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Vale do Fim | Capítulo 17 (Parte 2)



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Capítulo 17 - Adão (Parte 2)

Quando August chegou ao laboratório viu Artur. O jovem polícia acenou-lhe e estava radiante pelo nascimento do seu filho. Mas conseguia ver-lhe também uma réstia de mágoa pela perda da sua menina. Quando o investigador o viu saiu do carro e foi até ele. August deu-lhe as suas condolências e de seguida o parabeneziou pelo rapaz forte que parecia ter nascido.

- Aquele rapaz vai marcar todas as nossas vidas! – Disse August abraçando Artur.

- Acredito que sim. Vai ser um exemplo! Um grande homem e cidadão. Vai ser amado e educado com tudo o que lhe pudermos oferecer. 

Conversaram mais algum tempo até que Artur se foi embora para casa. Precisava de descansar. Já era quase alvorada e ele ainda estava ali, depois de uma noite tão agitada como a que tivera.
August entrou no laboratório e foi até ao quarto onde se encontrava Alina. Ela estava a dormir. 

Deveria estar exausta depois daqueles momentos de agonia que tivera. Aquele descanso era merecido. Foi até ao berço que se encontrava ao fundo da cama e olhou para o bebé. Tão frágil, tão doce, mas ao mesmo tempo tão forte, tão forte que foi capaz de matar a própria irmã para nascer.
A mente de August recuou no tempo, recuou quinze dias, na tarde em que Alina fizera a última ecografia antes do parto. Viktor entrou no seu gabinete cabisbaixo. 

- A menina não vai sobreviver! – Declarou ao líder do PastFuture. – O rapaz, ele está muito mais desenvolvido que um bebé normal. Eu não disse à Alina, disse-lhe que estava tudo bem, mas os sinais vitais da bebé estão muito fracos. Ela não vai resistir. Morrerá quando o rapaz quiser nascer. 

Isso abalou-o e fê-lo pensar numa teoria que tivera quando era jovem e ainda o Projecto Híbrido não passava de rascunhos no seu bloco de notas. Sempre pensou na probabilidade de que os dois projectos se anulassem um ao outro se gerassem um filho. Isso parecia ter acontecido com a menina. Ela não era um híbrido, era apenas uma criança normal. Mas o menino não, ele sempre crescera muito mais rapidamente que ela, ele via-o nas ecografias. 

Embalado pelos seus pensamentos nem deu por Viktor entrar no quarto. Foi preciso ele lhe tocar no ombro para ele se aperceber. Cumprimentaram-se com um aperto de mão e um abraço. O rapaz estava emocionado a olhar para aquele pequeno ser vestido com um babygrow azul. 

- Vamos ver uma coisa! – Disse August pegando no bebé. 

August ia à frente e Viktor seguia-o. Pararam na sala onde o jovem cientista fazia os seus experimentos. Naqueles últimos meses ele deslocara-se até àquela sala uma série de vezes. Ajudou na cura dos sobreviventes, dera as luzes que faltavam para que a fórmula pudesse ser a ideal para os curar. 

- Ele é pequeno demais, acabou de nascer August! – Declarou Viktor ao ver o seu superior a pegar num objecto cortante. 

August não lhe deu ouvidos e cortou o pequeno bebé. A ferida sarou em menos de três segundos. A pele regenerou-se num ápice. 

- Estamos perante um híbrido! – August estava radiante ao dizer aquilo. O seu projecto de vida finalmente tornara-se real. – Finalmente estamos perante Adão. 

- Adão?! – Viktor ficou curioso. 

- Sim, Adão! Eu fui criado numa família muito crente na religião cristã. Cresci a ouvir falar de Noé e de Jesus de Nazaré. Adão era o nome do primeiro homem criado
por Deus, semelhante à sua imagem. É o nome que este bebé tem de ter. Ele é o primeiro homem com as suas capacidades. 

- Será que a Alina vai concordar com esse nome? – Perguntou Viktor. 

- Ela não tem de concordar com nada. Este menino é muito valioso, ele não pode viver com ela e com o Artur. 

Viktor ficou a olhar para ele. August percebeu que o jovem não estava à espera daquela declaração.
- Não lhes pode tirar a criança. Eles esperam por ela desde que viram a primeira ecografia. A Alina não iria aguentar perder a criança. Ela não ia aguentar. – Viktor estava a ficar emocionado e revoltado com aquilo que August planeava fazer. 

- Não há outra forma, Viktor. Ele não é uma criança normal. Ele é mais que um mero humano. Ele tem condições especiais, não pode ser criado por pessoas que desconheçam as suas necessidades. O que eles iam fazer quando soubessem das capacidades que este ser que agora nasceu tem. 

Viktor também parecia não saber para o que olhava. Mas August sabia. Ao olhar para aquele bebé não via apenas um menino. Ele era muito mais que isso. Era um ser especial, capaz de ser um bem e um mal para a humanidade. O trunfo para qualquer um ter o domínio de uma sociedade. 

- Pense bem no que vai fazer, August. – Disse Viktor quase sem conseguir falar. Ele estava desolado com o que iam fazer à amiga. 

