Top Ad unit 728 × 90

Últimas

recent

Vale do Fim | Capítulo 14 (Parte 1)


Também disponível no Wattpad em http://goo.gl/uVVbsb

Vale do Fim | Capítulo 14 - Cura em Desenvolvimento (Parte 1)

Enquanto Raul dava a missa olhava para a sua plateia cheia de devotos. Pessoas crentes em Deus. A maior parte pessoas mais velhas, os novos, esses, estavam a perder cada vez mais a crença em seres divinos. Há uns tempos isso desiludia Raul, sentia-se desgostoso pelos mais jovens estarem a perder algo tão importante culturalmente, a religião, o contacto com Deus. Agora, a olhar para todos aqueles indivíduos que o ouviam a citar versículos bíblicos, pensava em como eles podiam aceitar que tudo aquilo era verdade!
            Naquele momento, Raul não sabia se ainda era tão devoto a Deus como fora em tempos. Um mês fê-lo mudar por completo a sua perspectiva de vida. Como podia acreditar que Deus era o criador do Céu e da Terra e fez o homem à sua imagem se um mero ser humano foi capaz de alterar fisiologicamente o seu corpo? Como seria possível continuar a espalhar a palavra de Deus e dizer que só ele controla a vida de todos quando um indivíduo modificou completamente a sua.
            - O corpo de Cristo! – Dizia na altura em que dava a hóstia. Os devotos diziam “Ámen” e recebiam aquele simbolismo, realizado pela igreja católica para relembrar a ressurreição de Jesus Cristo, o único homem que tinha ressuscitado. Pelo menos até há um mês atrás. Jesus Cristo demorara três dias a fazer o que Miguel fizera em um. Seria Miguel a sua reencarnação? Raul apostava mais em mais uma experiencia ciêntifica.
            Acabada a missa, os crentes começaram a sair. Raul ficara pelo altar a limpar o cálice que há minutos atrás continha o vinho que representava o sangue da eterna aliança, o sangue de Cristo. O nascimento dele criou uma religião, um movimento que moveu milhares de pessoas e ainda movia uma legião. Isso fazia Raul questionar-se o que aconteceria se aquele grupo de ingleses criasse um bebé a partir dos seus experimentos. O que seria ele? O fim da crendice dos comuns mortais ou o inicio de uma religião maior ainda, a Ciência. 
            Raul ficou ali nos seus devaneios. Pensava em como a Ciência e o Cristianismo ou qualquer que fosse a religião eram semelhantes. Havia muito de comum entre as duas. Ambas tentavam responder às mesmas perguntas, embora usassem técnicas diferentes na sua abordagem. Enquanto a religião declarava que todo o destino estava traçado, que todos os mortais estavam na Terra com uma determinada missão, a ciência tentava arranjar as respostas de através de factos concretos.
            Sentou-se num dos muitos bancos que compunham a igreja e olhou para Cristo pendurado na cruz. O homem que morreu para nos salvar! Lembrou-se dos tempos de adolescente. Não era velho, mas esses tempos já iam longe. Sempre se sentiu atraído pelos rituais católicos de uma família bastante ligada à igreja. A sua mãe ficara radiante quando ele lhe dissera que iria seguir para o celibato. Agora, com trinta e alguns anos estava sendo posto à prova. Primeiro os desejos carnais, depois o acidente e a mudança de paradigmas na sua vida. Como iria continuar a acreditar e a ser padre se estava a ter um caso com uma mulher e era alguém que se fosse descoberto era uma aberração?
            Envolvido nos seus pensamentos nem deu por Joana entrar. Assustou-se quando ela lhe falou.
            - O Artur apareceu! – Disse a rapariga. Estava aliviada. Há quase uma semana que ninguém sabia do seu paradeiro. – Ele não quer dizer o que lhe aconteceu, diz que quer que nos reunamos todos logo à tarde no café, parece que ele e o Viktor têm algo a dizer.
