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Vale do Fim | Capítulo 20 (Parte 2)



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Capítulo 20 - E tudo não passou de um sonho (Parte 1)

A primeira noite de Joaquim na prisão não poderia ter corrido pior. Sempre que fechava os olhos tudo o que via era o seu neto e a sua filha. A sua filha a afastar o pequeno Miguel dos braços dele. Não conseguia pensar numa dor maior que essa. O seu coração parecia estar a ser perfurado por mais de mil agulhas ao mesmo tempo. Ele nunca quisera fazer mal ao seu neto, tudo o que ele queria era que o seu neto encabeçasse o futuro da humanidade. Tudo não tinha passado de um sonho. E esse sonho passara rapidamente a um pesadelo que o fazia querer manter-se acordado para que o seu subconsciente não o levasse a viver tudo aquilo novamente.

Pensou muito durante aquela noite. Pensou muito em como confiar em August o levou a onde ele estava agora. Desde criança que os seus pais o advertiam para não confiar em estranhos, mas ele parecia não crer nisso. O homem parecera-lhe tão bom. Era um pouco amargurado, isso ele conseguia ver através do seu rosto triste, mas não parecia querer fazer mal a ninguém. Talvez esse também fosse o mal de Joaquim, nunca conseguir ver o mal das pessoas, ver apenas o bem. E ser sonhador, esse talvez seja o seu maior defeito. Porque sonhar com um mundo melhor onde as pessoas possam ser quase perfeitas se vivemos num mundo em que as pessoas, com as suas acções conseguem fazer tudo para ele não o ser. O mundo perfeito era uma utopia. O mesmo que o híbrido. O August nunca iria conseguir criar nenhum ser como ele tinha falado nas suas reuniões. O seu entusiasmo enquanto falava deixava Joaquim também com o mesmo entusiasmo. E onde isso o levou? Estava ali, preso por supostamente ter conspirado com uma equipa de cientistas o mais trágico acidente que ocorrera na sua aldeia.

Quando o dia clareou, um polícia abriu a sua cela. Estava na hora de fazer o dejejum. Ele não tinha fome, mas talvez, ao comer, aquelas picadas no peito desaparecessem. Eram os nervos e a tristeza que faziam sentir-se assim, acabara sozinho, sem a filha e sem o neto, acabara ali na prisão, de onde muito provavelmente não mais iria sair. Era velho, e a sua pena não iria ser branda. Ele iria ser acusado de ter assassinado duas dezenas de pessoas, iria sem sombra de dúvidas apanhar a pena máxima. Já de August ele nada sabia, muito provavelmente tinha fugido dali mal soube que tinha sido descoberto, que a secretária em quem ele confiara desde o seu mandato, estava a fazer-lhe a folha. Nem duvidava que ela trabalhasse juntamente com August. Aquele homem parecia guardar muitos segredos, tramá-lo se calhar era mais um que guardava.

Enquanto comia a sua sandes com manteiga e fiambre olhou para a televisão. Ficou incrédulo quando viu que a sua aldeia estava a ser notícia numa grande cadeia televisiva. Isso nunca tinha acontecido, na sua aldeia nunca se tinha passado nada para que alguém se interessasse por ela, mas aquilo que acontecera na noite anterior, isso era motivo para ser notícia. Sete pessoas de nacionalidade estrangeira tinham morrido num barracão. Havia ainda uma outra de nacionalidade portuguesa. Joaquim ficou de queixo caído, o August e a sua equipa não fugiram, eles acabaram mortos também.

Afinal sempre houve alguém a tentar que os planos dessem errados para o nosso lado!, concluiu Joaquim ao ver nas imagens a destruição do barracão onde August fizera todos aqueles experimentos. Como não chegaram a revelar qual a pessoa de nacionalidade portuguesa fora encontrada dentro do barracão, Joaquim começou a pensar. Apenas duas pessoas estariam lá no barracão, o Artur ou a Eva. Duas pessoas por quem ele nutria uma grande admiração. Ficou abalado e horrorizado só de pensar que um deles acabou queimado vivo. Triste fim para pessoas tão boas como eles.

Joaquim ficou ainda mais boquiaberto quando viu que a notícia que se seguiu também estava relacionada com a sua aldeia. A sua aldeia parecia agora palco de acontecimentos condenáveis. Além dos oito mortos no barracão, Lourenço, o antigo presidente da câmara, e a sua mulher, foram encontrados mortos à porta de casa. Tudo indicava que tinha sido um homicídio seguido de suicídio.

Joaquim questionava-se se ainda iriam morrer mais pessoas. Naquele ano já tinham sido trinta, aquelas que tinham perdido a vida em Vale do Fim, o que causava um grande desgosto para ele. Uma aldeia em que todas as mortes eram de causa natural, passou a ser uma aldeia recheada de crimes bárbaros, premeditados e que instauravam o caos em toda a sua pequena dimensão. Temia pela sua filha, pelo seu neto, por todas as pessoas por quem tinha afecto. Com o fim dos ingleses na aldeia, tudo podia mudar, mas e se não mudasse? Foi com essa questão na sua cabeça que voltou à sua cela e se deitou a pensar. Será que a sua aldeia e o mundo iriam melhorar se os planos de August tivessem sido bem sucedidos? 

Vale do Fim
Por Ricardo Reis

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