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Vale do Fim | Capítulo 9 (Parte 3)

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Capítulo 9 - O Regresso (Parte 3)

Olívia chegou-se à frente assim que Artur terminou o seu discurso. A sua cabeça latejava. Tinha-se deitado tarde, depois de beber praticamente uma garrafa de vinho do Porto. Estava a ressacar. A bebida era o seu refúgio desde que o marido desaparecera. Começara por beber um copo enquanto assistia a um programa de televisão na solidão do seu lar. A bebida tornou-se a sua melhor amiga, queria tentar parar mas não conseguia. Um mês depois do seu marido ter saído de casa um copo já não a saciava. Um copo levava a outro e o outro a um seguinte. Era um ciclo vicioso. Naquela altura já não conseguia parar, já não conseguia viver sem aquilo, era uma alcoólatra. Precisava de ajuda, precisava do seu filho e do seu marido, precisava voltar a ter aquele porto seguro que tivera em tempos de que agora já nada restava a não ser recordações. Recordações amargas como o tinto, que a faziam chorar enquanto o seu vinho a consolava. Quando o acidente ocorreu voltou a pensar na vida, a pensar naquilo que se estava a tornar. Era certo que Deus, ou qualquer que fosse a entidade que estivesse a cuidar dela naquele momento, a tinha salvo. Ela fora uma das seis, em trinta pessoas, que sobrevivera, era altura de dar uma reviravolta à sua vida. Até veio à sua memória as palavras do seu ex-marido, ou marido, afinal de contas eles não estavam divorciados, Lourenço desapareceu do dia para a noite sem dar qualquer tipo de justificações. Ele avisara-a para não ir naquela excursão, ele disse para ela não ir. Isso fê-la voltar a beber, não suportava a ideia de que o seu marido estivesse envolvido num crime tão bárbaro como aquele que presenciara.
E ali estava Olívia, a olhar para praticamente toda a aldeia, a olhar para aqueles que tinha vergonha de encarar. Olhava para eles e pensava em como discursar na morte de alguém que poderia ter sido morto pelo seu marido. Só por essa razão não conseguiu segurar as lágrimas, elas caíram-lhe subitamente, mesmo antes de proferir a primeira palavra.
- Ao olhar para este cenário, eu… eu não consigo conter as lágrimas! – Disse depois de ter estado algum tempo em silêncio, apenas olhando para os habitantes. – É claro como a água que nestes últimos tempos não tenho sido a pessoa mais pacata e comunicativa da aldeia, mas têm de entender a minha situação, a minha vida mudou e a semana passada voltou a mudar! Mas desta vez mudou para todos nós. Perdemos pessoas com as quais tínhamos alguma afinidade. Perdemos pessoas com quem amávamos rir e quem adorávamos abraçar quando as víamos chorar. O Senhor Martins, o primeiro homem aqui a ser sepultado esta manhã foi como um pai para mim, morava ao lado da casa onde eu cresci. Como o Artur disse há momentos, ele levava os excedentes até nós para que nenhum de nós passasse fome, ele era cauteloso e generoso, ele era o homem com que todos os outros deviam aprender. E o seu fim foi triste, o fim de todas estas pessoas foi triste! Não sabemos se o que houve ali foi um acidente ou algo planeado por alguém mas se o foi que apanham quem fez isto, façam pagar pelo que aconteceu a eles! Nós não esquecemos, eles não podem morrer em vão, nós não esquecemos!
Depois do funeral, Olívia dirigiu-se para casa e não saiu de lá. O discurso que teve de fazer foi o mais difícil que fez na sua vida. Sentiu-se desesperada ao dizer tudo aquilo. Abriu uma garrafa de vinho e sentou-se no sofá, iria ser mais um dia igual a tantos outros que tinha naquela altura. Até que alguém bateu à porta.
Olívia estranhou estarem a bater à porta àquela. Era tarde e quase ninguém andava pela rua depois das vinte e três horas. Assustada, dirigiu-se silenciosamente até à porta olhando pelo óculo da porta. Estremeceu ao ver quem estava a bater tão persistentemente. Abriu.
- Lourenço?! – Tremeu ao dizer isto. – O que estás aqui a fazer? 
- Vejo que mudaste a fechadura da porta! – Constatou o homem. – Queria ver-te Olívia, queria ver como estás.
- Querias ver como eu estou? Querias, meu cabrão! – O álcool já se impunha a ela.
- Olha para ti Olívia. Tão bêbeda! Eu disse-te para não entrares naquele autocarro, eu sabia que ia acontecer, mas tu és louca, sempre o foste. Curioso como te meteste na bebida assim que eu me fui embora, sem saberes estiveste a salvo das modificações genéticas. Deves perguntar-te várias vezes porque razão os outros já sentiram modificações e tu não!
Naquele momento Lourenço tocou num assunto extremamente importante. Na primeira sessão que os sobreviventes tiveram no café de Joana ela foi a única que não relatou nada de estranho com o seu corpo. Os outros conseguiam movimentar-se rapidamente mas a sua velocidade era a normal. Nesse dia, quando chegou a casa, cortou o seu dedo polegar e a sua pele não se tinha regenerado deixando-a completamente desnorteada. Se ela tinha sido exposta ao soro tal como os outros cinco porque razão ela nunca tinha sentido nada. A única coisa que sentia eram enxaquecas que teimavam em não passar. 
