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Vale do Fim | Capítulo 20 (Parte 1)



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Capítulo 20 - E tudo não passou de um sonho (Parte 1) 

Quando August e Viktor começaram a ouvir as vozes que se aproximavam do barracão, o líder do grupo PastFuture percebeu que algo estava errado. Percebeu o que a mensagem do seu irmão queria dizer. Guernica. Ele não queria destruir aquela aldeia, ele queria destruir o seu laboratório, queria acabar com o seu trabalho, a sua pesquisa, assim como tentou acabar com o Projecto MG.

Estava tão longe, a pensar em tudo aquilo, que só quando ouviu um grito de dor por parte de Viktor é que o viu. Ele estava a pôr a sua bengala no chão depois de ter dado com ela na nuca do seu melhor cientista.

- Finalmente, vários anos depois estamos novamente frente a frente! – Declarou George a olhá-lo com rancor. – Viste o presente que tu me deixaste ao pedires à Alina para me alvejar? Agora deu jeito, mas é desconfortável andar sempre com ela atrás. Vamos sair desta divisão, furiosos como aqueles homens estão eles vão queimar isto tudo em menos de nada e eu quero falar contigo antes de tu…ou eu morrermos. Isso é uma certeza, um de nós não vai sair daqui vivo esta noite.

August seguiu George, iam para o mais perto possível da porta, talvez para um deles conseguir escapar. Mesmo no corredor principal, August conseguia ouvir os homens cada vez mais próximos.

- Devem estar a poucos metros daqui! – Revelou George ao ouvir as vozes da multidão cada vez mais altas. – Estão quase aqui aqueles idiotas que vos chamam ingleses… sem saber que tu pertences tanto a esta terra como eles! Pensavas que eu não sabia que virias para aqui tentar o Projecto MG? Eu conheço-te August, sabia que virias para a terra onde nasceste, para perto da terra da nossa mãe. E por isso, até bem antes de nos separarmos, eu viajei para cá!

- Era para aqui que vinhas nas tuas misteriosas viagens? Podes-me chamar estúpido, eu sempre confiei em ti e foi um grande murro no estômago quando, naquela noite em dois mil e onze percebi que pertencias ao GDC! Mas assim essas viagens já faziam mais sentido, tu tinhas de andar pelo mundo com os seus criadores.

- Tens razão no que dizes, és estúpido meu irmão! Como é que ainda pensas que eu sou um mero membro do GDC! Eu sou o seu fundador! Nunca te questionaste porque razão a sigla é um misto de português e inglês? GDC – God, Deus, Ciência? O God, Deus em Inglês é uma homenagem ao nosso falecido pai, inglês de gema que um dia acabou por se perder de amores por uma mulher portuguesa de uma aldeia

dos confins do mundo, daí a segunda palavra ser portuguesa, em homenagem à nossa mãe e à aldeia que nos viu nascer. Ciência ou Cience, as palavras são praticamente iguais nos dois idiomas. Alem disso a Ciência vai ser a religião do amanhã. Tu inconsequentemente criaste um projecto que criou uma nova raça humana, um projecto que te pode tornar um Deus.

- Tu sabes porque eu queria criar um híbrido, eu só quero as suas propriedades! – Vociferou August.

- Porque és tolo! Porque toda a tua vida não passou de um sonho. Um sonho de salvar a humanidade que anda por aí a destruir tudo o que lhe aparece à frente. Eu sei, o sangue de um híbrido é capaz de curar qualquer doença. Ele consegue regenerar as células, consegue melhorar e aumentar a esperança de vida… mas não vai trazer a mãe nem a tua namoradinha de volta. E os outros, que tu queres salvar, saberias lá o que eles faziam se não estivessem doentes. Imagina que se tornariam vândalos, ladrões, assassinos. Não, o híbrido tem uma potencialidade maior, a sua obediência, o seu controlo de mente permite-me que ele faça tudo o que quero, e tu sabes bem o que eu quero não sabes?

- Nunca irás ser um líder mundial com o Adão. Um híbrido nunca te ajudará a conquistares o mundo. A ser o seu dono.

