltaram a andar. Seguiram o líder até mais uma porta. Quando entraram pareciam ter saído por completo do local onde estavam. Aquilo já não parecia um laboratório mas sim as camaratas de uma base militar. Uma base militar gigantesca. Joel não conseguia contar mas aqueles espaço era maior que um campo de futebol e todo ele preenchido por camas. Eram centenas de camas as que se encontravam ali e todas elas davam para duas pessoas, uma na cama de cima e outra na cama de baixo.
    - Existem mais quatro divisões assim, todas elas cheias de cientistas que nos vão ajudar a dar a estes clones híbridos tudo o que eles necessitam. Eles irão estar a maior parte do tempo deitados. Todos eles vão ter chips iguais ao que será implantado ao Adão assim que conseguirmos. Eles apenas se irão deslocar até à sala de vídeo, a sala mais interessante desta Área.
    Sala de vídeo? Joel estava curioso com o que se iria passar ali. George tinha tudo pensado, era impossível ter-se lembrado de tudo aquilo em poucos dias, aquilo era um projecto de vida, o projecto da sua vida. Com tudo aquilo tão bem estruturado ele percebeu que ele levara anos a pensar em tudo para que nada corresse mal. Foi com um sorriso de orelha a orelha que George abriu a porta que dava acesso aquela sua sala de eleição.
    Joel ficou um pouco decepcionado, estava a espera de algo diferente daquela sala. Era apenas uma sala idêntica à sala de segurança da área X. Uma sala cheia de ecrãs, todos eles desligados naquele momento.
    - Uma coisa que o Adão tem e que estes híbridos terão também é algo que eu quero combater. Sabes o que é? – O homem ficou a aguardar que Joel lhe respondesse mas ele já esperava tudo e não sabia nada, preferiu então não proferir uma única palavra. – O Adão tem vontade própria. Eu não quero que nenhum destes seres andem por aí a conversar. Eu quero seres que corram, que lutem que se regenerem de qualquer ferida que possam vir a ter, mas não quero que eles pensem, quero que se mantenham com as bocas fechadas. Sentem-se, vejam como eu pretendo isso.
    Os dois se sentaram em duas das cinco cadeiras em frente aos monitores. A cadeira parecia confortável e Joel ficou interessado em perceber o que ali se ia passar. Perdeu o interesse assim que George disse Ligar e os monitores daquela sala se ligaram instantaneamente e as luzes se apagaram. Uma sucessão de imagens de guerra, violência, dinheiro, desespero, actos sexuais, transportes públicos e tudo o que rodeava e pertencia ao mundo. Isso deixava-o zonzo, com vontade de vomitar, e sobretudo uma vontade enorme de estar calado a pensar no que via. Se ele tinha ficado assim como se iriam sentir os miúdos que ali se iriam sentar em pouco mais de um ano. Adão crescia mais rápido que uma criança normal, era provável que as suas cópias seguissem o mesmo nível de crescimento. Era torturante só pensar ao que elas iriam estar sujeita antes de completarem dois ou três anos de vida. Ainda mais torturante era o facto dele não poder fazer nada. Sabia do poder de George, sabia que nunca sairia vivo de uma batalha contra ele. Estava de mãos e pés atados.
    O tempo passara e ele sabia que não podia combatê-lo, mas que alguém o podia fazer. Era por isso que se encontrava ali, dez anos depois, frente a frente a Artur. Artur continuava incrédulo com tudo o que ele e Lígia lhe tinham contado. Era tudo tão bizarro que ele provavelmente estaria a pensar que metade daquilo que eles contaram era provavelmente fruto de uma grande imaginação para poderem conversar com ele.
    - Querem então dizer-me que para além do meu filho existem milhares de clones dele, clones como… este que aqui se encontra? – Dizia Artur ao olhar para aquela réplica exacta do rapaz que lhe batera à porta no dia anterior.
    - Tens de nos ajudar Artur. Não sei o que passou pela cabeça do Santiago para trazer-te o Adão até ti mas essa ideia dele deu-nos uma oportunidade para falar contigo, para te pedirmos ajuda!
    - E quem disse que eu vos quereria ajudar? O que há para ajudar quando estou a conversar com gente que vai na cantiga de um cientista completamente louco que para não deixar o irmão completar uma missão atirou um lobo cheio de mutações genéticas para a estrada? – Disparou Artur.
    Joel não teve argumentos para o combater. Ele sabia que o que ele estava a dizer era verdade. Já nessa altura ele devia ter compreendido que as ideias do seu líder não eram sem sombra de dúvidas as mais heróicas. Ele matara dezenas de pessoas para que August não completasse com sucesso o seu experimento, ficando com um leque bastante reduzido de cobaias. Nessa época ele infelizmente vivia iludido, sabia que o mundo não era dos bons, era daqueles que sabiam sobreviver às crueldades que nele havia. No entanto ele precisava de ajuda de fora do GDC, precisava de alguém que ajudasse o mundo quando ele precisasse, que fosse um herói quando a nuvem negra pairasse no céu.
    - Tens de nos ajudar Artur! – Voltou ele a dizer fazendo silêncio logo a seguir. Estava com receio de dizer aquilo em voz alta. – Tens de nos ajudar a evitar a maior guerra que o mundo algum dia assistiu. A Guerra dos clones do teu filho! – Artur ficou chocado com o que ouviu e ele prosseguiu, contando tudo o que ele sabia sobre o que George planeava para aqueles seres sem alma.
Vale do Fim | Capítulo 27 (Parte 1) Reviewed by Fantastic on 19:00:00 Rating: 5

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