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Vale do Fim | Capítulo 19 (Parte 2)



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Capítulo 19 - És Tu! (Parte 2)
 
 Artur estava deitado ao lado de Alina. Finalmente ela adormecera. Finalmente estava a descansar depois de uma tarde inteira a chorar, perguntando o quanto mal ela tinha feito na sua vida para merecer tamanho mal. Há um dia atrás estava grávida de gémeos, dois seres fortes como via nas ecografias. Naquele momento estavam os dois mortos e ela ali, sentindo uma dor insuportável. Artur sentia-se impotente, queria fazer algo para pelo menos a alegrar, mas era impossível. Ele também estava triste, devastado com o que acontecera. Ele vira o menino, ele parecia perfeitamente saudável, não entendia como ele podia estar morto.

Limpou-lhe uma lágrima que ainda caía no seu rosto e saiu do quarto para a deixar descansar. Foi até à sala, sentou-se no seu sofá e ligou a televisão. Fez zapping nos inúmeros canais que tinha mas nenhum programa pareceu-lhe realmente interessar. Ele não estava com grande disposição para estar ali a ver nada, devia descansar também, mas não conseguia dormir. Apenas pensava no quanto a vida estava a ser injusta com todos eles. Não era a pessoa mais católica do mundo, mas dava por si a pensar se alguma entidade divina estava tão aborrecida com eles que se tinha esquecido deles deixando uma entidade maligna se apoderar da aldeia. Ele não acreditava no bem e no mal, ele achava que ninguém era bom nem mau, eram diferentes, lutavam pelos seus interesses e o que era visto com bons olhos para uma pessoa podia não o ser para outra. À sua cabeça veio logo o caso de August e George. August modificou-os geneticamente, achando que era um bem maior para a sociedade, embora nenhum dos envolvidos tenha achado um bom acto, muito pelo contrário, mas George fez um acto ainda mais condenável e desprezível, que a seu ver era o melhor a fazer, matar todos os passageiros que iam no autocarro.

Sentiu o seu telemóvel vibrar. Olhou para o ecrã do seu smarthphone e viu que era Eva. Pensou em não atender. Sabia que devia ser para dar os pêsames pelo que acontecera aos seus filhos. Isso era a última coisa que queria ouvir, mas sabia que ela apenas o queria apoiar, dar-lhe força para continuar a viver, ultrapassar aquele momento em que a dor no seu coração era tão forte que ele não sabia se a conseguiria suportar.

- Artur, Artur… ainda bem que atendeste! – Eva parecia-lhe agitada. – As pessoas estão a juntar-se junto ao café aqui no concelho. Eles trazem tochas e estão prestes a ir para Vale do Fim, para o barracão do August. Tens de os deter por favor. O Viktor está lá dentro e não me atende o telemóvel. Eu vou para lá para o laboratório, mas eles vão pegar fogo àquilo e eu não os vou conseguir parar, mas tu, como policia podes conseguir. Ajuda-me por favor.

Artur não estava à espera daquilo, pensando no que é que os populares tinham descoberto para fazerem uma acção daquelas. Foi quando ia no seu carro que ouviu a notícia através de uma rádio local. Joaquim, o presidente do concelho a que Vale do Fim pertencia, tinha sido preso naquela tarde devido à denúncia, por parte da sua secretária, de que ele e um cientista inglês que se tinha alojado na aldeia estavam por trás do acidente ocorrido há dez meses atrás. 

 Ao ouvir aquilo começou a acelerar. Tinha de chegar o mais depressa possível. Acelerou e acelerou, até que teve de travar bruscamente devido a um grupo de homens que se encontravam na estrada. Os homens que Eva deveria ter visto a saírem do café. Acendeu os máximos do seu veículo com o intuito de os afastar. Sabia

que não podia usar aquelas luzes, era contra a lei, por encadear as pessoas, mas ele precisava de passar.

Os homens não se afastaram. Olharam para ele e começaram a chamar pelo seu nome. Artur saiu do carro.

- Vocês não podem fazer isso! Não podem matar ninguém! O que vão fazer não é justiça. Vão criar uma tragédia tão grande como a do autocarro.

- Eles vão pagar! – Disse um dos habitantes da aldeia. – Tu foste um dos prejudicados pelo acidente e tiveste sorte, mas muitos dos que lá iam não tiveram, morreram às mãos daqueles filhos da mãe!

- Ninguém que está naquele barracão outrora abandonado foi culpado pelo que aconteceu naquele acidente! – Declarou Artur remando contra a maré. Era um ali bábá no meio de quarenta aldeões. Eles tinham poder para o suprimir. Sozinho não iria conseguir fazer nada.

Ouviu uns gritos femininos, fazendo-o olhar para o lado, deixando a multidão, que também se tinha silenciado, para segundo plano. Era Eva. Surgira de repente e vinha a pé. Talvez estivesse a ter o mesmo problema que ele, a multidão não deixava o seu carro avançar.

- Oiçam o Artur! Deixem aquela equipa em paz! Eles estão aqui para nos ajudar e não para fazer nos fazer mal. Não foram eles que causaram aquele acidente.

Um dos habitantes, aquele que parecia ser o porta-voz dos restantes que o seguiam, deu uma risada.

