Header Ads

Vale do Fim | Capítulo 17 (Parte 3)



Também disponível no Wattpad em http://goo.gl/uVVbsb

Capítulo 17 - Adão (Parte 3)
 
Joel estava em Vale do Fim há praticamente nove meses, e em nove meses nunca conseguira solucionar o caso do estranho acidente do autocarro da excursão. O maior passo que dera nessa investigação fora o encontro do grande lobo morto perto do local onde o autocarro caiu, mas isso não provava nada. Era preciso mais que um animal morto para atribuir a culpa a alguém. 

Naquele dia Joel iria estar sozinho. Artur tinha acabado de ser pai. Era agora progenitor de um forte rapaz. Sentiu pena quando ele disse que a menina tinha morrido mas era a lei da vida, por muito que a tentemos controlar ela será sempre mais forte que nós. Ninguém é suficientemente inteligente para enganar o destino, talvez alguns pensem que o podem embustear mas ele será sempre capaz de chegar. O mesmo acontece com a morte, por mais que se escape a ela uma dezena de vezes um dia ela vai conseguir chegar até nós e nada será capaz de a deter. 

Perdido nos seus pensamentos nem deu pelo seu chefe entrar. Vinha carrancudo como sempre, pronto para barafustar mais uma vez sobre o caso que ele vinha para resolver mas que por infortúnio do destino não conseguia resolver, talvez porque tudo aquilo era apenas um acidente e não algo provocado por alguém. Talvez o lobo se tivesse colocado à frente do autocarro e ele caísse porque o condutor se desviou. Talvez o lobo tivesse sido morto por aldeão que o encontrara. Se calhar nada daquilo era mais que o acidente provocado pelo lobo. Não havia nada para investigar. 

- Está ali uma pessoa para falar consigo! Ela diz que só fala consigo. Espero que ela esteja cá para resolver um assunto de polícia e não um relacionamento amoroso, porque se assim for, o melhor é voltares para Lisboa. – Disse-lhe o chefe secamente. 

Joel conteve-se para não lhe dar um murro. Aquele homem tirava a paciência a qualquer um. Era um cretino sem qualquer espécie de sentimentos pelos outros. Achava-se superior a todos os outros apenas pelo seu estatuto. 

- Essa pessoa que entre! – Acabou por dizer. 

O seu chefe chamou a rapariga loira que vinha a chorar. Parecia inconsolável. Agora Joel estava a perceber porque razão o seu chefe poderia desconfiar de um relacionamento amoroso que deu para o torto, ela parecia ter acabado uma grande relação. 

- É o senhor que está a investigar o caso do acidente do autocarro da excursão que ocorreu há dez meses atrás? Eu sou a Lígia, secretária do senhor Joaquim, o presidente do concelho onde a aldeia de Vale do Fim pertence e preciso de vos contar uma coisa… uma coisa muito importante.
Joel ficou com uma expressão de curiosidade ao ver o que a rapariga tinha para lhe dizer.

- Deixe-nos sozinho! – Pediu ao chefe e ele assim o fez. Quando viu a porta fechada e que os dois estavam sozinhos a sua expressão de surpresa mudou para outra que ele não mostrava há muitos meses. – Finalmente! Grande actriz Lígia. Se não soubesses o que vinhas aqui fazer até dizia que essas lágrimas eram mais do que lágrimas de crocodilo.

Lígia aproximou-se e deu-lhe um beijo. Um longo e intenso beijo que culminou com uma troca de olhares. Joel afastou-se e acabou a mexer na sua secretária, abriu a terceira gaveta e tirou duas alianças. 

- Parece que já as pudemos voltar a usar! Imaginas como foi difícil ter-te longe de mim! Quando o George me disse que me iria arranjar um lugar aqui perto de Vale do Fim sempre pensei que pudesse ficar ao lado da minha esposa. – Disse-lhe, colocando-lhe a aliança no dedo.

- Era arriscado Joel. Não podíamos deitar tudo a perder sabes disso. Ninguém podia sequer imaginar que o GDC estava a controlar tudo o que acontecia desde inicio aqui em Vale do Fim. O August é um homem esperto ele iria descobrir se algo parecesse estranho. Ainda bem que ele não esteve cá o tempo todo, assim pudemos encontrar-nos de vez em quando sem causar qualquer desconfiança por parte de qualquer um. 

Joel e Lígia voltaram a beijar-se, fazia meses que não trocava carícias com a sua mulher. Sentia saudades do seu cheiro, da sua boca, do seu calor que emanava entre as pernas. Faltava pouco para estarem juntos, depois de quase quatro anos separados. Era difícil mas o GDC era assim, eles sabiam que o era assim que entraram para aquela agência camuflada que em breve iria mudar o mundo.

- Trouxeste a pen! Eu preciso de mostrar as imagens aquele otário que pensa que manda nesta esquadra!

- Sim, trouxe, meu amor! Se não trouxesse o que faria aqui? É hoje o dia, o dia em que partiremos de Vale do Fim com o híbrido. Que iremos para a Área X! Tenho curiosidade em ver como ficou, tenho curiosidade em ver como o pequeno rapaz vai crescer, como vai ser ele que vai mudar todo o mundo como conhecemos.

- Também estou curioso, mas agora prepara-te para chorar, é preciso credibilidade para que aquele asno acredite nas tuas palavras.

