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Vale do Fim | Capítulo 16 (Parte 1)


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Capítulo 16 - Semi-híbridos (Parte 1)

Viktor estava no seu laboratório. Viveu confinado naquele lugar por quase seis meses. Poucos eram os dias em que ia dormir a casa ou sair com Eva. O seu principal foco era descobrir a cura do Projecto MG. Foram uns meses difíceis. Teve de realizar muitas pesquisas e testar várias fórmulas nos seus ratos. August sempre supervisionava o seu trabalho. Ele sabia mais sobre o projecto que ele, afinal tinha sido ele que o criara mais os outros dois irmãos. 

O primeiro passo que Viktor tomou foi pesquisar os primeiros esboços feitos por George e August nos tempos de faculdade. Ao ver as primeiras ideias do projecto poderia conseguir algo que o fizesse reverter o soro nos sistemas imunológicos dos sobreviventes do autocarro a excursão. Não lhe serviu de muito. Os três irmãos estavam tão focados no sucesso do projecto que nunca foi mencionada uma forma de reverte-lo. Mas tinha de haver uma, eles não podiam ficar assim o resto da vida. Eva, Edgar e Miguel eram muito novos. Um dia haveriam de constituir família, ter um emprego estável, realizar os seus sonhos. Não podiam carregar aquele fardo a vida inteira. Não era justo. 

Dia e noite, Viktor ali ficava no seu laboratório. Começou por tentar usar o soro novamente em alguns ratos. Talvez uma nova respiração do soro de vapor de cobra e crocodilo pudesse reverter a situação. Fez o experimento em ratos. Sabia que já tinha encontrado coisas que apenas aconteciam aos humanos, mas não podia usar nenhum dos sobreviventes do acidente. Não queria machucar nenhum deles. 

A sua primeira ideia não levou a lado nenhum. A segunda dosagem intensificou o Projecto no organismo e fez os ratos morrerem em poucos minutos após administrarem o soro. Isso deixou-o decepcionado. Não sabia o que fazer. Estava cansado de ler tantos artigos sobre mutação genética não encontrando em nenhum deles a forma de fazer com que as mazelas desaparecessem do corpo de quem recebera aquilo que para uns era uma dádiva mas um fardo para quem as carregava.

Foram precisos meses e meses de experiências e testes para ter uma fórmula que achasse capaz de curá-los. Sentia-se nervoso. Nos ratos, os efeitos tinham sido bastante positivos. Uma semana depois de injectado o soro esverdeado, os mamíferos não tinham vestígios do Projecto MG. Isso ainda o deixava mais nervoso. O que podia ser a fórmula para os ratos poderia não ser para os humanos. Os ratos não regressavam à vida depois de morrerem, isso parecia ser apenas os homens. 

Muita da sua preocupação advinha daí, dos semi-híbridos. Quando conseguiu a fórmula que podia curar as cobaias do Projecto MG, Viktor pediu que todos eles fizessem análises. Isso trouxe-lhe outra dor de cabeça. Os exames de Miguel e Artur eram muito diferentes dos restantes. Enquanto os dos outros quatro se assemelhavam aos dos ratos de laboratório, os exames dos semi-híbridos era totalmente diferente. O jovem cientista estava ali sentado, ao alvorecer, pensando na melhor forma de revelar aquilo que sabia. 

Ainda o sol estava a nascer quando ligou o carro. No banco ao lado tinha uma pequena mala onde se encontravam as vacinas. Era necessário ele administrar o antídoto de manhã cedo pois teria de partir ainda antes do almoço para a capital. Iria acompanhar a sua preciosa Eva numa das mais importantes competições nacionais de ballet. Era um momento importante para ela e ele não o queria perder.

A porta do café de Joana já estava entreaberta. Alguns já lá estavam. Mesmo sendo muito cedo. Ficou surpreso por ver Edgar já sentado numa das cadeiras em círculo. Esperava que ele fosse dos últimos a chegar já que os jovens tinham um síndrome de se deitar tarde e levantar igualmente tarde. Mas ele já devia prever tal coisa. O rapaz era um dos mais ansiosos pela cura. Era aquele que tinha mais ânsia em se livrar daquele problema que tinha há dez meses. Sentia-se triste ao vê-lo. Como podia ele ter estragado a vida de tantas pessoas? Se o acidente não tivesse ocorrido eles iriam ser vítimas na mesma, todas aquelas trinta pessoas iam estar a viver rodeadas no medo de serem descobertas. Isso fazia-o pensar, pensar se tudo aquilo que fizeram em prol da ciência não foi incorrecto para todos os que foram envolvidos. 

Não valia a pena se martirizar mais, nada iria mudar aquilo que já estava feito, e ele também não era capaz de construir uma máquina que conseguisse voltar atrás no tempo, pelo menos naquela altura ainda não possuía aptidões para tal coisa. 

