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Vale do Fim | Capítulo 9 (Parte 1)

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Capítulo 9 - O Regresso (Parte 1)

A maior parte dos habitantes de Vale do Fim reuniu-se no cemitério local. Não havia espaço para mais ninguém. Era o último adeus aos vinte passageiros do autocarro que partira para uma excursão para a Serra, mas que nem à fronteira da aldeia com o concelho chegou. Joana era uma alma perdida no meio de centenas de pessoas. Ainda não entendia como o seu filho dado como morto estava ali de mão dada a ela, olhando o seu padrinho pela última vez. Miguel era muito apegado ao homem que completaria trinta e cinco anos no mês seguinte se fosse vivo. Infelizmente não conseguiu superar essa barreira. Miguel era mais forte que ela, olhava para o seu ente querido mas não soltara uma única lágrima, já ela vertera uma quando fecharam o caixão.
Joana aproximou-se de Artur e de uma mulher que não conhecia. Ela não parecia ser dali. Não parecia sequer ser portuguesa. Era estrangeira, tinha ar de ser alguém oriundo dos países do leste da Europa. Quando ela e o seu filho se chegaram perto deles, o investigador da polícia rapidamente a apresentou. Chamava-se Alina, era romena e sua namorada. A primeira impressão que teve da rapariga foi agradável. Recebeu-a com um sorriso no rosto e falou português o melhor que conseguia. 
Artur, tal como Joana, iria proferir as últimas palavras antes dos cinco corpos serem enterrados no cemitério e depois iriam falar no crematório da sede de concelho onde os restantes seriam cremados. Não havia espaço suficiente para sepultarem os corpos de todas aquelas vítimas, por essa razão decidiu-se dar aos mais velhos a sua última morada no cemitério local, enquanto os mais novos iriam ser cremados e as cinzas iriam ser deitadas no jardim de entrada do cemitério. Artur, Joana e os restantes sobreviventes iam dedicar as últimas palavras aos que partiram daquela forma trágica. Joana não era sobrevivente mas era mãe daquele que fora o milagre daquele acontecimento. E dada a idade do seu filho, Joaquim achou por bem que fosse ela a falar ao invés dele.
Foi difícil para Joana e para os restantes sobreviventes chegarem à frente, onde o padre os esperava. Eram mesmo muitas as pessoas que queriam estar naquele último adeus. Joana teve de ir pedindo licença e dar alguns encontrões nas pessoas para conseguir passar. Não largava o seu menino, ele era o seu bem mais precioso, não o queria perder novamente, aquela fora uma bênção de Deus, podia não ter uma segunda oportunidade. Quando lá chegou já Olívia e Raul se encontravam lá. Não era de estranhar o facto de Raul ter sido o primeiro a aparecer, ele era o padre que iria realizar a cerimónia fúnebre.
Raul andava estranho nos últimos dias, o relacionamento secreto entre os dois parecia ter terminado mesmo sem ele ter proferido qualquer palavra. Ainda se lembrava da noite em que ele aparecera na sua vivenda assustado com o que tinha acabado de descobrir sobre as suas alterações. Ele dizia que aquilo tinha sido um castigo que Deus lhe tinha dado devido aos seus pecados dos últimos meses. Ela tinha a certeza que aquilo era apenas uma coincidência. Embora o seu pai fosse muito religioso, Joana nunca o fora, ela era mais crente na ciência, ela é que explicaria um dia todos os mistérios da vida. E fora um experimento científico aquilo que acontecera daquela vez, um experimento falhado, tal como Viktor explicara na primeira sessão de grupo que tiveram na semana anterior no seu café. Embora a ressurreição do seu filho a tivesse feito acreditar nos milagres de Deus ainda era mais adepta da ciência, alguma coisa deveria explicar o que sucedeu com ele.
