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Vale do Fim | Capítulo 19 (Parte 1)



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Capítulo 19 - És Tu! (Parte 1)
 
 As malas de Joana estavam preparadas. Estava quase na altura dela, Raul e Miguel se ausentarem de Vale do Fim. Iria fazer bem aos três, depois de tudo o que tinham passado nos últimos meses. A viagem tinha sido pensada também pela repercussão que a sua relação com o antigo padre da aldeia estava a ter. A relação não era vista com bons olhos. A população, sobretudo as pessoas mais velhas, achavam um sacrilégio, aquilo que acontecera. As pessoas não entendiam o que tinha acontecido com Raul. No fundo não faziam ideia que ele tinha sido alvo de uma experiencia no momento em que entrara do autocarro. Se soubesse desse pequeno, grande pormenor, talvez compreendessem o que ele estava a sentir e a razão que o levou a desistir de ser padre.

Joana podia bem com os mexericos feitos pelas falsas beatas que apenas eram puras no momento em que tomavam a hóstia. O mesmo já não se podia dizer do seu negócio. O seu pequeno café em Vale do Fim passou de poucos a nenhuns clientes. Sem lucro não havia forma de manter as portas abertas. Era altura de mudar de vida, mudar de rumo. Gostava da que tinha mas naquele momento era insustentável. Tinha de arranjar um novo emprego, um emprego que garantisse a sustentabilidade dela e do seu filho. Raul também estava a tentar arranjar alguma coisa, se bem que ele pensasse em algo diferente. Raul pretendia ir para o continente africano, fazer voluntariado, ajudar as pessoas que não têm comer, água canalizada, que nunca tiveram oportunidade de frequentar uma escola. Era isso que o fazia feliz. Pedira a Joana para que fosse com ele, mas ela não queria isso, não queria afastar-se do seu filho.

Foi enquanto preparava as malas de viagem, que Raul entrara pelo quarto e lhe dera a notícia. O seu pai tinha sido preso. Ela já não falava com ele desde que descobrira, através de George, que ele era um dos principais arquitectos do Projecto que fez o seu filho o que era. Não o tinha perdoado, mesmo quando Artur lhe disse que ele não era o verdadeiro culpado pelo acidente, que isso tinha sido outra pessoa, mas ela era teimosa e por mais que tentasse não conseguia novamente olhar olhos nos olhos do homem que fez aquilo ao filho e ao padrinho dele. 

- Devias ir vê-lo, ele ainda está ali na esquadra do concelho, mas vai ser preso e como sabes só há prisão na capital de distrito, a quase cem quilómetros daqui. Tens de ir vê-lo, Joana. – Disse Raul sentando-se ao seu lado. Abraçou-a, e ela colocou a sua cabeça no seu ombro. – Eu vou contigo, vais sentir mais confiança se eu for contigo. Eu sei como és, não ias conseguir parar de pensar nisto a viagem toda. E a última coisa que queremos é que alguma coisa estrague a nossa viagem como uma família. 

- Tens razão, eu nunca iria parar de pensar em tudo isto. – Calou-se por instantes, até que depois voltou a falar. - É irónico não é?! Ele disse-me que queria o melhor para o neto e achou que o melhor era transforma-lo em algo que a nossa sociedade designa de aberração. Vivemos numa sociedade que recrimina tudo o que é diferente e mesmo assim ele pensou que estava a fazer o melhor ao seu neto. – Joana nunca falara muito daquela situação com ninguém, mas ali, sentindo toda a tristeza a sufocar o seu coração, tinha de deitar para fora aquilo. 

 - Pensa que o teu filho só está aqui porque o teu pai e o cientista que mandou juntamente com ele deitar o soro no autocarro fizeram aquilo! – Disse Raul, na esperança de que a mulher perdoasse o seu pai.

- Sim, mas tens de pensar também uma coisa, se eles não deitassem o soro no autocarro, o meu filho não tinha morrido, não tinha ficado algo que agora é impossível reverter. – Repostou Joana rapidamente.

- Pois, nunca saberemos isso. Mesmo que o August não ordenasse o soro naquele autocarro provavelmente o George iria fazer com que o acidente ocorresse. Ele não iria ter como saber se aquele autocarro iria ser mesmo o autocarro onde August iria testar o soro, a menos que alguém o estivesse a ajudar. Por isso o teu filho poderia estar condenado à morte se não fosse o Projecto, já pensaste nisso?

Joana nunca tinha visto as coisas daquela forma, estava tão ocupada a odiar o pai e o inglês que os usara como cobaias que nunca pensara que se ocorresse o acidente e o soro não tivesse sido lançado o seu filho estaria morto, enterrado, sem puder viver uma vida. Assim era diferente, ele poderia viver. Não uma vida normal, mas podia viver. Podia acostumar-se às suas condições e isso fê-la pensar em ir ver o pai, despedir-se dele, ter um último momento com ele antes de ir preso. Se merecia a prisão, ele merecia. Mas merecia também algum apoio naquele tempo em que vivia o pior momento da sua vida.

