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Vale do Fim | Capítulo 17 (Parte 1)


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Capítulo 17 - Adão (Parte 1)

Artur estava nervoso. As contracções estavam a ser cada vez maiores e em menores espaços de tempo. Pedia a Alina para ter calma mas ela só gritava de dor e ele perdia a calma, estava tão aterrado quanto ela. 

Não passavam muitos carros por aquela estrada mas naquele dia parecia que todos tinham escolhido passar por lá. Isso fazia-o ultrapassa-los a todos, fazendo-o parecer um dos personagens de um filme de corrida de carros. O seu principal objectivo era que os filhos nascessem sãos e salvos. 

Quando chegaram ao laboratório, uma ambulância já lá estava parada. A enfermeira que Viktor conhecia do hospital já ali estava pronta para realizar o parto. Saiu do carro o mais depressa que conseguiu e correu para abrir a porta de Alina. Ajudou-a a levantar-se. Ela mal conseguia andar. Levava as suas mãos na barriga e contorcia-se de dor. Artur nunca imaginara que poderia ser tão doloroso o momento do parto. Pelo que Viktor dissera, o rapaz estava bastante desenvolvido, desenvolvido demais para estar ainda no ventre da mãe. Contrariamente, a menina estava subdesenvolvida, mas mesmo assim saudável. 

Um paramédico trouxe uma cadeira de rodas até à porta do laboratório e a enfermeira o ajudou a colocar na cadeira. 

- O Viktor já vem a caminho de Lisboa! Vamos tentar atrasar o parto para que seja ele a fazê-lo. – Disse a mulher. 

- Não vai haver tempo! Ela está com contracções de minuto em minuto. Não tem experiência em partos? – Questionou Artur. 

- Quase nenhuma. Eu apenas assisto aos médicos, ajudo-os nos partos, nunca fiz nenhum. 

- Eu posso ajudar! – Disse um rapaz jovem, da mesma idade de Viktor. Artur conheceu a sua voz. Era Santiago, um outro membro da PastFuture. Viktor falava dele mas Artur nunca o conhecera bem, mas em tempo de guerra não se limpam armas e Artur não tinha outra escolha se não confiar naquele homem. 

Salvador levou Alina para uma sala e Artur e a enfermeira seguiram-no. Quando estavam para entrar na sala, recebeu uma chamada. Era Viktor. Ficou à porta da sala para puder atender. 

- Estás a chegar? (…) Duas horas? Não ela não aguenta até lá e a enfermeira não sabe fazer o parto. O Santiago, achas que ele é de confiança? (…) Tens tanta confiança nele para falares tão bem dele e tratá-lo como irmão?! (…) Abraço, chega rápido! – Depois de desligar o telefone ficou mais aliviado. Viktor parecia confiar naquele rapaz. Alina parecia estar em boas mãos. 

Quando entrou na sala, Alina já estava deitada numa cama, a mesma em que ele teve deitado há seis meses atrás. Estava a fazer força enquanto Santiago se preparava para tirar o primeiro bebé. 

- Força Alina. Já se vê a cabeça! – Dizia Santiago enquanto puxava. Demorou cerca de três minutos para ter o bebé nos braços. 

- O que se passa? – Perguntou Artur ao ver que o bebé que tinha saído da sua mulher não estava a chorar, não estava a emitir som algum. 

- A menina não sobreviveu! Está morta! – Declarou o cientista da PastFuture. 

Alina chorava e Artur não entendia o que tinha acontecido. Há quinze dias os dois bebés estavam bem de saúde, nenhum deles apresentava sintomas de que algo estivesse a correr mal, e a sua filha acabara por morrer antes de nascer. 

- Pode ter morrido quando a Alina sentiu a primeira contracção, antes de lhe rebentarem as águas. Pode acontecer isso, não é raro. – Explicou Santiago. 

Antes que Alina conseguisse dizer o que quer que fosse, voltou a gritar. Parecia mais angustiada ainda que quando vinha a caminho daquele laboratório. 

- Está outro bebé a caminho! – Dizia o rapaz. 