Edgar foi o único sobrevivente que não compareceu no funeral. Ele andava desnorteado naqueles últimos dias. Joana compreendia a sua situação. Não era fácil conseguir digerir tudo o que estava a acontecer com o seu corpo naquele momento. Havia alterações que o faziam não ter uma vida normal para um jovem da idade dele, era compreensível o que estava a acontecer. Edgar sempre fora um jovem revoltado e agora era-o ainda mais. Artur achava que as sessões em grupo o poderiam ajudar a lidar melhor com a sua vida, mas isso não estava a acontecer e cada vez mais ele se tornava um rapaz agressivo. 
Quando o primeiro o caixão desceu terra abaixo Raul chegou-se à frente e proferiu algumas rezas. Depois disso os sobreviventes chegaram-se à frente um a um. O primeiro a falar foi Artur, seguido de Olívia. O discurso dos dois foi emotivo e fez cair lágrimas a todos os presentes. Quase toda a aldeia conhecia o senhor Martins, o velho pacato da mercearia, a única mercearia existente em Vale do Fim. Fora com grande tristeza que os netos receberam a notícia da sua morte, e, por essa razão, antes de Joana dizer algo sobre aquele homem, eles também quiseram deixar a sua última homenagem, proferindo umas últimas e atirando uma rosa branca e uma rosa vermelha para cima do caixão.
- Eu conhecia muito bem o Senhor Martins! – Começou Joana por dizer quando foi a sua vez de discursar. – Era bem pequena quando os meus pais me mandavam ao pão e eu guardava sempre uns trocos para comprar uma pastilha, mas o senhor Martins nunca me levava o dinheiro por ela, ele oferecia-me sempre. O senhor Martins, uma grande perda para a nossa aldeia… - Ao dizer aquilo não conseguia conter as lágrimas. Não sentia dor só pelo senhor Martins, mas pela maior parte dos que partiram naquela manhã. A dor da partida do padrinho do seu filho era bem grande. - … a nossa aldeia ficou mais pobre, mas ao mesmo tempo mais rica! – Pegou num lenço de papel e enxugou as suas lágrimas. – Este menino que está aqui ao meu lado, o meu pequeno filho, é um milagre. Ele retornou dos mortos um dia depois de estar morto. E não sendo eu a mulher mais crente do mundo acredito que existe muito mais para além da nossa vida na Terra. Estamos de passagem, uma estadia curta neste paraíso infernal. É nestas alturas que pensamos e nos perguntamos o porquê de dar tanta importância a coisas que são completamente irrelevantes, que nos chateamos por coisas completamente absurdas e que no fim de tudo somos reduzidos a pó, ou acabamos numa caixa de madeira! Eu vou para sempre recordar o senhor Martins e todos os que seguiam naquele autocarro que ceifou a vida a tantas pessoas mais deixou a mais importante. Até já senhor Martins.
Os funerais terminaram perto da hora de almoço, por isso Joana só conseguiu abrir o café na parte da tarde. Ao inicio, a hora a seguir ao almoço, apareceram muitos clientes, mas com o avançar do dia os clientes foram desaparecendo até só restar ela. Sozinha no café aproveitou para limpar a máquina de café e perder-se nos seus pensamentos, no turbilhão de acontecimentos que tem sido a sua vida na última semana. Estava tão concentrada que deu um pulo quando ouviu uma voz atrás de si.
- Boa tarde Joana! – Era um velho de cabelo grisalho que estava sentado na mesa mais próxima do balcão. Embora o homem soubesse o seu nome, ela tinha a certeza que nunca o tinha visto. Pelo seu sotaque percebia que não era português. – Desculpa se te assustei, não era de todo a minha intenção. – Disse, expressando um pequeno sorriso.
- Foi um pequeno susto, não teve importância alguma, não se mace com uma coisa dessas. O que deseja? – Questionou a mulher pronta para preparar o pedido para o homem.
- Desejo um chá. São quase cinco horas e sabe o que isso significa em Inglaterra? Pois, o chá das cinco!
Joana aqueceu água e deitou-a numa chávena, colocando-lhe uma pequena parte da casca de um limão. De seguida, atravessou o balcão e colocou a chávena de chá mesmo ao pé do homem. 
