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Vale do Fim | Capítulo 16 (Parte 3)


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Capítulo 16 - Semi-híbridos (Parte 3)

Naqueles nove meses a vida de Alina mudara. A vida dela, mais que a de outra pessoa, tinha sido sempre marcada por mudanças, algumas boas, outras más. Daquela vez, a mudança fora o melhor que lhe acontecera na vida. Deixara de viver no apartamento no centro do concelho, alugado por August quando chegaram a Portugal, e mudara-se para a aldeia de Vale do Fim, para a casa de Artur.

Viviam juntos há seis meses, pouco depois de Alina descobrir que carregava no seu ventre dois seres maravilhosos, pelo menos era o que parecia de cada vez que olhava para a ecografia. Ficaram radiantes no momento em que souberam que iam ter um rapaz e uma rapariga. Assim não havia lugar para aquelas discussões clichés de qualquer casal sobre querer um menino ou querer uma menina. Estavam os dois satisfeitos. 

A casa que Artur tinha era bastante grande por isso cada bebé iria ter o seu próprio quarto. Nos seus tempos livres Artur aproveitava para arranjar os quartos. Cada um tinha o seu berço e as paredes pintadas. O quarto do menino estava todo de azul, enquanto o da menina estava pintado de rosa.

Aquele dia, por infortúnio do destino, não estava a ser tão feliz como os seus antecessores. Ficou abalada quando Artur chegou a casa e lhe disse que não poderia tomar a vacina para a remissão do Projecto do seu corpo. Viu que ele ficou desanimado, sabia o quanto ele queria ser uma pessoa normal. Mas viu que ele estava desanimado sobretudo pelo pequeno Miguel. O rapaz nunca saberia o que iria ser ter uma vida normal, onde pudesse conviver com os outros amigos da escola, jogar à bola, jogar à apanhada. Não era justo ter uma vida isolada como ele iria ter e isso fazia Alina sentir um aperto no seu coração, pensando que esse poderia ser o futuro dos seus filhos. Afinal de contas ela era portadora do Projecto CM e o seu companheiro do Projecto MG. 

Artur deitou-se. Estava desanimado demais para conversar, por isso preferiu deitar-se. Naquele momento não era melhor companhia para ninguém. Alina ficou então ali na grande sala a olhar para a televisão. Não estava a tomar atenção alguma ao programa que estava a ser transmitido, um documentário sobre a duplicação de seres humanos, clonagem. Se ela estivesse a tomar atenção, talvez estivesse naquele momento a pensar como seria se houvesse mais pessoas exactamente iguais a ela, mas isso ainda era uma mera utopia, não valia a pena pensar. 

Levantou-se do sofá e vagueou pela casa. Sentia cólicas. O dia do nascimento das crianças estava previsto para dali a quinze dias. No inicio daquela semana começara a sentir algumas cólicas, o que a alarmou e fez conversar com Viktor. Ele confortou-a dizendo que era normal, afinal o grande momento estava a aproximar-se a passos largos. Se as dores se intensificassem aí teria de se deslocar imediatamente para o laboratório, onde Viktor já tinha tudo preparado para ser realizado o parto.

Foi até ao quarto que partilhava com Artur. Olhou para o seu rosto enquanto dormia. Sentia-se triste, compartilhava a sua dor como compartilhava todas as coisas da vida. Eles dois eram só um. Se um estava triste o outro também estaria. Como poderia a vida ser tão cruel ao ponto das pessoas não conseguirem sentir-se bem com elas mesmas. 

Para não o acordar, saiu pé ante pé do quarto. Seguiu para o quarto ao lado. As paredes cor-de-rosa e a boneca de pano dentro do berço não enganavam. Era o quarto que iria dentro de dias ser o pequeno mundo da sua filha. Imaginou-a a correr pela casa com o seu irmão a correr atrás de si. Sorriu ao pensar nisso, até que uma grande contracção a fez soltar um gemido de dor. Fora a dor mais forte que sentira desde que as cólicas tinham começado, mas rapidamente parara. 

Parecera falso alarme. Seguiu até ao quarto azul, o do seu menino. Já tinha uma colecção de carros de madeira com os quais Artur tinha brincado quando fora criança. Ela sabia que ele tinha uma grande estima por aqueles carros. Os seus olhos brilhavam quando ele olhava para eles. Era mais que óbvio que queria que o seu filho brincasse com eles. 

Quando pegou no carro sentiu uma dor ainda mais insuportável do que a que sentira no quarto da rapariga. Sentiu um líquido a correr-lhe pelas pernas o que a deixou assustada. 

- Artur! – Gritou, enquanto estava estática olhando para a poça de líquido à sua volta. – Artur!
- O que foi Alina? – Perguntou ainda a esfregar os olhos. Quando olhou para o chão é que tomou noção da realidade. – Temos de ir já para o laboratório. 

- O Viktor está em Lisboa! – Declarou Alina nervosa. – Não há tempo para ele chegar até aqui.
- Eu irei ligar-lhe para que ele prepare a amiga dele do hospital. Não podes ficar aqui mais tempo, temos de ir para o laboratório antes que os bebés nasçam.

Enquanto Artur ligava para Viktor, Alina preparava-se para um dos momentos mais importantes da sua vida, ia ser mãe.
Vale do Fim - Capítulo 16 
Por Ricardo Reis

Vale do Fim | Capítulo 16 (Parte 3) Reviewed by Fantastic on 19:30:00 Rating: 5

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