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Vale do Fim | Capítulo 19 (Parte 3)



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Capítulo 19 - És Tu! (Parte 3)
 
Eva completara mais um treino. Estava cansada ainda da competição do dia anterior, mas isso não a fazia parar. O objectivo dela era estar pronta para a próxima prova que se iria realizar dali a alguns meses. Era necessário muito treino e dedicação para ser a melhor e ela assim o fazia. Era uma mulher lutadora e a palavra desistir não existia no seu dicionário, mas naquele fim de tarde só queria descansar. Só queria ir jantar com Viktor e sentar-se no sofá, aconchegada nos seus músculos a verem um filme romântico. Ele preferia ficção-cientifica, mas da última vez tinha sido ele a escolher e a escolha daquela vez iria recair a ela.

O que ela não estava a gostar era de Viktor não lhe estar a atender o telemóvel. Ele só lhe fazia isso quando havia algo importante que estivesse a fazer ou então quando algo tinha corrido mal. Persistira durante toda a tarde, mas ele nunca atendera nem respondera às inúmeras mensagens. Isso estava a deixá-la em cuidados, mas não nervosa.

Nervosa ficou quando, a caminho do seu carro, viu uma grande multidão junto ao café onde muitas vezes se deslocava com o seu namorado. Aproximou-se para ver o que se passava. Não era habitual haver um aglomerado tão grande de gente àquela hora ali perto do café, tinha de se ter passado alguma coisa. Alguma coisa grave.

- Aquele Joaquim foi o culpado pelo que aconteceu no autocarro. Não se ouve outra coisa nas rádios locais. Ele e os ingleses! – Dizia o dono do café, que era o único que falava, enquanto os restantes o ouviam e levantavam as tochas que traziam em sinal de concordância com as suas palavras.

Eva aproximou-se para ouvir melhor o que eles estavam a dizer. Foi aí que viu Joel, a observar os homens que estavam ali a parlamentar. Trazia uns óculos escuros e estava um pouco afastado. Ela tentou ir ter com ele para o fazer parar aquilo, afinal ele era um dos principais investigadores da polícia do concelho, ele tinha de parar aquilo, tinha de acabar com aquilo que parecia uma manifestação. Quando ela ia na sua direcção viu-o a entrar dentro do seu carro e ir-se embora. Isso deixou-a impotente, ela sozinha não iria certamente parar aquilo que parecia estar ali a acontecer.

- Vamos queimar aquilo tudo, aquele barracão não passa de hoje! – Disse o dono do café, incentivando a população a uma violência extrema.

Os homens que ali se encontravam eram sobretudo habitantes da aldeia de Vale do Fim. Reparou que um deles era o seu vizinho, o senhor Armindo. À sua mente voltou a conversa que tivera quando o acidente ocorrera, que os ingleses eram os culpados de tudo aquilo que estava a acontecer. Bastou uma pequena fagulha para incendiar a mente de todos eles e causar aquele aparato. Não havia nada que ela conseguisse fazer ali para os deter, não sozinha.

Quando os viu a começar a deslocarem-se foi para o seu carro. Antes de o ligar, voltou a pegar no seu telemóvel e a marcar o número de Viktor. Ela tinha de o avisar. Eles tinham tochas e ainda era final de tarde. Não iriam precisar delas até ser noite e, a pé, ele não iriam demorar muito mais que meia hora, chegando lá quando o sol tinha acabado de desaparecer. Certamente que, para além de ajudá-los na sua pequena caminhada nocturna em direcção ao laboratório. Ele tornou a não atender, deixando-a cada vez mais desesperada.

Meteu o pé no acelerador, mas ele tremia, tremia tanto que levantava o pé da embraiagem cedo demais o que fazia o motor do seu carro ir abaixo. Deu por si aos murros no volante e a dizer um monte de palavrões. Ela que não era mulher de os dizer naquele momento soltou mais de uma dúzia deles. Estava completamente aterrada com o que poderia acontecer. Não o queria perder, não queria ficar sem o homem que mais amou na vida. Lembrou-se de Artur e Alina. As duas histórias de amor eram tão semelhantes que elas comentavam que era por isso que os quatro se davam tão bem.

Voltou a tentar arrancar com o carro. Daquela vez, embora ele tenha dado alguns solavancos, ela conseguiu que ele não fosse abaixo. Era altura de seguir caminho. Eles já tinham algum avanço, mas ela conseguiria chegar rapidamente até eles porque se deslocava de automóvel. Isso foi o que ela pensou, mas não era o que ia acontecer. Eles eram tantos que ocupavam a estrada por completo, não havendo espaço para ela e os outros condutores passarem, fazendo uma grande fila de carros. Eva nunca tinha pensado ver um congestionamento de trânsito na aldeia, isso só acontecia nas grandes metrópoles. A marcha lenta era acompanhada por um barulho insuportável de buzinas que parecia não ter fim. Os manifestantes, esses pareciam não se importar e continuavam a sua marcha.

