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Vale do Fim | Capítulo 20 (Parte 3)



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Capítulo 20 - E tudo não passou de um sonho (Parte 3)

10 anos depois
 
Artur levantou-se. Ainda era cedo, o relógio marcava sete horas da manhã. Era ritual habitual, ele se levantar àquela hora nas suas folgas para exercitar-se, caminhar e, controlar os seus poderes. Não costumava ir sozinho, tinha sempre a companhia de Miguel. Miguel já não era mais um menino ingénuo que morrera e ressuscitara, ele tinha de saber controlar aquilo que o destino quis que fosse dele. Dez anos depois, eles já tinham a percepção do que poderiam ou não fazer.

Olhou para o lado e Alina ainda estava a dormir. Ele deixou-a descansar. Os últimos dias têm sido difíceis para ela. Tem tido febre, tonturas, começa a deitar sangue do nariz que às vezes demora muito tempo a passar e nódoas negras no seu corpo que lhe aparecem sem razão aparente. Eles estavam preocupados, foram a um médico, mas ele, através das análises não parecia encontrar nada de anormal. O que era certo era que Artur nunca a tinha visto tão mal desde que ela parara de tomar os comprimidos do Projecto CM. Não havia August nem Viktor para os fornecer, e Artur temeu o pior quando ela os parou. Tinha medo de a perder. Ela passava dias e dias na cama, sem conseguir levantar-se. Melhorou apenas umas longas semanas depois, quando Artur começava a perder a esperança. Uma década depois ela tinha agora de batalhar outra vez por algo que nem os médicos pareciam saber com o que estavam a lidar.
 
Saiu do quarto e foi até ao de Miguel, ele ainda devia estar a dormir. Perdia horas a falar com Luna, uma rapariga que chegara há pouco tempo com os pais a Vale do Fim. Estavam a morar na casa que pertenceu em tempos a Olívia e Lourenço. O filho deles nunca mais voltara para a aldeia, constituiu família em Lisboa, arranjou emprego na capital e, com a morte dos pais nunca mais regressou. Alugou a casa a um casal que veio de Angola em busca de uma vida melhor. O pai de Luna, curiosamente era o novo colega de investigação de Artur. Pareciam-lhe boas pessoas, todos eles. E claro, Miguel, ao ver uma nova rapariga na cidade, bela como ela, caiu de amores pela rapariga. Passava noites em claro, a trocar mensagens e telefonemas com ela. Era bom vê-lo a passar aquele momento de felicidade. Sofrera bastante nos últimos tempos. O avô ficara preso e ainda iria ficar na prisão mais quinze anos, isso se durasse até lá. Tinha ainda setenta anos, mas a prisão devastara-o. Miguel nunca queria visitar o avô. Artur sabia que por um lado ele, tal como a sua mãe Joana o culpavam pelas suas diferenças da sociedade. Por mais que dissessem que não, Artur conseguia ver nos olhos deles que sim. Mais nos de Miguel, porque Joana, só a via nas suas curtas visitas à aldeia. Joana tinha escolhido outra vida, e, embora quisesse que Miguel fosse com ela, ele decidiu que queria ficar ali, junto a Artur e Alina.

Alina e Artur gostaram da ideia de o ter a viver com eles. Era o ocupar do vazio, o filho que eles não podiam ter. Quando Artur e Alina souberam que ela ficara estéril depois do nascimento dos seus filhos que acabaram por morrer não tinham palavras para descrever tamanha tristeza, dor tão profunda que parecia consumir os dois. Isso aconteceu quando Joana os avisou que ela e Raul iriam partir rumo a uma nova vida, a do voluntariado nos países mais carenciados. Isso aliviou um pouco a dor dos dois. Receberam Miguel de braços abertos. Joana ficara triste, queria acompanhar o crescimento de Miguel, mas ele precisava de ter estudos, precisava de se formar e fazer uma vida normal, mesmo com todas as suas novidades genéticas.

Depois de o chamar, desceu as escadas da sua vivenda e foi preparar algo para comer. Algo leve para ele e Miguel terem forças para uma corrida matinal. Não pôde deixar de parar na mesa que estava ao lado da porta da cozinha, onde tinha uma fotografia, uma fotografia antiga. Tinha dez anos. Fora tirada numa das várias sessões de acompanhamento de Viktor, sessões denominadas pela ingenuidade da idade de Miguel, pelo clube dos mutantes. Só pensar nesse nome o fazia sorrir ao olhar para aquela foto. Era triste olhar para eles e pensar que quase nenhuns dos sobreviventes ao acidente de autocarro já não se encontravam entre eles. Todos eles assassinados por um homem que ele não conseguira apanhar. Só restava ele e Miguel. A culpa ainda o consumia por não ter conseguido salvar Eva. Ainda entrou no barracão, ainda gritou por ela, mas nunca a vira, nunca a ouvira. As forças dele eram quase nulas e ele pensou em Alina, pensou em como ela se iria sentir se o perdesse novamente. Nem o projecto MG deveria ser capaz de conseguir regenerar todas as células de um homem queimado.

- Devias tirar essa foto daí! Só te atormentas com ela. – Disse Miguel já vestido a rigor para a manhã de exercício. Sempre que olhava para ele via-o ainda como aquela criança indefesa que acordara no caixão do seu próprio velório. Fora obrigado a crescer bem mais rápido que qualquer um outro jovem da sua idade. Às vezes ele fazia-o muito lembrar Edgar, pela revolta que ele parecia guardar dentro de si, embora sempre mostrasse a expressão mais serena possível, fingindo sempre que tudo estava bem. Lembrar Edgar fazia sempre lembrar a dor dos pais por nunca poderem ter enterrado um corpo. Na noite em que o barracão ardeu Edgar também desaparecera, mas os vestígios de sangue na casa faziam crer que alguém o tinha morto. Um acto cobarde o de matar um adolescente com uma vida pela frente. Isso fazia Artur ficar ainda mais revoltado com toda a humanidade.

