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Vale do Fim | Capítulo 22 (Parte 1)

 
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Capítulo 22 - Anjo da Guarda (Parte 1)

   Luna estava contente e triste ao mesmo tempo. Se por um lado estava em êxtase de voltar novamente à capital e conhecer a cidade que não tivera tempo de conhecer quando chegara de Angola, por outro estava tristonha por Miguel não puder ir consigo. Os seus pais viam a relação entre eles mais como uma amizade colorida do que como um namoro sério. Eles já tinham sido adolescentes, sabiam como aquilo tudo se processava. Ela, por outro lado via-o como aquele que iria ser o homem que a ia levar ao altar, aquele que lhe iria colocar a aliança no dedo. Pelo menos era o que ela sonhava. Miguel era um rapaz diferente dos outros, muito mais reservado e muito mais misterioso. Talvez tudo isso se devesse ao Projecto que ele lhe falara na noite anterior, a noite em que ela percebera que era ele quem ela realmente queria para pai dos seus filhos.
    A rapariga ainda estava um pouco aborrecida com os pais por eles não terem deixado o Miguel ir. Eles concordavam que ele fosse com eles, mas nunca permitiriam que dormissem os dois juntos e, para prevenir que durante a noite a vontade de um de ir para o quarto do outro fosse mais forte, os pais dela, juntamente com Artur e Alina disseram que o melhor era ele não ir. Isso deixou-os tristes. Ela sabia que só iria estar fora um dia, mas isso parecia uma eternidade quando ele não estava ao seu lado.
    Os primeiros raios de sol batiam-lhe na cara enquanto ela ouvia música através dos seus headphones. Preferia ir assim a viagem toda, num mundinho só seu, enquanto as melodias ecoavam na sua cabeça essa flutuava pelo imenso horizonte do seu subconsciente. Embora fosse Abril e naquela manha o sol parecesse menos tímido, tinha chovido durante toda aquela semana. Isso quase fez com que os seus pais cancelassem a viagem até Lisboa. Ao ver aquele sol sorriu. Ao menos teve sorte que iria ver Lisboa num belo dia de sol.
    O seu sorriso desvaneceu quando o carro começou a rodopiar numa das pontes mais seguras da região. Percebeu em poucos segundos depois que o seu pai perdera o controlo do carro em que seguiam. Isso fê-la temer o pior. E se o seu pai não conseguisse mais controlar aquele carro. Lembrou-se das palavras que o pai disse no dia em que chegaram a Vale do Fim, há alguns meses atrás, dele falar de um acidente de autocarro que tinha ocorrido a não mais de cinco quilómetros dali, e ter vitimado duas dezenas de pessoas. A ponte podia ter uma altitude um pouco menor que esse abismo, mas sobreviveria se caísse? Ela tentava nem pensar nisso, só queria que o seu pai não tivesse perdido o controlo do carro em que seguiam.
    O carro continuou a girar até a deixar tonta. Foi então que parou entre dois pilares da ponte. Estava ali suspenso, prestes a cair ao rio. Ouvia o seu pai desesperado a pedir que não se mexessem. Qualquer movimento podia fazer com que o carro caísse da ponte. Luna estava desesperada, pensou abrir a porta e sair do carro já que se a abrisse ainda conseguia sair, mas e os seus pais? Eles iriam cair se ela fizesse qualquer movimento e ela não os podia perder, o que seria dela, como seria a vida dela sem eles? Nem queria imaginar tal cenário, era algo inimaginável. Mas também não queria morrer. Se caísse ao rio quais eram as suas probabilidades de sobreviver? Eram praticamente nulas. Podiam tentar abrir as portas debaixo de água e nada até à costa, mas isso era realmente possível? Ela temia que não fosse.
    Esse desespero fez com que Luna entrasse num estado de pânico, que a levou desesperadamente a tentar chegar à porta do outro lado do carro que estava ainda dentro da ponte. Isso causou o que todos eles mais temiam. O carro acabou mesmo por cair da ponte. Os três gritaram de desespero principalmente quando ouviram o enorme splash que o carro fez quando embateu na água.
    Era o seu fim, era o fim dos três. A mãe de Luna era uma mulher bastante crente e por isso, quando viu a água a começar a entrar pelo carro começou a pedir a Deus que a salvasse. Luna não conseguia sequer respirar, era o fim dos três. Ela tinha uma vida tão grande pela frente e agora estava ali. Ela e os seus pais, prestes a perderem os sentidos, prestes a se afogarem.
    Quando já não residia nenhuma esperança que se salvasse desistiu. Fechou os olhos e pensou em tudo o que passara em Vale do Fim. Nos amigos que fez, mas principalmente naquela pessoa especial que sempre a ajudou. Miguel. Eram os momentos com ele que lhe sucediam na memória enquanto sentia a água cada vez mais próxima da sua cabeça. Os gritos chorosos dos seus pais, juntamente com as lágrimas que caiam do seu rosto e se juntavam à agua do rio.
    Prestes a perder os sentidos, convencendo-se que ali era a estação terminal da sua vida, Luna ouviu alguém bater na janela do seu carro. Olhou para o vidro e viu que não o conhecia. Ele estava a tentar rebentar com a porta, mas era impossível, ele era um rapaz da sua idade, não tinha força para isso, porque não a deixava morrer. Se não parasse com aquela loucura ele iria morrer também. Ele pareceu-lhe destemido, não parou nem por nada. Ela, por outro lado, acabou por ceder. A última coisa que se lembra de ver foi o rapaz a destruir a porta do carro.

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