Eva não tinha tempo a perder, tinha de chegar ao seu amor antes que o perdesse, antes que o fogo o levasse. Virou o volante bruscamente e saiu da estrada. Parou o carro e começou a correr. Nessa altura o sol já se tinha posto e ela corria ali, no meio da escuridão, tendo apenas como luz a iluminação das tochas que via um pouco mais à frente.

Correu, correu e continuou a correr. Pela primeira vez deu por si a pedir para ter as suas mutações genéticas novamente. Com elas ela iria chegar ao barracão num ápice. Além disso, sentia-se cansada, estava cansada tanto do dia de ontem como por algo que não conseguia explicar. Talvez fossem os efeitos secundários da vacina. Por vezes sentia náuseas e sentia-se a perder as forças, mas daquela vez não desistiu, o seu amor por Viktor era mais forte que todo o resto.

Começou a ver que estava cada vez mais próxima das chamas das tochas. Eles pareciam ter parado. Correu ainda mais rápido, mesmo já não tendo forças para prosseguir. Todos estavam parados no cruzamento que ficava a pouco mais de um quilómetro do barracão. Reparou que eles estavam a falar com alguém. Quando se apercebeu que era com Artur, começou a gritar.

No momento em que viu o porta-voz do grupo a cuspir na cara do seu amigo a raiva parecia ter tomado conta de si. Quando eles seguiram caminho Artur pegou-a ao colo e correu à velocidade da luz. Pela primeira vez os poderes que eles tinham ganho na queda do autocarro estavam a valer-lhes alguma coisa. Eva não pôde foi deixar de reparar que ele ficara bastante cansado depois de correr toda aquela distância. A respiração ofegante confirmava isso. Talvez fosse por não estar habituado ou por ainda se estar a ambientar a todas aquelas mudanças. Nove meses poderiam parecer muito tempo mas talvez fosse pouco para que o corpo mudasse a sua fisionomia de um momento para o outro.

Quando viu um dos homens a regar a parede com gasolina ficou sem saber o que fazer, e se o seu namorado ainda estivesse lá? Ela não o podia deixar ali. Num acto de loucura entrou pelo barracão e começou a gritar pelo seu nome. Ficou completamente admirada quando viu dois homens exactamente iguais. Um era August, o outro era igual a ele mas tinha uma bengala na mão. O fumo que começava a existir por ali fê-la tapar o seu nariz com o braço. Ouviu Artur gritar, ele devia ter entrado, mas ouvia apenas a sua voz, nunca o chegara a ver. Continuou a correr pelo extenso corredor olhando para todos as divisões a ver se o via. Foi quando o viu caído no gabinete que pertenceu a August. Pertenceu, porque não ia restar nada dali a uns minutos.

Ela correu até ele. Viu sangue na sua nuca, mas ele estava acordado. Ela baixou-se e sentou-se ao pé dele.

- O George… ele fez-me isto, deu-me com alguma coisa na cabeça para falar a sós com o August. Todos os outros cientistas estão caídos. Eu não me consigo levantar daqui Eva. Tens de sair daqui, o fogo vai rebentar com isto tudo.

Eva soltou um sorriso nervoso.

- Porque te estás a rir! Eu estou fraco, não consigo sair daqui, mas tu consegues. Sai daqui, salva-te Eva.

- Irónico como estive dez meses a suplicar a Deus que me tirassem as modificações que fizeram com o meu corpo e agora, no dia seguinte a isso acontecer, eu suplico para que não o tivessem tirado… para te puder tirar daqui, para viveremos o nosso conto de fadas. Se eu me fosse embora e te deixasse aqui não ia viver esse conto, iria viver uma vida em que todos os segundos iria lembrar que deixei a única pessoa que realmente importou na minha vida morrer enquanto eu tentava sair daqui.

Eva começou a pegá-lo mas ele era realmente pesado. Ela tentava pôr-se em pé com ele agarrado ao seu obro mas isso era uma tarefa para ela impossível. Ele estava praticamente inconsciente e mal mexia os pés. Era impossível ela o tirar dali.

- Vai Eva! Eu suplico-te! – Disse com a sua voz cada vez mais fraca. – Deixa-me morrer com a alegria que tu terás filhos, terás netos, terás um marido com quem dividirás uma cama, um sofá, uma casa. Deixa-me ter a alegria de saber que foste feliz durante muitos anos!

- És tu! Esse marido com quem eu iria dividir a cama, o sofá, a casa! És tu! Não vejo mais ninguém para ocupar esse lugar! És tu!

O tecto que estava perto deles começou a desabar. Eva não se importou com isso e deu-lhe um beijo!

- És tu, só tu! Aquele que me faz pensar na vida perfeita. Se é para não existires na minha vida, prefiro também eu não existir!

Foi quando o beijou novamente que o tecto desabou por completo.
Vale do Fim
Por Ricardo Reis

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