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Vale do Fim | Capítulo 18 (Parte 3)



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Capítulo 18 - Guernica (Parte 3)
 
Edgar estava nervoso. O seu pai tinha ido para o centro do concelho a que pertencia a aldeia de Vale do Fim após saber que Joaquim tinha sido, em conjunto com os ingleses, o culpado do que acontecera com o autocarro da excursão. Ele preferira ficar em casa. Sentia-se estranho depois de ter sido vacinado com a cura. Viktor dissera-lhes que poderia ser normal eles sentirem náuseas, tonturas, vómitos, ou até mesmo terem febre. Edgar apresentava praticamente todos esses sintomas, tirando a febre ele sentia-se bastante mal.

Sentia-se mal não só fisicamente mas também psicologicamente. O senhor Joaquim sempre fora um homem em que todos os habitantes da aldeia depositavam a sua confiança, era um homem com o qual sempre podiam contar para o que quer que fosse. Nunca o seu pai, ou mesmo ele, pensaram que uma traição daquele tamanho por parte daquele homem pacato. O mesmo tinha acontecido acerca de três anos atrás, quando descobriram o caso de corrupção do antigo presidente do concelho, o também pacato Lourenço. Isso certamente fazia o povo temer a eleição de um novo presidente, receando que fosse igual aos que os governaram nos últimos dezassete anos.

Era isso que mais estava a revoltar a população de Vale do Fim, saber que o próximo presidente da sede do concelho poderia ser da sua aldeia e ser tão corrupto e criminoso como estes conseguiram ser. Por isso o pai dele se deslocou com mais outros vizinhos para o centro do concelho e de lá para o barracão onde August se encontrava com a sua equipa de cientistas.

Estava deitado na cama, a pensar no que aconteceria quando o seu pai e os restantes vizinhos chegassem ao barracão. O que iriam eles fazer. Ele temia isso, a justiça da vizinhança pelas próprias mãos. Temia que eles se tornassem tão cruéis quanto August e Joaquim quando planearam, supostamente, atirar um autocarro de uma ribanceira a baixo, depois de administrar um vapor que eles nunca tinham ouvido falar. Edgar ficou curioso em saber como não se espalhara nada sobre o Projecto MG, o pai dele nunca falara disso quando descobrira o que acontecera. Quem espalhou a notícia soube omitir o que acontecera antes do acidente.

Mesmo tonto, Edgar levantou-se da cama. Estava farto de estar deitado, a olhar para o ecrã do seu computador a ver o milésimo episódio da sua serie preferido no netflix. Foi até à janela e abriu os estores para dar um pouco de claridade ao seu quarto. Ficou surpreendido quando viu Joel a sair do seu carro. Um investigador da polícia como ele, encarregue do caso do acidente do autocarro da excursão não devia estar ali à porta de sua casa, devia estar a caminho do laboratório para onde todos os habitantes de Vale do Fim se pareciam estar a deslocar.

Quando viu que o inspector da judiciária se deslocava mesmo para a sua porta, Edgar saiu do quarto e foi até ao seu enorme hall de entrada para abrir a porta. Ele deveria vir falar com cada um dos sobreviventes, pelo menos era o que fazia mais sentido para Edgar, mas ele não conseguia deixar de achar estranho que isso estivesse a acontecer. O principal objectivo da polícia naquele momento não deveria ser inquirir os sobreviventes do acidente para apurar mais coisas sobre ele, o principal objectivo deveria ser evitar uma outra tragédia que iria assolar novamente a aldeia se nada fosse feito. E era isso que lhe iria dizer mal abrisse a porta.

- Joel, as pessoas estão a caminhar para o laboratório improvisado do August, eles podem ter feito mal em nos ter usado como cobaias, em terem provocado um acidente, mas tu como policia tens de tentar evitar mais um acontecimento que decerto irá manchar a mais uma vez a história de Vale do Fim. – Disse-lhe assim que abrira a porta.

Joel não lhe respondera. Nada lhe dissera. Edgar viu-o a tirar uma seringa do bolso, o que o deixou nervoso, não sabendo o real motivo pelo qual ele se deslocou até ali.

- Joel, o que se passa? Porque trazes essa seringa? – Perguntava enquanto o via a aproximar-se cada vez mais dele.

Edgar começou a correr pelo hall de entrada, olhando sempre para trás, vendo sempre Joel atrás dele com a seringa na mão. Por causa dos efeitos da vacina da cura do Projecto MG, sentia as suas pernas bambas e não tinha grandes forças para correr. Enfiou-se no seu quarto e trancou a porta. Joel parecia completamente diferente do homem que ele via sempre que ia ter com Artur à polícia. Não tinha a mesma expressão agradável que tivera durante todos aqueles meses que o vira por ali. Actuava de maneira quase robótica. Ficou aliviado por ele parecer ter desistido e ficou ali, sentado junto à porta, respirando ofegantemente, pensando no que Joel queria e que o pior parecia já ter passado.

Foi então que o viu na sua janela com um pedaço de tronco que o seu pai tinha para fazer a lareira. Ainda correu tentando fechar os estores, mas era tarde demais, Joel já tinha partido a janela e estava a entrar no seu quarto. Voltou a pegar na seringa e a ir na sua direcção. Tentou sair do quarto mas as suas forças pareciam ter desaparecido. Por momentos deu por si a pensar em ter novamente as potencialidades do Projecto MG. Isso fazia soar-lhe um pouco irónico. Andou dez meses a desejar não os ter e no dia seguinte ao desaparecerem precisava de os ter.

Perdido nos seus devaneios, só voltou a si quando sentiu Joel a agarra-lo. Ele esforçou-se o mais que pôde para se soltar. Deu alguma luta ao homem em que o seu amigo Artur confiava, sem saber quais eram as suas verdadeiras intenções. Lutava com as forças que lhe restavam contra a seringa que Joel lhe apontava ao pescoço, mas não era suficiente.

Sentiu uma dor agonizante quando a seringa lhe foi espetada no pescoço. Depois disso só se lembra de ver tudo turvo até tudo ficar escuro. Depois disso, mais nada.
Vale do Fim
Por Ricardo Reis

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