            Raul ouvia-a mas estava a ficar cansado de tudo aquilo. Sabia que vinha mais alguma história visionária, algum anúncio excêntrico que podia novamente mudar o rumo das coisas. Ele já estava por tudo, já nada lhe parecia surpreender. Olhou para a rapariga.
            - Senta-te aqui ao pé de mim! – Pediu-lhe. – Preciso de ter apoio… preciso do teu apoio.
            Joana ficou surpresa com aquele pedido. Pareceu-lhe arrojado. Mesmo assim foi sentar-se ao lado dele. Raul colocou-lhe a mão em volta do pescoço.
            - O que estás a fazer?! Se alguém entra e nos vê aqui assim! – Joana parecia-lhe um pouco perturbada com aquilo. Afinal ele ainda era o padre e ela a beata.
            - Chega de fingir que eu não tenho sentimentos por ti! Chega de fingir que tudo é preto e branco quando vivemos num mundo cinzento. 
            Joana ficou a olhar para ele. Até ele mesmo ficou surpreendido com as suas palavras. Saíram-lhe sem ele se aperceber. Ele não sabia o que sentia, às vezes pensava que era amor outras vezes achava que era apenas tesão. Um padre era um homem. Mesmo vestindo a batina e tentar cumprir o celibato, ele tinha os mesmos impulsos, as mesmas necessidades que um cidadão comum.
            - Ouviste bem o que acabaste de dizer?! Tu estás a dizer que queres mais algo de mim que não sexo? Tu tens mais desejos além de carnais?!
            - Até Jesus Cristo precisou de uma mulher ao seu lado! Não sei em que acreditar, não sei mesmo? E se Jesus foi realmente casado e teve filhos? Qual é o mal disso? Todos nós somos homens, até o filho de Deus. Eu irei renunciar, eu vou deixar de ser padre até saber no que acredito! Não estou com capacidades para continuar a fazer isto, preciso de novos horizontes, preciso de conhecer ainda melhor o mundo em que vivemos. E não o quero fazer sozinho, quero fazê-lo contigo! Mal consigamos eu quero sair daqui, andar pelo mundo, deixar a aldeia para trás. Quero esquecer tudo isto!
            Joana parecia-lhe surpresa e emocionada. Raul sabia como ela tinha sofrido por causa do pai de Miguel, ela não merecia sofrer mais. Ele sabia que todo aquele romance tinha começado apenas por um motivo, a carência por parte dos dois. Desde que chegara até Vale do Fim que sempre olhara para Joana, ela fazia-o sentir-se diferente. Às vezes, durante as missas, citava as frases bíblicas a olhar para ela. Os seus desejos poderiam não ser aqueles que tinha naquele momento mas sempre foram promíscuos perante o seu estatuto. Até pouco antes do acidente ele vivia entregue a Deus, depois vieram as mulheres, as noitadas, o sexo sem compromisso. Isso fez tumultos entre as pessoas mais religiosas. Depois o acidente, o acidente que mudou toda a vida dele, que lhe mostrou que não é apenas Deus que pode comandar a vida de todos, alguns humanos também poderiam.
            - Não podemos ir embora, não podemos abandonar Vale do Fim! Pelo menos por agora. Eu queria fazer-te surpresa, mas vou levantar um pouco do véu sobre o que o Viktor quer falar connosco. Ele diz que pode chegar à cura! Ele pode tirar-vos os efeitos do soro do corpo! Tu podes voltar a ser normal, tu vais voltar a sê-lo!
            Raul ficou surpreso e radiante com a noticia. Nem se importou de estar na igreja e beijou-a. Ele sabia o que queria.

Continua...

 Vale do Fim - Capítulo 14
Por Ricardo Reis


Vale do Fim | Capítulo 14 (Parte 1) Reviewed by Fantastic on 19:30:00 Rating: 5

Sem comentários:

All Rights Reserved by Fantastic - Mais do que Televisão © 2014 - 2015
Powered By Blogger, Designed by Sweetheme

Formulário de Contacto

Nome

Email *

Mensagem *

Fantastic. Com tecnologia do Blogger.