Espero que não venha morto, meu Deus, sabes como eu e a Alina queríamos tanto estes bebés, porque nos levaste aquela menina, porquê? Suplico-te que não o leves a ele, deixa-nos pelo menos essa alegria, era tudo o que Artur conseguia pensar naquele momento. Aquele estava a ser um dia negro para ele. Parecia que tudo de mal lhe estava a acontecer ao mesmo tempo. Perguntava-se por que razão é que quando conseguia ser feliz algo tinha de lhe estragar a felicidade. Serei eu um mártir na terra? Questionava-se. 

Quando viu o menino nas mãos de Santiago estremeceu por ele também não soltar qualquer som. Isso fê-lo pensar se os dois bebés tinham decidido criar um pacto e irem os dois para o céu quando saíssem da barriga da mãe. 

Suspirou de alívio quando, depois de levar uma palmada de Santiago, o bebé emitiu um grande choro, fazendo-o a ele e à sua mulher chorar também. Chorar de alegria, felicidade. Deus escolheu levar um anjo para perto dele, mas deixou ficar outro para os guiar. 

Santiago levou o bebé até às mãos de Alina que se mostrava radiante por o ter nos braços. Ele chegou-se ao pé deles os dois. O menino parecia tão frágil. Era um bebé forte, pesava cerca de dois quilos e meio. A enfermeira trouxe-lhe um pequeno fato e vestiu-o. 

- A Alina precisa de descansar. É melhor irmos embora daqui da sala. – Disse Santiago.
Artur foi até ao carro e telefonou para Joel. Era dos seus melhores amigos e por isso queria compartilhar a felicidade com ele. Enquanto falava ao telemóvel viu August a chegar ao barracão improvisado que tratava como uma segunda casa. Saiu do carro e foi até ele. 

- Soube do que aconteceu! Os meus pêsames e os meus parabéns. Deves ter uma enorme felicidade dentro de ti neste momento. – Disse-lhe o chefe da PastFuture. 

- Não consigo exprimir o que estou a sentir. É um orgulho o que qualquer pai sente quando vê a sua primeira criança chegar ao mundo. Ver o seu primeiro sorriso, ouvir o seu primeiro choro. Sentimos algo que pensámos nunca alguma vez sentir. 

- Mas é difícil suportar a dor de perder outro...as perdas são sempre difíceis! Eu sei, eu entendo-te. Nunca tive filhos mas tive ao longo da vida gente que me fazia feliz, que me fazia sorrir e que de um momento para o outro partiram sem que Deus tivesse piedade de nós, fazendo-nos questionar se teríamos feito alguma coisa para que ele nos castigasse com tamanha dor. 

Artur observava o velho homem. Agora que o conhecia, via que ele nunca poderia ter causado o acidente. Ele era uma pessoa com valores, era uma pessoa sempre pronta a ajudar. Ele era um pai para Alina, e, embora ela tenha ficado magoada com ele durante alguns meses após o que ele lhe mandara fazer, ela perdoou. Já de George, nunca soubera o seu paradeiro. Talvez o acidente que causara lhe bastasse para se vingar do seu irmão. Destruir-lhe um projecto que ele ambicionava parecia-lhe uma boa forma de se vingar. O irmão do inglês deveria pensar o mesmo. 

Foi para casa descansar. Já estava o sol a nascer quando chegou a casa. Não queria deixar Alina, mas ela estava em boas mãos. Estava sob os olhares atentos de August, Santiago e Viktor também tinha chegado um pouco antes de ele sair. Ela e o seu filho em breve iriam estar em casa. 

Acordou sobressaltado com o telemóvel a tocar. Olhou para o relógio e viu que já eram três da tarde. Não sabia como tinha dormido tanto.
Atendeu o telemóvel. 

- Vem ter comigo Artur. – Dizia Alina, estava a chorar. – Preciso de ti Artur. O nosso menino… o nosso menino também morreu! 

Artur nem conseguiu falar depois de ouvir aquilo. 

Vale do Fim - Capítulo 17
Por Ricardo Reis

Vale do Fim | Capítulo 17 (Parte 1) Reviewed by Fantastic on 19:30:00 Rating: 5

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