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Vale do Fim | Capítulo 15 (Parte 1)

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Capítulo 15 - Projecto Falhado (Parte 1)
 Três meses se haviam passado desde que Viktor anunciou que iria começar a focar-se na cura do Projecto MG. Desde aí que nunca mais tinha dito nada sobre o assunto. Não saber mais desenvolvimentos sobre o processo estava a desesperar Edgar. Cada vez mais o rapaz vivia isolado na solidão do seu quarto. A televisão e a internet passaram a ser as suas melhores amigas. Sempre fora um rapaz cheio de energia, cheio de vontade de fazer caminhadas, de jogar futebol, praticar desporto.
            Parecia longínquo o dia em que dera o último pontapé numa bola. Tinha medo de chegar de uma ponta à outra do campo em cinco segundos e não saber como explicar o que eles tinham acabado por presenciar. Para ele aquelas coisas só aconteciam nas bandas desenhadas ou nos filmes de super-heróis. A vida real era diferente, pelo menos era o que ele e o seu círculo de amigos pensavam. Agora encarava a sua vida de outra maneira.
            Agora tinha medo de fazer a sua vida normal, medo de ser encarado na rua. Os encontros semanais proporcionados por Artur e Viktor tentavam ensinar ao máximo formas que os fizessem ter uma vida normal, mas às vezes as coisas eram muito mais simples na teoria do que na prática. Conseguia andar normalmente, mas quando ficava mais nervoso sentia a sua mão tremer rapidamente e tinha medo de sair de perto dos seus amigos a correr numa velocidade furiosa que nem um carro de fórmula 1.
            O mesmo acontecia quando estava próximo da rapariga por quem tinha uma paixoneta. Antes de tudo acontecer ele passava horas com ela depois das aulas. Foi com ela com quem teve a sua primeira relação sexual. A adolescência é um estágio da vida onde se é muito curioso, onde experimentar coisas novas seja quase o que move cada um dos comuns mortais que habitam nesta terra sem dono, embora alguns pensem ter algum domínio sobre ela.
            A relação com aquela sua amiga não era apenas sexual, era muito mais que isso. Ela era uma das suas maiores confidentes. Até ao acidente. Depois disso, o seu melhor amigo passou a ser outro. Pegou no seu telemóvel e foi até à sua lista de contactos. Clicou num número e fez uma chamada.
            - Estou, Artur! Preciso de falar contigo. Vais almoçar no centro da vila? – Questionou-o quando atendeu o telemóvel.
            Quando ouviu a resposta afirmativa do investigador da polícia, tomou um banho e vestiu-se. Aproveitou que a sua mãe também se ia deslocar para a sede de concelho e pediu-lhe boleia.
            - Edgar, passasse alguma coisa contigo? Andas estranho desde que o acidente ocorreu. É do teu tio que sentes falta é isso? Não te podes restringir ao teu quarto. Tens de voltar a viver. – Disse-lhe a mãe, quebrando o silêncio perturbador que se vivia no carro.
            Edgar não contara aos seus pais o que se passara no autocarro antes do acidente, sentia vergonha daquilo que lhe fizeram. Odiava quem lhe tinha feito aquilo. Todos gostavam de Viktor. Todos excepto ele. Ele não suportava olhar para a cara dele. Se não fosse ele e a sua equipa ele ainda podia ser uma pessoa normal, fazer as coisas de um adolescente comum sem ter medo de fazer algo fora do normal. A excursão podia ter corrido bem, no dia seguinte estariam em casa e ele iria estar a fumar, a beber e a ter sexo como um adolescente que gosta de viver. No fundo era o que ele queria, viver a sua vida. Naquele momento não vivia, apenas sobrevivia.
            - Estou bem! Sinto a falta dele, mas quem não sente! – Disse Edgar, depois de um longo período em silêncio. – Eu é que o convenci a ir naquela excursão, ele só foi porque eu queria mesmo ir. Isso magoa-me! – Declarou. Em parte era verdade, muito do seu sofrimento também vinha desse pormenor, mas não era tudo.
            - Não te podes culpar pelo que aconteceu a ele. Sabes o que se diz na igreja. Estava na hora dele. Nenhum de nós é capaz de fugir ao seu destino. Se escaparmos de alguma forma ele volta e compõe as coisas! – Divagou a mãe.
            Aquelas palavras fizeram-no pensar. Seria o seu destino tornar-se num mutante. E se ele fosse curado? O destino iria de alguma forma recompor as coisas e torná-lo novamente num mutante?
            - Eu sei mãe. Eu não me culpo, vou tentar não me culpar! – Disse, numa tentativa de não ter de falar mais durante o que restava da viagem.
            Quando chegou ao centro da vila mandou uma mensagem ao seu amigo Artur a dizer que o ia esperar no restaurante. Não demorou muito até ele chegar. Era hora de almoço por isso o restaurante tinha algum movimento. Edgar tinha vergonha de falar do que aconteceu em público, em grandes aglomerados, mas tinha de falar, precisava de falar.
            - Como estás puto! – Saudou Artur. – Desculpa ter-te feito esperar, mas eu e o Joel andamos a tentar descobrir mais sobre o que aconteceu no acidente. Está difícil de descobrir o George! Ele não deixou vestígios em nada. É um mestre!
            Edgar tinha uma opinião formada sobre os verdadeiros criminosos do acidente. Eles eram todos os membros do PastFuture. Nada lhe tirava da cabeça as suas teorias, uma delas era que até August e George estivessem os dois a trabalhar juntos e a criar esta manobra de diversão para manter a polícia ocupada e eles criarem novas experiencias loucas.
            - Não faz mal! Só te chamei aqui para saber uma coisa. O Viktor já te disse alguma coisa em relação à cura? Sei que vocês os dois têm uma cumplicidade que ele não tem com mais nenhum dos sobrevivente. Quer dizer, tem com a Eva, mas as coisas entre eles são diferentes. Quer dizer pelo menos eu espero que não te estejas a enfiar na cama com ele! – Troçou Edgar para aliviar um pouco o clima que estava a ficar demasiado pesado.
            Artur bateu-lhe de leve no ombro e depois começou a rir-se. Riram os dois. Por momentos conseguiu esquecer que a sua vida tinha mudado. Já não se ria assim há quatro meses. Era bom sentir-se assim, era bom voltar a viver. Mas ele não podia viver confinado aqueles que apenas sabiam das suas modificações. Ele não queria estar restringido a um círculo de pessoas, ele queria abrir horizontes.
            O seu sorriso voltou a esmorecer. Isso fez Artur voltar a falar.
            - O Viktor vai conseguir, pode demorar mais um mês, dois, três, mas ele vai conseguir, não desanimes, ele vai voltar a trazer a tua vida de volta!
            - E se não conseguir? O que farei à minha vida se ficar assim para sempre?
   
Vale do Fim - Capítulo 15
Por Ricardo Reis



Vale do Fim | Capítulo 15 (Parte 1) Reviewed by Fantastic on 19:30:00 Rating: 5

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