August também estava, mas sabia que era o melhor a fazer. Sabia que era a coisa certa, aquilo que devia ser feito. O Híbrido era uma arma, não uma pessoa com quem deveriam conviver. 

- Deixa-o aqui deitado no teu laboratório! Se ele chorar, estará suficientemente longe para que ela o possa ouvir. 

- As paredes não são assim tão fortes para abafar o som de um choro de uma criança. Elas conseguem acordar até a mais surda das almas. Ela vai ficar aflita quando não o vir no berço. O que lhe diremos?

- Aquilo que tem de ser dito. Quando chegaste ao berço para ver o menino, apercebeste-te que ele não respirava. Tal como a irmã ele não aguentou o parto e pouco depois morreu. Eu irei contigo para dar essa triste notícia. Aliás, irei sozinho, fica aqui a certificar-te que o miúdo não acorde. 

Foi isso que acabaram por fazer. Enquanto Viktor ficou com o pequeno Adão no seu laboratório, August foi até ao quarto onde Alina se encontrava deitada. Tentou fazer a cara mais triste que conseguia. Também não fora de todo difícil. Não se sentia bem em fazer aquilo que estava a fazer. O bebé devia ficar com a sua mãe, todas as crias deviam ficar com aquela que sempre os defende de todo o mundo selvagem que o rodeava. 

- Porque é que ele não está aqui? – Disse Alina, sentada na maca. Parecia ainda meio sonolenta o que fez August presumir que ela teria acabado de acordar. 

- Alina… enquanto dormias… quando o Viktor chegou para ver o bebé… lamento Alina, lamento imenso! – Disse August enquanto via os olhos da rapariga encherem-se de lágrimas. 

- Não, não pode ser verdade. Ele estava bem quando eu adormeci. August ele chorou tão alto… parecia tão forte. Ele não pode ter morrido, ele não pode. – Alina pareceu-lhe descontrolada. Gritava tanto que Santiago foi até ao quarto para ver o que se passava. 

August chegou até à beira da cama e abraçou-a. Aquilo parecia estar a acalmá-la. Olhou-a nos olhos e deu-lhe um beijo na face. O Beijo de Judas, pensou ele enquanto completava o gesto. 

- Liga ao Artur, diz para vir buscar-te. Estão melhor os dois juntos, conseguem dar conforto um ao outro. 

Enquanto via Alina pegar no telemóvel para ligar para o seu amado, o homem saiu. Não conseguiu deixar de soltar uma lágrima. Aquilo que estava a fazer-lhe custava-lhe, mas era o que tinha de ser feito, o Adão não era alguém que se pudesse educar por uma família normal. 

Foi para o seu gabinete e passou lá o resto do dia. Pensava no que ia fazer, no que iria fazer a seguir. A sua missão em Vale do Fim estava completa. Era altura de partir para outra área, uma área ainda mais remota que aquela aldeia perdida no interior de um país. Ele precisava de estudar Adão, precisava de saber todas as suas potencialidades. 

Já era noite. Só o soube pelo escurecer do seu gabinete. Não comera nada durante todo o dia. Apenas ficara ali sentado na sua secretária pensando na vida. O telefone tocou intensamente. Umas vezes era Joaquim, o presidente do concelho que o ajudou a lançar o seu projecto ambicioso, outras vezes era um número que ele não tinha gravado na lista de contactos. Ele sempre ignorou as chamadas. Não queria falar com ninguém, queria apenas usufruir do silêncio que aquele gabinete lhe garantia.
Esse silêncio foi interrompido por um insistente bater na porta. Viktor não esperou para que ele dissesse para entrar. Estava bastante nervoso e agitado. 

- O bebé… ele desaparecera! E o Santiago também. Não há sinal dos dois. Apenas estava isto onde eu tinha deixado o Adão. – Declarou o cientista. – Eu só o deixei sozinho por quinze minutos! Não o devia ter deixado. 

- E está descoberto o nosso traidor! O Santiago trabalhava para o GDC, sempre deve ter estado com o George, desde o primeiro minuto que aqui entrou. Tu não tens culpa Viktor, tinhas de comer, a culpa é toda minha por confiar demais nas pessoas! – Viu que Viktor trazia um envelope na mão. – E o que é isso que trazes? 

- Foi um envelope que ele deixou no lugar do miúdo. Vem endereçado a si. 

August abriu e retirou a fotografia. Novamente uma imagem da pintura Guernica. Novamente um jogo sujo de George. 
 
- Outra vez? – Questionou Viktor. – O que ele quererá dizer com isso. 

- Cala-te! – Pediu August. – Não estás a ouvir? – Perguntou-lhe. 

O rapaz ficou atento e ouviu também. Haviam muitas vozes ao seu redor. Parecia uma multidão.
- Parecem estar a gritar! – Declarou Viktor. 

- Guernica! – Disse August. – Eles estão aqui para destruir o nosso laboratório, estão aqui para acabar connosco.

Vale do Fim - Capítulo 17
Por Ricardo Reis

Vale do Fim | Capítulo 17 (Parte 2) Reviewed by Fantastic on 19:30:00 Rating: 5

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