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Vale do Fim | Capítulo 15 (Parte 2)



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Capítulo 15 - Projecto Falhado (Parte 1)

Alina acordou ansiosa. Ela sempre fora uma mulher ansiosa, mas naquele dia conseguia estar ainda mais. Era o dia em que iria fazer a sua primeira ecografia. Era a primeira vez que iria ver o seu rebento. Sabia que podia não saber se se tratava de um menino ou uma menina, nem se poderia ter problemas de saúde, mas só o facto de olhar para o ecrã e ver a pequena dádiva que Deus lhe concedeu, que não sabia explicar os sentimentos que sentia naquele momento.
            O que a esmorecia era o facto de Artur não estar presente naquele momento especial para a vida dos dois. O investigador queria ir, mas Viktor aconselhou-o a não o fazer. Iria estar uma enfermeira do hospital do concelho para ajudar o cientista e ele achou melhor ela não saber que ele era o pai da criança. Quanto menos se soubesse sobre o menino ou a menina, e os seus pais, mais a criança estaria a salvo.
            Era um momento importante tanto para ela como para ele, mas ele seguiu os conselhos do amigo e não deixou Joel sozinho na investigação. Ela também conhecia bem o caminho para o laboratório, não se iria perder no caminho. Artur também andava atarefado. Andava desanimado por terem passado três meses e ele e o seu colega não terem conseguido uma pista sobre o paradeiro de George. Ela apreciava a persistência que ambos tinham para tentar resolver aquele assunto. Joel ia muitas vezes jantar à sua casa com Artur. Ele não conhecia muitas pessoas, por isso Artur tentava de tudo para que ele não se sentisse sozinho.
            A sala onde ia fazer a ecografia tinha sido improvisada. Viktor não dispunha daqueles equipamentos, por isso teve de ser a enfermeira a trazer tudo numa ambulância. Foi difícil retirar as coisas do hospital, mas August era uma pessoa influente e com inúmeros conhecimentos. Não fora difícil conseguir os equipamentos para realizar aquela ecografia longe do olhar de todos.
            A enfermeira pediu-lhe que se deitasse numa maca que estava ao lado do ecrã. Alina não se sentiu confortável. Tinha sido naquela cama que Artur estivera deitado para comprovar a teoria de Viktor. Mesmo assim deitou-se. Sentiu um pequeno arrepio quando a rapariga lhe passou um gel na barriga.
            - Está frio não é! É frio mas vai ser aconchegante o que vai acontecer a seguir. O teu coração vai derreter-se. – Disse a enfermeira esboçando um sorriso. Estava a tentar acalma-la por ter percebido que ela estava nervosa.
            As lágrimas emergiram nos seus olhos quando o ultrassom começou. Começou a ver as imagens a preto e branco do seu rebento. Olhando mais atentamente, não queria acreditar no que estava a ver.
            - Não vais ter um filho Alina! Vais ter dois! – Declarou Viktor quebrando o silêncio. E parecia estar tão feliz quanto ela. Ficou eufórico quando percebeu que não havia apenas uma criança no embrião, mas sim duas. Ainda não eram crianças, ainda estavam num estado muito embrionário, mas os órgãos vitais já estavam em pleno funcionamento.
            - Ouves este som Alina?! – Perguntou a enfermeira.
            E Alina ouvia. Ouvia o bater de dois corações. Ouvia o bater de duas vidas que se formavam dentro de si. Pensar nisso fazia-a sentir na mulher mais sortuda do mundo. As coisas pareciam estar a recompor-se. Finalmente parecia ter encontrado a sua paz. Finalmente tinha encontrado uma família.
            - Tira uma foto, Viktor. Quero mostrar ao Artur! Quero que ele veja com os próprios olhos os seus filhos.
            Viktor obedeceu, mas a enfermeira disse que não precisavam de tirar fotos, ela mesma iria dar uma fotografia e o vídeo da ecografia. Ela poderia assim mostrar a quem quisesse. Ela delirou quando o soube. Estava extasiada com tudo aquilo que lhe estava a acontecer.