- Eu sei, e por isso, enquanto nós estamos aqui a ter esta conversa, o meu querido filho Santiago já está rumo à Área X onde o esperam para… - George avançou até August. Começava a cheirar a queimado e já havia fumo pelo laboratório. Antes de George chegar junto dele, August conseguiu ver Eva a correr pelo barracão a dentro e ouviu os gritos de Artur, embora não o tivesse visto.

George continuou a aproximar-se dele e falou-lhe ao ouvido. Quando ele ouviu aquilo que o irmão lhe tinha dito ele só pedia para que fosse mentira. Adão não poderia ser a alavanca para tal plano.

- Fiz uma jogada de mestre não foi! – Consegui infiltrar no teu grupo uma pessoa que nunca me trairia, por ser sangue do meu sangue! Também é do teu, mas em que pessoa ele devia confiar mais, no seu tio lunático que criou um problema chamado Miguel e Artur ou no seu pai líder do futuro.

- Porque dizes que o Miguel e o Artur são um problema! Pouco sabemos do semi-hibridos. Eu ainda agora os comecei a estudar!

- Meu caro irmão, mas tu achas mesmo que foste o único a testar o Projecto MG. Antes de ti eu também o testei. Em crianças, em jovens adultos, em velhos. Sempre soube, desde que a criança ressuscitou a sua razão. Tive um rapaz semelhante a ele no meu laboratório. Sabes o que lhe fiz? Cortei-lhe a cabeça.

August ficou horrorizado ao ouvir aquilo. Como um homem podia matar uma criança indefesa. Ele lembrou-se do pequeno Miguel, ele era tão calmo e pacato. Às vezes não conseguia medir a sua força, mas isso era normal, era criança, com poderes que ninguém sabia lidar, nem mesmo Artur que era um homem mais velho. Nunca lhe tinha passado pela cabeça matar uma criança, nunca mataria o Miguel como o seu irmão diz que fez a uma outra criança semelhante.

- Pelo teu olhar horrorizado consigo ver que não serias capaz de o fazer. Se te salvares daqui vais ver como eu tive razão em fazer aquilo que fiz. Ele é um miúdo não tem os valores incutidos, e, pior que tudo isso, não pode ser controlado porque não foi gerado com o ADN de controlo da mente que, até aqui, apenas existia no sangue da Alina. Agora também está presente no sangue do Adão. Nome curioso, sempre um bom católico como a nossa mãe! O Miguel pode vir a ser a maior dor de cabeça daqueles que o rodeiam, pode tornar-se um perigo para toda a gente e, imagina, foste tu que o criaste com a sede de quereres salvar o mundo. – Prosseguiu George com o fumo cada vez mais intenso. August e ele não iriam aguentar muito mais tempo ali.

- Não fui eu quem o criei, mas sim tu! - Contrapôs. – Se não tivesses criado o acidente o menino seria mais um em trinta. Eu poderia escolher um marido para a Alina e a população não iria ficar a saber do Projecto porque mesmo antes de chegarem ao destino, quando recuperassem os sentidos, o motorista ia pô-los ao corrente da situação. Assim nada aconteceu, criaste algo, um trunfo para que o pudesses usar no momento certo. E esse momento foi agora, no momento em que o híbrido nasceu.

O tecto começou a desabar o que fez a conversa parar por ali. Não havia mais tempo para conversar ou tentar culpá-lo por algo que tiveram os dois culpa. Como pôde August ser tão ingénuo ao ponto de pensar que George não iria saber o local para onde ele se dirigia. Ele era membro do GDC, aliás, como tinha sabido naquele momento, foi ele o seu fundador. Ainda estava a pensar como tinha sido tão estúpido por nunca ter percebido isso. Tinha sido criado na sua faculdade, na mesma altura em que George começou a ficar mais estranho, mais distante e na altura em que o irmão mais velho também se colocara numa vida complicada. O ponto de rotura tinha começado ali. George tinha razão a sua vida nunca tinha passado de um sonho, mas ele ainda estava na altura de mudar tudo aquilo. George tinha razão, só um deles podia sair dali vivo, e se não se despachassem podiam morrer ali os dois. August só via uma maneira de mudar o mundo, ser ele a sair vivo do barracão, então começou a lutar com o irmão para lhe tirar a bengala. Era uma bengala peculiar e só assim podiam acreditar que era ele. Os dois começaram a lutar enquanto todo o barracão começava a desabar.

Vale do Fim
Por Ricardo Reis

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