Depois de comerem os dois saíram e começaram a sua caminhada pelas poucas moradias que existiam ali à volta. Era cada vez menor a população que habitava Vale do Fim. O Êxodo rural tinha-se intensificado na última década, principalmente ali, em que as pessoas deixaram de se sentir seguras depois de tamanha barbaridade. Como tudo isto, Vale do Fim estava a um passo de se tornar uma aldeia fantasma.

Quando chegaram ao meio dos grandes pinheiros era altura de correr.

- Vamos ver quem lá chega primeiro hoje! – Disse Miguel preparando-se para começar a corrida.

Correram a uma velocidade alucinante, principalmente Miguel que se apresentava cada vez mais veloz e forte. Ninguém acreditaria que aquele rapaz conseguiria derrubar um dos grandes pinheiros apenas com um murro, isso era coisas de super-heróis, e eles só existiam na banda desenhada e na ficção. Pelo menos era o que os comuns mortais assim pensavam, Artur sabia que isso não era verdade, e ele e aquele rapaz assim o mostravam.

Pararam. Um dos treinos principais, quando começaram a lidar com os seus poderes foi o diminuir a velocidade. Não podiam constantemente bater em paredes ou em postes, além disso, com a força que possuíam eles não iam ficar em bom estado. Naquela altura eles já estavam mais que habituados a diminuir a velocidade e a parar no momento que queriam. E pararam ali, no mesmo sítio a que iam todas as manhã que vinham treinar. Ao local onde tudo tinha começado.

O autocarro da excursão ainda estava lá, no meio das ervas. Nunca tinha sido tirado dali, em espécie de homenagem a todos os que tinham morrido ali, naquele fatídico acidente. Eles iam até lá e ficavam a olhar para ele durante um tempo, muitos minutos até. Artur pensava quase sempre a mesma coisa. Como seria a sua vida se não tivesse entrado naquele autocarro. Perguntava-se se ela teria sido melhor. Ele achava que não. Embora tivesse passado por tanto, ele encontrara a pessoa que o fazia feliz. Se não fosse aquele autocarro ele não teria conhecido Alina e estaria só, só por isso, tudo aquilo tinha valido a pena. Se o acidente não tivesse ocorrido naquele momento tudo podia ser perfeito, mas Artur já estava velho para pensar que a vida alguma vez podia ser perfeita. Não há seres perfeitos, não há objectos perfeitos, não há vidas perfeitas. Tudo tem a sua dosagem de perfeição e defeitos, mal daquele que pensa que é perfeito ou que tem a vida perfeita.

Naquele dia voltaram cedo para casa. Alina tinha piorado naquela noite e Artur queria estar lá quando ela acordasse. Quando chegaram ela já estava em pé. Parecia com melhor cara do que na noite anterior ao jantar. Isso fê-lo ficar mais descansado. Era importante descobrir o que se passava com ela, havia doenças silenciosas que só se apresentavam quando às vezes era tarde demais.

Os pensamentos de Artur foram interrompidos pelo som da campainha a tocar.

- Artur podes ir lá abrir! Deve ser a Luna, eu vou preparar-me para ela! – Disse Miguel a subir rapidamente as escadas.

Artur foi até à porta e Alina o acompanhou. Quando abriram a porta, não era Luna mas sim um rapaz que deveria ter a idade dela e Miguel. Esse rapaz apresentava algumas feridas no braço e tinha sangue na testa.

- Artur?! Você é o Artur? – Perguntou o rapaz com a respiração ofegante.

Artur respondeu afirmativamente, perguntando-se a si mesmo como ele sabia o seu nome. Nunca o tinha visto, não parecia ser da aldeia e pelo estado em que vinha era obvio que se tinha metido em problemas.

- Posso entrar Artur? Eu não devo ficar muito tempo na rua, podem apanhar-me! Eles já devem andar atrás de mim. 

Artur, ao ver o rapaz naquele estado de aflição decidiu deixa-lo entrar e fechar a porta. Não pôde deixar de reparar na cicatriz que tinha no seu pescoço. Parecia ter sarado à pouco tempo. Alina e ele entreolharam-se.

- Parece que ele tinha razão, vocês iam estar juntos e na mesma casa onde você cresceu Artur.

Ele já não entendia quem raio era aquele rapaz da idade de Miguel que ali aparecera.

- Eu sou Adão, o vosso filho! Ajudaram-me a fugir, mas eles andam à minha procura, o meu chip foi danificado mas eles vão saber onde eu estou, eles sabem sempre.

- É impossível seres o nosso filho! – Disse Artur chocado com aquilo que ele estava a dizer. – O nosso filho morreu e ele tinha dez anos, era muito mais novo que tu!

- Podem ter a certeza que eu sou ele! Sou o Adão! – Disse novamente o rapaz subindo a escada e descendo em segundos, deixando Artur perplexo, mesmo que ele não fosse do seu sangue ele tinha poderes tal como ele… ele tinha sido submetido às mesmas experiências.

Artur não teve tempo de pensar, Alina caíra no chão inconsciente, deixando-o sem saber se tinha sido de emoção ou da doença que a atormentava. O rapaz misterioso foi ajudá-la como ele. Foi quando olhou para a expressão da sua cara que recordou que eram as mesmas expressões dele quando era novo. Seria possível estar perante o seu filho? 

Final da 1ª temporada

Vale do Fim
Por Ricardo Reis

Vale do Fim | Capítulo 20 (Parte 3) Reviewed by Fantastic on 19:30:00 Rating: 5

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