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Vale do Fim | Capítulo 13 (Parte 1)


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Capítulo 13 - Um Suicídio Encomendado (Parte 1)


Duas semanas antes de Alina alvejar Artur
            Viktor bateu à porta do escritório de August. Vinha em êxtase com o que tinha descoberto e precisava de contar ao seu superior todas as novidades que tinha. Trazia na mão um envelope.
            Entrou assim que o homem que o comandava lhe deu autorização. August estava acomodado na sua poltrona olhando para o seu computador pessoal. Parecia bastante envolvido naquilo que estava a ver no ecrã, mas Viktor precisava de o interromper, tinha algo para lhe contar que poderia mudar tudo, uma coisa que desconheciam quando lançaram o vapor do soro de cobra e crocodilo no autocarro da excursão.
            - Desculpe interromper August, mas chegaram os exames do Miguel e… é melhor ver com os seus olhos! – Entregou-lhe o envelope.
            - Estas análises foram feitas na altura do acidente? Ou são mais recentes? – August estava intrigado ao ver os resultados daqueles exames.
            - Foram feitos na noite em que ele foi para o hospital inconsciente. A enfermeira tirou o sangue mesmo sem ele ter os sinais vitais! Os exames foram realizados no dia seguinte, quando miraculosamente voltou a acordar! – Esclareceu Viktor.
            O jovem cientista sabia como estaria a mente de August a ver aqueles resultados. Questionando-se como eram possíveis aqueles valores. Aconteceu-lhe o mesmo quando os abrira logo de manhã. As análises e os exames mostravam um organismo completamente regenerado, um organismo completamente mudado, um organismo que estaria exposto ao soro há mais de duas semanas e não como dois dias. Aqueles resultados só teriam sido obtidos nas análises dos outros sobreviventes se as analises se realizassem naquele momento, mas por alguma razão o sistema de Miguel estava completamente envolvido no Projecto CM.
            - Como podemos esclarecer isto? Qual a explicação plausível para isto ter acontecido? Em ratos isto não acontecia tão depressa. Aliás, em mais nenhum dos outros isto aconteceu.
            - Acho que isto prova que embora os ratos sejam praticamente idênticos geneticamente a nós, o Projecto CM actua de forma diferente em nós. A razão mais plausível para isto ter acontecido deve-se ao sistema imunitário do pequeno Miguel ser muito menos resistente que os outros.
            August acenou com a cabeça em concordância. Tal como ele, devia saber o que o sistema imunológico de uma criança era muito menos resistente que o de um adulto, daí as crianças adoecerem com muito mais frequência que os indivíduos com maior idade.
            - O que me estás a querer dizer é que o vapor actuou de imediato no corpo do Miguel é isso? – Perguntou August para saber se estava a seguir bem o raciocínio.
            - Isso mesmo! O Projecto CM alterou o rapazito assim que ele respirou o vapor. E assim podemos deduzir que foi isso que o fez ressuscitar. Ele morreu, o seu coração parou por alguma razão, disso não temos dúvidas, o óbito foi declarado ainda no local. Mas o coração dele e o cérebro estavam intactos. De certa forma o soro tem o poder de regenerar não só as feridas mas também órgãos.
            August olhou novamente para as folhas que Viktor lhe entregara. Para o jovem cientista ele ainda parecia muito confuso. Era uma história difícil de digerir. Nunca nenhum rato exposto ao soro conseguiu regenerar um órgão e voltar a viver.
            - Pediste acesso ao relatório da morte dele? – Questionou-lhe o velho.
            - Sim. O pequeno Miguel foi perfurado pela janela partida do autocarro. Os médicos retiraram o pedaço de vidro da sua barriga! Antes de vir falar consigo eu fui até casa da Joana e apanhei-o antes de ir para a escola. Vi-lhe a barriga. Ele não tem nenhuma cicatriz, nenhuma marca da perfuração. Ele foi completamente regenerado. Por essa razão mais nenhum dos outros ressuscitou, o soro não conseguiu fazer efeito a nenhum devido ao seu sistema imunitário ser mais resistente e o Projecto MG não ter feito logo o efeito, tal como aconteceu aos outros cinco.
            August ouviu o rapaz atentamente. Era algo um pouco difícil de assimilar mas era a única explicação para o que acontecera com Miguel. Nunca ninguém ressuscitara dos mortos, o rapaz não era diferente dos comuns mortais. Olhou para outra coisa que ainda vinham nas análises aprofundadas.
            - Reparaste nos níveis de testosterona?
            - Sim, como não iria reparar. São elevados demais até para um adulto, quanto mais para uma criança da idade dele. Essa é a razão da sua força, ele é mais forte que os outros porque de certa forma ele não é apenas um individuo do Projecto MG, ele é… - Foi interrompido por August.
            - Um Híbrido! – Concluiu August.
            - Não diria um híbrido, o sangue dele não tem certas proteínas encontradas no corpo de um híbrido. E claro, não pode ser controlado por ninguém. Ele é um semi-híbrido, pelo menos é essa a melhor definição para o que ele é.