            Quando terminaram Viktor ficou a ajudar a enfermeira a levar os equipamentos para a ambulância que tinham trazido. Alina pegou no telemóvel e telefonou a Artur. Tinha de lhe contar o que estava a acontecer, mas ela não queria dizer pelo telefone.
            - Vem jantar lá a casa! Quero mostrar-te uma coisa! – Disse-lhe apenas.
            - Já sabes se é um rapaz ou uma rapariga? – Foi a primeira pergunta que ele lhe fez. Ele estava mais curioso que ela em relação a esse aspecto.
            Ela não lhe disse nada sobre o sexo do bebé, afinal também não o sabia, isso ficaria para uma próxima ecografia, se eles deixassem ver, disse-lhe apenas para se deslocar até ao seu apartamento dizendo que ia gostar do que tinha para mostrar.
            Foi para casa e preparou o prato preferido do seu namorado. Eram cada vez mais próximos um do outro. O evento ocorrido há três meses ainda os juntara mais. Embora insana, aquela fora a maior prova de amor que um homem lhe podia dar. Escolhê-la para o matar porque se tinha de morrer que fosse às mãos da pessoa que mais amava no mundo.
            Depressa chegou a hora do jantar. Alina esperava à janela para ver Artur estacionar à porta do prédio. Quando o viu foi-se olhar ao espelho. Arranjou os cabelos e meteu a mão na sua barriga. Sorriu ao fazer esse gesto. O que estava a sentir naquele momento era inexplicável, impossível de exprimir por palavras. Era realmente algo único e mágico, que durante anos pensou nunca sentir.
            Quando abriu a porta viu que Artur trazia uma garrafa de vinho consigo. Cumprimentou-a com um caloroso beijo e de seguida perguntou porque razão não lhe dissera nada da ecografia pelo telemóvel.
            - Primeiro vamos jantar. E livra-te de falares do assunto durante a refeição! – Disse Alina radiante, deixando Artur ainda mais curioso do que já estava.
            Alina nunca tinha visto Artur comer tão rapidamente. Isso fê-la esboçar um sorriso no rosto.
            - Tem calma, o mundo não vai acabar! Come mais devagar. Afinal de contas só daqui a seis meses é que o vais ter nos braços!
            - Sabes que isto está a ser uma tortura para mim! Podias-me contar já o que o Viktor e a enfermeira te disseram na ecografia. Estás a matar-me por dentro sabes disso?! E para matar já me chegou aquela vez há três meses.
            Alina atirou-lhe com um pano de cozinha e riu-se. Agora que tinha passado algum tempo depois do sucedido ela até sorria por saber que tudo aquilo não passara de um susto.
            Artur era guloso por natureza, mas naquele dia nem quisera sobremesa, tudo o que queria era apenas ver o que Alina tinha preparado. Por isso ajudou-a a levantar a mesa e a por a loiça na máquina.
            Chegara a altura que ela tanto ansiava. Talvez até mais que ele. A altura de mostrar a Artur o vídeo da primeira ecografia do seu pequeno rebento. Pegou num dvd e colocou-o no leitor.
            - O que é isso? – Perguntou Artur curioso. – Disseste que tinhas uma surpresa e estás a pegar num filme de acção! – Disse Artur ao ver a capa do filme. Alina sabia que era o tipo de filme preferido dele, assim a surpresa iria ser maior.
            Não lhe respondeu, carregando apenas no Play. Foi aí que as imagens a preto e branco surgiram no ecrã da sua televisão. Pela primeira vez estava a ver Artur tão emocionado que até deixara escapar uma lágrima.
            - Ouves! É o bater do coração! – Declarou Alina ao olhar para ele, enquanto Artur estava fixado na televisão.
            - São dois! Nós vamos ser pais de gémeos?! – Artur estava eufórico com a notícia.
            - Sim, parece que vamos ter trabalho a dobrar. Daqui a uns tempos vamos ter aqui dois pestinhas a correr pela sala e a chamar-te de papá! E tu babado com isso!
            Artur pegou nela e rodopiou. A família ia aumentar e a sua felicidade também. Tudo parecia estar a voltar a ser como antes do acidente, só faltava não ter mais mutações genéticas no seu corpo para se sentir normal, era o que Alina achava naquele momento.

  Vale do Fim - Capítulo 15
Por Ricardo Reis



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