- E porque devia acreditar em ti, sua cabra reles! Andas a ser comida por um deles. Até acreditava que tivesses ajudado a trazê-los para cá já que estás tanto tempo no estrangeiro.

Artur viu desgosto e desespero no olhar da rapariga. Aquelas palavras causavam-lhe repugnância. Como o seu povo podia tratar assim alguém que ali sempre vivera.

- Chega! Parem de uma vez por todas com isto. Vão para as vossas casas, deixem a polícia resolver tudo isto. É isso que é o correcto! – Vociferou Artur para que fosse ouvido por todas aquelas pessoas que se encontravam ali a cortar a estrada!

O porta-voz da comunidade aproximou-se dele. Ele conhecia-o, era o dono do café onde ele costumava ir quando ia ao centro do concelho. Olhou-o nos olhos com raiva. Acabou a cuspir-lhe na cara. Artur limpou-se, com nojo do que tinha acabado de acontecer ali.

- Vamos embora, perdemos tempo demais aqui! Daqui a pouco todos eles estão a sair daquele laboratório e não matamos aqueles montes de merda! – Gritou o homem para o seu grupo e todos voltaram a caminhar, deixando lá Artur e Eva.

- O que vamos fazer? – Perguntou Eva vendo os homens destemidos a seguir até ao laboratório. – Eles devem lá estar, temos de lhes dizer o que está a acontecer, mandá-los embora antes que seja tarde.

- Temos de seguir a pé. Tentar um corta-mato, tentar chegar ao laboratório antes deles lá chegarem.

Foi isso que fizeram. Ele pegou em Eva e começaram a correr pelo meio das árvores tentando chegar primeiro que o grupo de homens com tochas. Ele tinha um poder que os restantes não tinham, era semi-híbrido, podia deslocar-se à velocidade da luz e tinha força para suportar o peso de Eva como se de uma criança se tratasse. Lembrou-se novamente do homem que lhe cuspiu, de como o podia ter esmurrado ali à frente de todos, deixa-lo completamente inconsciente, mas não queria dar nas vistas, não podia dar nas vistas.

Sem qualquer tipo de luz na escuridão da noite, Artur estava meio perdido, tudo lhe parecia igual. Lembrou-se do dia em que trabalhara pela primeira vez com Joel. Perguntou a si mesmo onde ele estaria naquela altura para não estar ali a ajuda-los a parar com aquilo, a salvar a vida de um grupo de inocentes.

Conseguiram chegar um pouco antes dos homens que traziam as tochas, mas eles estavam perto. Ouviam-se as suas vozes e já se viam os clarões emitidos pelas tochas. Gritaram para lá para dentro para que eles saíssem, mas ninguém respondeu. As luzes acesas faziam crer que estava alguém lá dentro mas ninguém dizia nada para eles.

Não demorou tempo nenhum para que o grupo ali chegasse.

- Não há tempo para entrar dentro do laboratório Eva. É arriscado e ninguém nos respondeu, vamos sair daqui.

- Tu não consegues entrar no edifício e ver se eles lá estão? – Perguntou Eva, que tinha esperança que ele não se cansasse com o Projecto MG incorporado.

- Não funciona assim! O meu corpo ainda não está a cem por cento, ainda não foi alterado por completo. Eu ainda me sinto cansado, daqui a dez minutos ou mais talvez volte a conseguir, mas aí eles já estarão aqui a completar o que aqui vieram fazer.

Eva pegou no seu telemóvel e marcou novamente o número de Viktor. Aproximou-se da porta principal do laboratório para ver se conseguia ouvi-lo tocar. O laboratório dele ficava muito perto da porta por isso se tocasse era bastante perceptível. Ele estava a tocar.

- Ele pode ter-se esquecido do telemóvel e a esta altura estar seguro em algum lugar Eva. – Disse novamente Artur enquanto via os homens cada vez mais perto, com as tochas. – Eu vou ligar para o August, pode ser que ele me atenda e diga aquilo que queremos ouvir.

August não atendeu. Quando Artur viu um dos homem, que trazia consigo um garrafão com um líquido que parecia gasolina, se aproximar de uma das paredes do grande barracão ele pegou em Eva para se afastarem.

- Larga-me Artur! O Viktor deve estar lá dentro, eu quero tirá-lo de lá! Deslarga-me por favor. – Gritava Eva, mas ele não o podia fazer.

- É tarde Eva, mesmo que ele esteja lá dentro não há nada que possas fazer! É tarde demais.

- Não, nunca é tarde para salvar quem mais amamos! – Disse, dando-lhe uma cotovelada no queixo, fazendo com que ele a largasse.

- Eva! Eva não! – Gritou Artur, mas era tarde Eva abrira a porta do barracão e entrara.

Continuou a gritar por ela, mas percebeu que era inevitável o seu destino, principalmente quando viu o homem que cuspira na sua cara aproximar a sua tocha na parede que anteriormente fora regada com gasolina. Os outros seguiram-lhe o exemplo e as chamas alastraram. Ele correu há velocidade da luz para dentro do laboratório para tentar vê-la, pela primeira vez os seus poderes estavam a valer-lhe de alguma coisa.
Vale do Fim
Por Ricardo Reis

Vale do Fim | Capítulo 19 (Parte 2) Reviewed by Fantastic on 19:30:00 Rating: 5

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