Joel saiu do seu gabinete e foi até ao do seu chefe. Pediu-lhe que o acompanhasse, que a rapariga loira tinha informações muito importantes sobre o que acontecera no acidente do autocarro da excursão. O homem seguiu-o com um sorriso no rosto. Aquele sorriso estava a enervá-lo. Ele sentia raiva daquele homem, não entendia como Artur podia aturá-lo há tantos anos.

Quando chegaram à sala Lígia estava a chorar, parecia inconsolável. 

- Ela trouxe-nos algo muito importante! Isto que ela traz mostra-nos que algo aconteceu no autocarro e que pode ter sido isso que causou o acidente e não o lobo que encontramos na floresta! – Disse ao entrar. O lobo que eu capturei e matei, o lobo que fez o Artur confiar em mim, pensou só para ele.

- Eu peço desculpa de não ter trazido isto há mais tempo, mas tinha medo do que me podia acontecer. – Lígia continuava lavada em lágrimas. – Eu comecei a suspeitar daquele homem inglês se deslocar tantas vezes à Câmara Municipal. Um dia, eu coloquei lá uma câmara para ver o que ele ia fazer tantas vezes, uma câmara oculta. E foi aí que eu descobri, mas veja, veja com os seus olhos. 

Joel colocou a pen no seu computador e abriu o ficheiro de vídeo que continha a conversa de Joaquim e August sobre o Projecto MG na manhã anterior ao acidente ocorrido. Estavam encontrados os supostos culpados do acidente que vitimou mais de duas dezenas de pessoas. O seu chefe pareceu um pouco surpreso com o que estava a ouvir, mas não ficara estupefacto.

Será que este gajo também é da GDC, será que o George esteve a brincar comigo estes meses todos a aturar um insuportável destes?, era tudo o que lhe passava pela cabeça.

- Não me espanta nada, a eleição do Joaquim sempre me cheirou a esturro. Só comprova que ele é uma pessoa que consegue ser menos valioso que merda. – O chefe quebrou o silêncio depois de ver as imagens. Isso deixou-o aliviado, não queria que na sua organização estivessem pessoas daquele calibre. Sabia que tinha gente igual ou pior, mas pelo menos não convivia directamente com eles.

- Ele é perigoso! – Realçou Lígia, naquele momento com um lenço na mão para tornar aquilo tudo ainda mais credível. – Não pode ficar impune. Ele e aquele inglês têm de pagar pelo mal que fizeram a todas aquelas pessoas.

- E irão pagar minha senhora! – Depois de confortar Lígia, o chefe virou-se para Joel. – Prepara uma equipa e vai até à polícia, prendam o Joaquim. Depois apanhem o Inglês naquele barracão que ele chama de laboratório. Eu vi logo que eles não andavam a fazer coisa boa ali naquele sítio.

Joel assim o fez. Estava mortinho para que o chefe lhe desse aquela ordem. O ser humano era realmente previsível. Lembrou-se da última conversa que teve com George há uns meses atrás na cave do café ali no centro do concelho. Eles estudaram a melhor maneira de acabar com August. O plano estava a correr na perfeição.

Quando chegou à câmara municipal subiu as escadas e entrou no gabinete. Não bateu à porta sequer, deixando Joaquim completamente surpreso. Atrás dele entraram mais três polícias que se dirigiram ao homem.

- Senhor Joaquim, você está preso! Preso pela conspiração do acidente de Vale do Fim!

- Estão completamente loucos?! Acham que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas? – Tentou defender-se Joaquim já algemado.

Joel tirou a pen do bolso e mostrou-lhe as imagens. Joaquim pareceu-lhe em choque, nunca pensou que essas imagens existissem, nunca pensou que estaca a ser tramado por alguém.

Encaminharam Joaquim para a esquadra. Ali não havia prisão, teria de ir para uma do concelho vizinho, por isso ele sentou-se no gabinete de Joel. Frente a frente um para o outro.

- Os jogos de poder são difíceis de vencer, não é Joaquim! O August prometeu-lhe uma governação próspera, e veja onde acabou. E tudo porque acreditou num alucinado que queria criar uma espécie humana nova. Acho que foi um tolo ao cair nesta conversa.

- Sabe mais do que qualquer um nesta esquadra! – Confrontou-o Joaquim. – Também trabalhou para ele? Foi ele que me tramou e agora vai embora?

- Não! Longe disso. Eu nunca iria trabalhar com fracassados. Eu estou noutro patamar. George, já deve ter ouvido falar dele. O irmão do seu compincha August. Ele sempre esteve o passo à frente de vocês. – Declarou Joel, atirando o telemóvel para Joaquim. – Telefone para o seu amigo. Diga-lhe onde está.

Joaquim telefonou-lhe. Ele não atendeu. Tornou a insistir mas ele não atendera.

- Espere, telefone do meu! Ele pode não querer atender do fracassado presidente da câmara.
O cientista também não atendeu do telemóvel de Joel.

- Bem, então ele vai ser apanhado de surpresa como o senhor! – Declarou-lhe o investigador.

- Também o vão prender?! – Perguntou o velho, intrigado.

- Não! O George preparou algo diferente para o seu irmão. Preparou-nos uma missão que… - olhou para o seu relógio do telemóvel. - … deve estar prestes a começar. Uma missão que tem um nome interessante, que qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento em história vai entender. Vamos começar a nossa missão que George denominou de Guernica!

Vale do Fim - Capítulo 17
Por Ricardo Reis

Sem comentários