- Queres que ponha isso em cima do balcão? – Perguntou Joana a apontar para a mala que ele trazia.
Ele sorriu-lhe. Um sorriso triste. Como irá ficar ela ao saber?, era tudo o que a sua mente se perguntava ao olhar para aquela mulher à sua frente. Pensava na reacção dela ao saber do que ele tinha para dizer. 

- Sim, guarda-a aí em cima da mesa. Há algumas coisas que tenho de dizer antes de vaciná-los.

Quando os seis sobreviventes já se encontravam sentados, Viktor foi para o centro do círculo e olhou para todos eles. 

- Já sabem o que me traz aqui! Descobri a cura. Há dez meses que esperam por ela não é verdade! – Disse ele, vendo um sorriso no rosto de todos aqueles indivíduos que deixaram de ter uma vida normal por causa da sua equipa. – Parece que chegou o grande dia! O dia em que vão puder voltar a correr, a saltar, a sentir comichão quando tiverem uma ferida a sarar… hoje é o dia em que vão sentir-se como o senhor Filipe ali do talho ao lado, à dona Alzira da padaria… vão voltar a ser pessoas comuns. 

- Não era sem tempo! – Declarou Edgar com um sorriso no rosto. 

O sorriso que Viktor tinha enquanto falava com eles esmoreceu. 

- Nem tudo são boas notícias, infelizmente. Artur, Miguel. – Olhou para os dois e o investigador, Joana e o pequeno menino levantaram-se. – Não vos vou puder administrar a vacina! 

Joana ficou sem reacção. Viktor pôde ver desgosto e desespero no olhar daquela mulher que queria por tudo o que era mais sagrado naquela vida voltar a ter o seu menino normal. 

- Se vocês tomarem aquela vacina vocês não vão voltar a ser como eram antes do soro de vapor de cobra e crocodilo… - O cientista hesitou. - … se tomarem aquela vacina vocês vão morrer! O Projecto MG é o que vos mantém vivos! Se o soro desaparecer do vosso organismo os órgãos vão ser danificados, o sangue vai engrossar de tal maneira que as vossas veias vão ficar entupidas e em menos de uma hora iriam ter um ataque fulminante. 

- Tem de haver uma maneira Viktor… não podes deixar assim o meu menino, ele tem de ficar bem… tem de se formar na melhor faculdade do país, encontrar uma namorada, arranjar um emprego normal, constituir uma família… como é que ele vai conseguir isso se não consegue controlar a sua força, a sua velocidade e todas as alterações que têm surgido entretanto? – Joana parecia cada vez mais devastada. 

- Eu estarei cá, estarei sempre ao lado do Miguel, a vê-lo crescer, a tentar esconder o máximo possível os efeitos do MG. 

Viktor sentiu um aperto no coração quando viu a primeira lágrima a cair no rosto de Joana. A essa seguiram-se outras. Raul fora até ao pé dela e abraçara-a. 

Dera-lhe um beijo. Naquela altura ele já podia, tinha renunciado o seu celibato. Não era padre há quase três meses. Ele ainda se lembrava quando Raul fora até ao laboratório descarregar tudo o que tinha na mente. O rapaz apenas lhe dissera para ele fazer o que o seu coração mandava e ele fez. Ele, Joana e Miguel preparavam-se para fazer uma viagem assim que os filhos de Alina nascessem. Joana e Raul iriam ser os padrinhos da criança e por isso não queriam perder o seu nascimento.

- Ao menos vais tê-lo ao pé de ti! Graças ao soro tu não perdeste o teu menino naquele fatídico acidente. Ao menos podes dizer que graças a um milagre criado pelo Viktor e pela sua equipa. Ele pode não ficar como uma criança normal mas vai ser um exemplo para todos os habitantes de Vale do Fim ou do sítio em que viver futuramente. Irá ser um cidadão exemplar, irá ser o marido ideal, o empregado do mês e do ano… e tudo com as suas faculdades especiais. – Raul também estava emocionado, podia concluir isso pelas palavras dele.

- O Raul tem razão. Além do Viktor eu também estarei cá sempre do lado do Miguel para o ver crescer e aprender a lidar com as nossas peculiares mutações. Ele nunca será rejeitado da sociedade, ele irá aprender a lidar com isto, Joana. – Disse por fim Artur, também ele afectado pelo mesmo mal de Miguel. 

Quando tudo acalmou Viktor administrou a vacina aos quatro sobreviventes do acidente do autocarro da excursão. Era bom ver a felicidade no rosto daquelas pessoas que estavam a sofrer com tudo aquilo. 

O Projecto MG tinha chegado ao fim. Agora, apenas tinham sobrado os semi-hibridos, e em breve, os híbridos. 

Vale do Fim - Capítulo 16 
Por Ricardo Reis

Vale do Fim | Capítulo 16 (Parte 1) Reviewed by Fantastic on 19:30:00 Rating: 5

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