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Vale do Fim | Capítulo 22 (Parte 2)

 
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Capítulo 22 - Anjo da Guarda (Parte 2)
 
Adão saiu do aeroporto e correu, correu até não conseguir mais. Nunca tinha corrido uma distância tão grande. O máximo que percorrera a uma velocidade estonteante como aquela foi pelos dez quilómetros de diâmetro que a Área X. Era jovem, ainda mais jovem do que era naquela altura. Pensava que conseguia fugir de um sítio onde só sai quem o George quer. Era impossível ele conseguir fugir dali, conseguir ser livre. Ele não nascera para ser um comum mortal, nasceu para ser algo diferente, nasceu para algo que nem ele próprio sabia. Ouvia as pessoas a falar enquanto olhavam para ele. Uns diziam que ele era uma arma de guerra, algo muito perigoso, outros diziam que ele podia ser a salvação da humanidade. Ele pensava, pensava muito. Como é que alguém podia ser tão ambíguo, como alguém podia ser ao mesmo tempo a destruição e a salvação da humanidade. Joel dava-lhe muitos livros. Adão gostava de livros de mistério e de aventura. Nessas histórias, o herói só tinha o dom de salvar o mundo enquanto o vilão tinha a capacidade de o destruir. Se assim o era, como é que ele podia ser os dois?
    Com todos aqueles pensamentos filosóficos, lembrou-se de Joel. Não só de Joel, como de Santiago e Lígia. Joel e Lígia não tinham filhos por isso mimavam-no muito. Claro que não o deixavam sair da Área X, mas conviviam com ele em todas as oportunidades que tinham. Eles e Santiago não eram iguais a George. Eles nutriam sentimentos por ele. Eram os únicos e por isso ele sentia-se sozinho. Não havia mais crianças na área X com quem ele pudesse brincar. Às vezes jurava ouvir choros de criança mas nunca vira nenhuma. O Santiago dizia que eram apenas coisas da sua cabeça, mas ele sabia que não podia ser. Eram choros de criança, ele tinha a certeza.
    Estava cansado de correr. Já tinha corrido mais de cem quilómetros e ainda só se tinham passado vinte minutos. Nunca tinha corrido tanto e tão velozmente. Olhou para dispositivo móvel que estava no seu bolso. Faltavam ainda duzentos quilómetros para alcançar o ponto vermelho do mapa. Estava exausto mas cheio de vontade de chegar ao seu destino. O que iria encontrar? Cada vez que clicava naquele ponto só lhe aparecia “Artur e Alina – Pais”. O que lhes iria dizer? O que eles iriam dizer quando o vissem. Ele nunca os vira, eles provavelmente também não. Como é que eles iriam reagir ao vê-lo.
    Exausto, mas cheio de força de vontade, retomou o seu caminho até ao ponto. Correu, parou e correu novamente assim que tinha novamente forças. A sua ansiedade de chegar aquele ponto era tanta que não via hora de isso acontecer.
    Estava mesmo prestes a chegar. Faltavam pouco mais de dez quilómetros, quando viu um carro preso no meio de dois pilares de uma ponte. O veículo estava prestes a cair ao rio. Não demorou até cair mesmo. Adão não pensou duas vezes e foi até ao pilar ver se ainda via o carro, mas ele desaparecera na água. Lembrou-se dos tempos em que Santiago e George o colocavam dentro de um tanque cheio de água para que ele pudesse treinar a sustentação da respiração o mais tempo possível. Nos últimos treinos ele conseguira um feito inédito, mais de quarenta e cinco minutos debaixo de água. Mesmo assim George não ficara satisfeito, ele queria mais, queria muito mais dele do que ele podia dar. Adão não conseguia gostar dele, como era possível gostar de um homem que o tratava como o objecto?
    Adão não pensou duas vezes e atirou-se da ponte para salvar os passageiros daquele carro. Não os podia deixar morrer.
    Era a primeira vez que mergulhava num sítio que não fosse o tanque. Um sitio bem mais fundo. Viu o carro cada vez mais fundo e mergulhou até ele. Viu que se encontravam três ocupantes no automóvel, principalmente uma rapariga. Uma rapariga da idade dele. Viu algumas no avião em que se deslocava, mas não contactou com elas. Ele queria saber o que era conviver com alguém da sua idade, o que era poder falar com alguém que tinha talvez os mesmos interesses. Então não pensou duas vezes e começou a tentar abrir a porta do carro para que a conseguisse tirar. Isso iria fazer com que o carro se enchesse de água e os restantes ocupantes pudessem morrer, mas Adão não pensou nessas consequências e rebentou com a porta. Retirou a rapariga e levou-a para terra. Ela estava inconsciente, passou muito tempo debaixo de água, mas ainda estava viva. Ele não sabia como prestar auxilio, não sabia nada de primeiros socorros.
    Quando se lembrou dos outros dois ocupantes correu para a água. Eles não podiam ficar mais tempo dentro do carro, ainda por cima com ele cheio de água. Pela primeira vez mergulhara a grande velocidade. Era mais difícil dentro de água, mas não impossível. Acabou por embater no carro, causando uma ferida na testa. Quando chegou os dois estavam já inconscientes. Não havia tempo para levar só um, ele tinha de levar os dois ao mesmo tempo antes que um deles morresse. Pela primeira vez viu que estava a usar mais força do que aquela que parecia ter. Eles pesavam o dobro do seu peso, e mesmo assim ele os transportou aos dois.
    Conseguiu levar o casal para o lado da rapariga, que ainda se encontrava inconsciente. Começou a tentar tirar a água que ela deveria ter nos pulmões. Lembrou-se de algo que Joel disse que lhe fizera na primeira vez que ficara tanto tempo no tanque que acabara por perder os sentidos. Aquilo pareceu resultar. A rapariga recuperou os sentidos e abraçou-o.
    - Tu! Tu salvaste-me a vida! És o meu Anjo da Guarda. Se não fosses tu nós teríamos morrido. – Disse a rapariga.
    Quando ela olhou para os seus pais ficou desesperada. Eles estavam inconscientes. Passaram mais tempo dentro de água que ela. Podiam não se salvar.
    - Chama uma ambulância! Por favor! – Suplicou-lhe a rapariga.
    As palavras delas fizeram-no lembrar do dispositivo que tirara do bolso e deitara para o chão da ponte. Correra até lá novamente para o ir buscar e regressou até ela. A rapariga ficou boquiaberta com o que os seus olhos tinham visto.
    - Tu… tu és igual a um amigo meu! – Disse-lhe ela. Ele não ligou muito ao que ela disse. Se houvesse mais alguém como ele de certeza que George o levaria para a Área X. A água tinha-a afectado. – Liga para o 112! Por favor.
    Adão não sabia fazer chamadas e o seu dispositivo talvez não as fizesse. Ele saiu do mapa e foi até ao teclado do seu telemóvel. Digitou 112. Afinal dava. Rapidamente atenderam e passou o telemóvel à rapariga. Ela conversou com eles.

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