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Vale do Fim | Capítulo 18 (Parte 2)



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Capítulo 18 - Guernica (Parte 2)
 
 Ainda era fim de tarde, mas Lourenço não tinha medo de andar pelas ruas de Vale do Fim e ser visto. As atenções estavam centradas em Joaquim, August e a sua equipa de cientistas. Com tanto ódio que os habitantes tinham actualmente, ninguém iria ligar à sua presença. Vagueava por ali, com apenas um destino em mente, a sua antiga casa.

Foi difícil convencer George a deixa-lo voltar a Vale do Fim, achava completamente desnecessária aquela viagem, mas Lourenço insistira. Queria ver a mulher que durante anos tomou como sua e lhe deu um filho. Tinha esse direito. Afinal tinham sido anos e anos de casamento, anos de alegria e tristeza em conjunto. Ele queria vê-la. Queria olhar para ela. Depois disso poderia voltar para a Área X, o local onde o futuro da humanidade iria acontecer.

Quando entrou naquele mega laboratório pela primeira vez, sentiu-se emocionado. Era uma das maiores conquistas para o GDC, o centro de toda a organização, aquilo que ouvira George a planear desde que se convertera num membro. Lembra-se de se perder vezes sem conta, de ao inicio a Área X parecer um labirinto e que só com o GPS conseguiria encontrar a sala onde mais tempo passava, a Sala da Ovelha. Ainda era uma sala não utilizava para o fim para que fora criada, mas teria que estar tudo pronto para tê-la em funcionamento o mais breve possível. Era das salas mais importantes do laboratório gigante, por essa razão, Santiago era aquele que iria coordenar, ao seu lado, tudo o que ali se iria passar.

O laboratório era um grande círculo, com cinco raios. No centro, onde todos esses corredores se cruzavam, era o escritório de George. Enquanto passava pelos corredores ouvia gente a falar os mais diversos idiomas, do inglês ao francês, do alemão ao mandarim. As profissões também eram as mais variadas. Viu políticos, professores, advogados, militares e sobretudo cientistas, cientistas de todas as nacionalidades e, mais importante, de todas as especialidades existentes. O seu líder conseguia mover multidões com as suas ideologias. Isso fazia-o perguntar como o seu irmão August divergiu das suas ideias. Elas iriam mudar o mundo. Um híbrido poderia mudar a forma dos comuns mortais verem o mundo.

Quase ninguém sabia onde a área se localizava a não ser August e os membros em quem ele depositava maior confiança também dava um maior misticismo a tudo aquilo, a Lourenço fazia-lhe lembrar um pouco como Hades, o inferno grego, o submundo que existia na mitologia grega. Havia uma razão para não se saber o local exacto da Area X. Como o local era uma área remota, onde ninguém se lembraria de morar, todos os que se dirigiam para o local iam de autocarro. Era um autocarro normal, fazia exactamente os percursos urbanos para levar as restantes pessoas a casa, ao seu local de trabalho ou a momentos de lazer, mas quando a urbanização acabava os passageiros que restavam tinham de pôr vendas nos seus olhos. Ninguém poderia saber onde era a Área X, apenas sabiam que havia uma descida íngreme antes de tirarem as vendas, e, depois disso já estavam onde queriam estar. Claro que isto só poderia acontecer porque o dono da empresa de autocarros também era membro da GDC. O George era inteligente ao ponto de saber quem deviam ou não ser os seus contactos.

Agora estava em Vale do Fim, aldeia onde nascera, onde crescera, onde conhecera Olívia por quem morrera de amores durante anos a fio, até esse amor desaparecer, não só por culpa dela mas também pela dele. Nem tudo fora um mar de

rosas durante os tempos em que foram casados, mas ele ainda sentia um grande amor por ela, por isso suplicara a George para se deslocar até Vale do Fim para vê-la antes da Operação Guernica. Não conseguiu chegar antes, mas assim não teve as atenções viradas para ele por parte dos habitantes.