            - Como comprovaremos se esta nossa teoria está certa? – Questionou August. – É preciso comprovar-mos estas hipóteses, ajudaria imenso saber se o Projecto MG pode ou não ter essa tal variação.
            Viktor colocou uma expressão séria antes de falar. O que tinha a dizer era complicado, mas era a única solução.
            - Temos de matar um dos outros cinco sobreviventes! Só assim saberemos se aquilo que pensamos realmente é o correcto. – As palavras custaram sair-lhe da sua boca.
            - Só vejo uma pessoa capaz de fazer isso! O Artur é o mais destemido do grupo, ele é o único a quem pudemos pedir uma coisa dessas. Mas não é fácil pedir para se matar. Vai ser uma conversa difícil! Ele e a Alina vêm hoje aqui ao laboratório para eu falar com eles! É a minha oportunidade de lhe falar disso sem que a Alina se aperceba.
            - Como é que ela não se vai aperceber se estará aqui? – Questionou Viktor confuso.
            - Porque estará a fazer exames para saber se está grávida ou não. Tu tens de saber isso antes de fazermos o que quer que seja ao Artur. Ele não pode morrer sem gerar uma criança, sem gerar o híbrido.
            - Tem razão August! – Concordou Viktor.
            Sem mais assuntos a tratar o rapaz pegou nos papéis e voltou a colocar no envelope. Foi para o seu pequeno gabinete e olhava para os dados que tinha no seu computador. Levantou-se e deslocou-se até a um aquário que estava numa escrivaninha. Observou o rato morto que ela continha. Estava morto há dois dias, o mesmo tempo em que tinha recebido os resultados que divulgara a August. O rato não regenerara o órgão que ele perfurara com uma pequena navalha, embora a pele tenha cicatrizado mesmo depois de morto. Isso deixava-o receoso em fazer alguma coisa a qualquer um dos outros sobreviventes. Se Miguel fosse um caso isolado? Cada organismo poderia reagir de forma diferente ao soro. Marília ainda não tinha apresentado sintomas de ter mudado geneticamente. Sentia medo de matar um inocente e tudo em nome da ciência. Seria a ciência mais importante que uma vida humana? Viktor sentia-se um monstro só de pensar no que podia fazer a ele e principalmente a Alina, que iria ficar destroçada com o desaparecimento repentino do seu mais que tudo.
            Estava a almoçar no pequeno refeitório, quando viu Alina e Artur. Deviam estar a dirigir-se até ao escritório de August. Estava quase na altura dele entrar em acção e retirá-la de lá para que August pudesse dizer o que havia para dizer da maneira mais fácil, se é que essa maneira existisse. Deu por si a pensar como seria se estivesse no lugar dele. Ser ele quem tinha de morrer para provar uma experiencia científica. Sentia-se aterrado só de pensar nisso. Como podia pedir algo assim a uma pessoa por quem sentia uma grande empatia. Ele conhecia-o, conhecia todos os elementos daquele projecto mesmo antes deles o conhecerem. A partir do momento em que os trinta viajantes compraram os bilhetes para irem na excursão que Viktor e o resto da equipa os começaram a estudar. Conheciam as suas rotinas e vícios. Conheciam as suas vidas ao mais ínfimo pormenor. O objectivo era criar uma nova raça os híbridos, mas o acidente aconteceu e a maior parte não sobreviveu, ficando apenas seis. Ele ligou-se a cada um deles, agora era difícil despegar-se.
            Sempre naufragado nos seus pensamentos Viktor bateu à porta do escritório de August. Trazia consigo alguns papéis para não parecer suspeito estar a bater à porta sem motivo aparente.
            - Ainda bem que ainda aqui estão! – Disse Viktor. – Alina, podes vir comigo até ali ao meu laboratório, preciso de uma confirmação acerca da análise ao sangue que fizeste na semana passada.
            Alina seguiu-o até ao seu pequeno laboratório. Ela sempre lhe pareceu aquela rapariga inocente que ele conhecera há cinco anos. Isso fazia o sorriso forçado que fez quando entrou no gabinete de August desvanecer. Como iria reagir aquela rapariga, sua amiga, ao desaparecimento daquele que era agora um dos indivíduos mais importantes da sua vida. E se ele estivesse errado e ele não retornasse dos mortos como Miguel. Ele nunca mais seria capaz de a olhar nos olhos novamente. Não depois de ser culpado pela sua maior dor.
            - Passa-se alguma coisa com as analises que fiz? Encontraste alguma coisa? É grave? – Bombardeou Alina. Parecia preocupada, tinha receio que alguma coisa estivesse errada.
            - Existe apenas uma coisa que quero esclarecer. Mas antes de fazer o que quer que seja responde-me apenas a uma coisa. Há quanto tempo devia ter vindo a tua menstruação?
            Alina ficou surpresa com a questão levantada pelo jovem cientista, não estava à espera daquela pergunta.
            - Não contei a ninguém sobre o atraso, como sabes disso?
            - Algo nas tuas análises mostraram-me que podias estar grávida. É isso que vamos verificar agora!

Continua...

 Vale do Fim - Capítulo 13
Por Ricardo Reis


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