Raul conduziu até ao posto da polícia. Joana conseguiu ainda ver Lourenço, mas ele parecia apressado para ir para algum lado, por isso não lhe conseguiu falar. Devia ir ver o que se passava num dos principais cafés do centro do concelho, já que havia muitos habitantes em protesto naquele local.

Joana entrou na esquadra e perguntou pelo seu pai. Uma das secretárias disse-lhe que ele ainda se encontrava no gabinete de Joel para depois, ainda naquele dia, ser transportado para a prisão na sede do distrito. Ela perguntou onde era o gabinete e a rapariga deu-lhe as indicações. Um polícia acabou por acompanhá-la até lá.

Quando entrou no gabinete o seu pai estava em estado de choque. Não sabia se estava assim por estar preso ou se havia algo. Quando ele a viu começou a falar tão rapidamente que ela não percebia nada do que ele estava a dizer. Pediu-lhe para que falasse mais calmamente, para que fosse perceptível.

- O Miguel, diz-me que ele está em casa! Por favor! – Disse o homem, mostrando aflição no seu olhar.

- Sim, ele ficou em casa a jogar consola! Não queria que ele visse ao ponto a que o avô chegou. – Disse sem qualquer tipo de simpatia na voz.

- Telefona-lhe. Diz-lhe para que não abra a porta a ninguém. Que se achar insistente que ligue para o Artur ou para alguém. Ele pode correr perigo Joana.

Joana não estava a entender o que se estava a passar. Ele estava bastante agitado. Estaria ele e August a planear alguma coisa com a população e ele tenha sido apanhado pela polícia enquanto o outro estivesse a concluir o seu plano? Isso explicaria a agitação que se vivia naquele café em que ela e Raul tinham passado.

- Aquele inglês quer raptar o meu filho?! É isso que me queres dizer? Quer levá-lo de mim para conseguir estudá-lo?

- Não Joana, o August… ele vai morrer! Ele e toda a equipa que está naquele laboratório. Todos nós fomos apanhados numa cilada. Tudo isto foi obra do irmão dele, ele está a conseguir influenciar a população do concelho, principalmente a de Vale do Fim para arder com o barracão, Joana. Toda a gente que tiver lá dentro irá morrer. E quanto ao Miguel, eu tenho medo que ele o queira levar! Ele é especial, não sei dos planos do George mas ele pode querer levá-lo com ele. Por favor vai para casa e não saias de lá, protege o meu neto filha! Protege-o.

Joana ficou emocionada com aquele momento, o momento em que o seu pai agarrou nas suas mãos e lhe implorou que ela salvasse o seu neto. Tudo parecia confuso na sua cabeça. Ela já não conseguia entender quem eram as pessoas que lhe queriam bem, nem as pessoas que lhe queriam mal. Era ténue essa linha, e naquele momento parecia-lhe ainda mais ténue. Mesmo assim seguiu o concelho do seu pai.

- Adeus, meu pai! Juro que não entendo porque conseguiste compactuar com uma coisa destas, juro que não consigo compreender! Mas achaste que era o melhor para o teu neto, achaste que ele deveria marcar o futuro. Não consigo odiar-te, não sei porquê, mas não consigo. Posso estar muito magoada contigo mas não dá para te odiar porque sempre que eu tento eu lembro-me do passado e de todos os momentos em que estiveste presente. Sofro com isso, não sabes como eu sofro.

Joana levantou-se e foi até ele, dando-lhe um caloroso abraço. Aquele podia ser o seu último, não sabia quanto tempo iria estar sem o ver. Foi um abraço que durou mais de um minuto mas para ela e para ele pareceram apenas fracções de segundos. Sentia saudades daquele momento de carinho com o seu progenitor.

- Agora vai Joana, não deixes que te levem o teu filho, não deixes que nos levem o nosso menino!

Joana olhou uma última vez para ele. Com as lágrimas ainda nos olhos, acenou com a cabeça em tom de afirmação e saiu do gabinete de Joel. Tinha apenas um objectivo, ficar com o seu filho caso alguém aparecesse em sua casa naquela noite. Quanto à equipa de cientistas no barracão Joana tinha esperança que ninguém morresse. Conhecia a força policial que ali actuava. Tinha o máximo de confiança em Artur e nos outros, mas sobretudo em Artur. Sabia que ele não deixaria nada acontecer.  

Vale do Fim
Por Ricardo Reis

Vale do Fim | Capítulo 19 (Parte 1) Reviewed by Fantastic on 19:30:00 Rating: 5

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