- O álcool Olívia, o álcool retarda o efeito do vapor de veneno de cobra e crocodilo. Por essa razão é que tu és a única que não tem qualquer tipo de efeitos tal como os outros. Eu não estou aqui para te fazer mal Olívia, nem a ti nem a nenhum dos outros sobreviventes. Estou aqui para vos ajudar.
- Piadas destas a esta hora da noite? Tu e a tua pandilha fazem o autocarro despenhar-se e depois chegam aqui e dizem que nos querem ajudar? És mesmo muito cara de pau para me dizeres uma coisas dessas!
- Antes de sair de Vale do Fim, antes do Joaquim assumir a presidência, fui procurado por um homem. Ele chamava-se George e pertencia a uma organização mundial, a DGC. A DGC significa Deus, God e Ciência. Interessante a palavra Deus e Ciência na mesma sigla. São o oposto uma da outra. A religião crê numa entidade que criou o mundo, a ciência colecta provas que expliquem como tudo isto foi criado. Mas o DGC é isso, eles explicaram-me o conceito. É a ciência a querer ser Deus. É nisso que eles acreditam, acreditam que vão criar uma nova raça, os híbridos! 
Híbridos! Já não bastava toda a confusão do suposto projecto em que estava inserida o seu marido ainda lhe estava a tentar explicar outro.
- Chega! Não quero ouvir mais nada! Sai daqui, sai daqui Lourenço. Sai da minha vida, tu esse tal George e essa organização a que pertencem. Achaste bem matarem vinte e quatro pessoas?!
- A nossa intenção nunca foi matar ninguém, mas alguém tinha de parar o August e o Joaquim! Eles não podiam concluir o projecto CM, pelo menos expor tantas pessoas a ele. Eles só deviam ter exposto uma pessoa, não um monte delas. Eles foram os causadores disto tudo.
- O Joaquim? Onde foste buscar a ideia de que o Joaquim está envolvido nisto tudo? O Joaquim tinha o neto no autocarro, achas que o iria expor a isto? Achas que quereria que ele tivesse mutações.
- O Joaquim, o lunático Joaquim. Sedento pela nova raça, sedento para que o neto tivesse o futuro traçado na vanguarda da humanidade, saiu-lhe o tiro pela culatra. Queres saber um segredo Olívia. O GDC sabe o que aconteceu com o miúdo, sabe porque ele ressuscitou! De certeza que o Joaquim e o seu amigo não sabem, é demais para eles, e mais, o Joaquim vai sofrer quando souber o que fez com a criança.
Olívia estava mesmo ansiosa por saber o que fizera o pequeno Miguel acordar. Sabia que aquilo não era um milagre, sabia que tinha de haver alguma explicação plausível para o que acontecera e o seu marido tinha-a.
- Queres que te conte não é?! – Disse Lourenço olhando para a sua cara. – Mas não, ainda é cedo, vou deixar que aqueles cientistas de segunda descubram por si. Mas, antes de me ir embora vou dizer-te o que vim cá fazer. Eu tenho a cura, Olívia, eu posso tirar-vos as mutações genéticas do corpo. Tu ainda não as tens mas vão aparecer mais cedo ou mais tarde. Só preciso de uma coisa, que passem para o nosso lado.
- Vosso lado? Nós não estamos do lado de ninguém, tomara que nos deixem da mão. Julgam-se espertos, mas não comigo. Seriamos cobaias vossas, e o que ganhávamos?
- Uma vida calma. O George sabe muito mais sobre o projecto CM do que quem o meteu em prática. Venham para o nosso lado! Se não o fizerem vão ter uma vida completamente degradante, não sabem o que vos vai acontecer com o soro a actuar no vosso corpo anos a fio. Eu sei, eu vi o que aconteceu à cobaia do George.
- George para a aqui, George para ali, mas quem raio é o George? 
- O George Olívia… o George é Deus, aquele que vai dominar o mundo com a nova raça dos humanos. Ele é o criador do DGC e tudo vai mudar quando a organização governar a terra.
- E o Joaquim é que é o lunático? Vocês acham mesmo que iriam governar a Terra? Muito bom! – Olívia soltou uma gargalhada.
- Minha querida esposa, o DGC está em toda a parte, não há um único canto do mundo em que não exista um membro. É só o George ter o primeiro híbrido e tudo vai mudar. E segundo os nossos cálculos isso não vai demorar. E o mais irónico disso tudo é que nós nem precisámos de nos esforçar. Facilitaram-nos tanto as coisas. – Lourenço olhou para o relógio. – Bem tenho de ir, pensa na minha proposta, acho que não queres ter o soro no teu corpo toda a vida! Até um dia Olívia, muito em breve estarei aqui de novo.
Quando Lourenço saiu a cabeça de Olívia parecia estar a explodir. Tanto que ele disse, tanto que ela não percebeu. Ela tinha de contar a alguém da organização mundial, os sobreviventes tinham de saber disso, principalmente da cura, se a organização a encontrou Viktor também a podia encontrar.

Fim do capítulo 9
 Vale do Fim - Capítulo 9 (Parte 3)
Por Ricardo Reis

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