Enquanto caminhava lembrou-se de como conhecera George. Parecia ter sido obra do destino. Decorria o ano mil novecentos e noventa e nove e ele estava prestes a candidatar-se à presidência do concelho a que a aldeia de Vale do Fim pertencia. Sempre dera tudo pela aldeia, mas aquele era um passo maior iria ter de dar tudo pela área que iria presidir, e isso deixava-o nervoso, pensando se seria ou não capaz de tamanha tarefa. Lembrava-se de estar sentado no seu sofá a pensar nisso quando o seu filho, naquela altura com 5 anos, lhe dissera que estavam a tocar à campainha. Perdido pelos seus devaneios nem se apercebera disso. Quando abrira a porta viu pela primeira vez o homem que actualmente vangloriava. Pareceu ironia do destino quando o homem lhe disse que o local onde a sua casa estava construída tinha um grande valor sentimental para ele, embora ele nunca dissesse a razão, apenas meses depois, quando Lourenço se dirigiu à sua primeira palestra da GDC é que ele lhe explicara. Naquele primeiro encontro George apenas olhava emocionado para toda a área circundante à sua moradia.

Naquele tempo não sabia como o George iria ser tão importante na sua vida, como as suas ideias moveriam multidões. Com o passar dos anos ficou tão envolvido com o GDC que presidir o concelho não lhe chegava, precisava de ir para a tão falada Área X que estava a ser construída, por isso, mal soube que o irmão de George andava a sondar um dos outros candidatos à presidência, disse a George que estava na altura de fazer a sua mudança. E assim o fez. E o fez da melhor maneira, fez quando August e Joaquim começaram a planear o Projecto MG, projecto imprescindível para terem o híbrido, já que Alina, a portadora do Projecto CM estava com o irmão de George.

A única coisa que não lhe correu como o esperado foi a sua mulher, ou ex-mulher, já que ele desaparecera sem sequer pedir o divórcio, apenas lhe deixando um contacto para que ela lhe ligasse, ir naquela excursão. Ela não podia ter ido. Assim que ele soube que ela estava para ir ele falou-lhe para não ir, mas sabia que ela ia na mesma, sabia que ela era teimosa e ia, por isso suplicou-lhe para que fosse para os bancos de trás. Sabia que o autocarro podia cair do abismo e matar principalmente os que vinham na parte da frente do autocarro.

Ela felizmente, ou infelizmente, sobrevivera ao acidente, mas acabara sendo uma das seis cobaias do Projecto MG. Embora tivesse a sofrer mutações genéticas em todo o seu corpo, Olívia nunca as sentira. O álcool fazia um retardamento nos efeitos do Projecto, mas nada a fazia escapar da doença. A doença, essa ela iria ter, e era por isso que Lourenço a queria ver.

Chegou à sua antiga residência e tocou à campainha. Embora já fosse quase fim de tarde, Olívia parecia ainda estar a dormir, ou então não ouvira a porta. Devia estar bêbeda mais uma vez, como era hábito. Lourenço nunca a abandonou, sempre estivera de olho nela. Ela não sabia, mas havia uma câmara oculta escondida em cada um dos candeeiros de cada uma das divisões da vivenda que compartilhara com ela. Ela era importante demais para ele, por isso ele tinha de fazer aquilo, tinha de a ver. Tinha de o fazer.

Olívia demorara mas abrira a porta. Olhou para ele surpresa, sem saber o que ele ali estava a fazer. Ele ficou ali, parado a olhar para ela, enquanto ela lhe perguntava ininterruptamente o que ele ali fazia. Lourenço levou a mão ao casaco e tirou uma arma. Apontou-a à cabeça da mulher com quem compartilhou a maior parte da sua vida. Sem que ela tivesse tempo de dizer algo, Lourenço disparou um tiro certeiro na testa.

- Não percebeste porque fiz isto, mas se nos encontrarmos no outro lado vais agradecer-me por te ter poupado à doença que irias ter. Eu sempre te amei Olívia, nunca queria que sofresses tal coisa.

Pela primeira vez em anos chorou. Via em todos os noticiários casos de maridos que matavam as mulheres e sempre criticara aquilo. Nunca pensou em matar a sua, nunca pensou ser o monstro que criticava quando lia aquelas notícias no jornal. Ele tinha uma razão, Olívia não sofrera tanto como iria sofrer mais dia, menos dia, ele estava ciente no que ia acontecer a ela mesmo sem o Projecto MG. Mesmo assim não iria suportar a ideia de ter morto alguém. Ele contara a George apenas que ia matar a mulher, não o que iria fazer a seguir. Isso não tivera coragem de contar, deixou uma carta na Sala da Ovelha com o seu discurso, o seu discurso de despedida.

Olhando para a poça de sangue da sua mulher, apontou a arma à sua cabeça. Os seus dedos tremiam como nunca haviam tremido, estava nervoso como nunca haveria estado. Quando ganhou a maior coragem do mundo apertou o gatilho e a última coisa que se lembra é de ouvir um grande estoiro.

Vale do Fim
Por Ricardo Reis

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