- Chá de limão! Como sabia que eu gostava de coisas acidas?! Ah já sei, consegue ler-me os pensamentos! – Brincou o homem. – Sente-se Joana, por favor! Faça-me um pouco de companhia. Sabia que embora o hábito do chá das cinco seja algo tão típico dos britânicos foi criado por uma portuguesa? Foi a jovem Catarina de Bragança, filha do Rei D. João IV que introduziu esta tradição na corte inglesa quando casou com Carlos III. Interessante esta relação entre Portugal e Inglaterra! – Prosseguiu o homem, colocando Joana cada vez mais confusa sobre quem ele seria realmente. – Sabia que o mais velho tratado do mundo, o Tratado de Windsor, foi assinado entre Portugal e Inglaterra ainda no século catorze? Um marco histórico e mostra que ao longo da história Portugal e Inglaterra sempre tiveram um bom relacionamento. Por isso estou aqui, acho que este é o local perfeito para o que venho a desenvolver.
Joana esboçou um sorriso, um sorriso bastante fechado. Ainda se estava a recompor dos funerais que tinham ocorrido durante a manhã e aquele homem estava a intrigá-la, não saber a sua identidade estava a faze-la ficar com algum receio por ela, e pior, pelo seu filho. Passava-se na sua cabeça um monte de teorias para o homem estar ali no seu café, mas a que parecia mais credível era a de que quisesse levar o seu filho para saber como ele ressuscitara. Sabia que a notícia do seu filho tinha sido avançada em vários jornais, e, embora tenha sido considerada uma farsa dias depois, o homem poderia querer tirar as suas próprias conclusões. Joana agradecia todos os dias ao seu pai pelo que fez ao dizer aos jornalistas que o que se ouvia dizer sobre aquela noite no velório não passava de um delírio que algumas pessoas inventaram para que a vila fosse falada e reconhecida nacionalmente. Com os contactos que tinha na comunicação social foi fácil passar essa versão. O que Joana não queria mesmo era que o seu filho fosse rodeado de mediatismo, fazendo-lhe ficar pior do que já estava.
- Foi horrível o que aconteceu! Um acidente daqueles numa aldeia tão pequena como a vossa. Diz-se que foi um lobo que se meteu à frente do autocarro e o condutor ao tentar-se desviar caiu da ribanceira. É verdade?
- Diz-se que sim, mas raramente foram avistados lobos na região e eu ainda não tive conhecimento que apanhassem um depois do acidente! – Declarou Joana cada vez mais receosa do homem.
- Podes abrir-te comigo Joana! Eu também fui logo directo ao pedido e às minhas histórias nem me apresentei. Eu chamo-me… - O homem fez uma pausa para beber mais um pouco de chá. - … chamo-me August!
August. Joana nunca conhecera ninguém com esse nome, se o conhecera fora em criança e não tinha recordação. Olhava para a cara do homem. Não sabia porquê mas ele causava-lhe arrepios. Era um homem estranho e toda aquela conversa era assustadora de certa forma. O homem parecia conhecê-la muito bem ao passo que ela nada sabia.
- Aposto que o seu coração parou quando ouviu falar do acidente! Só de saber que o seu filho ia lá dentro. – A conversa começou a tomar um tom mais íntimo. Um tom que Joana estava a começar a não gostar. Queria apenas que o homem se fosse embora, aquilo tudo estava a assustá-la. – Como um avô podia saber tudo o que ia acontecer e mesmo assim deixar o neto embarcar naquela viagem. Questiono-me se isso não é homicídio?! Aliás, não só do neto mas de todas as pessoas, consideradas cobaias para ele!
Joana estava completamente confusa e ao mesmo tempo horrorizada com o que estava a ouvir. Aquele homem estava a falar do seu pai. Estava a dizer-lhe que ele sabia de tudo, sabia que aquilo ia acontecer.
- O que me está a querer dizer? Está a querer dizer-me que foi o meu pai a planear aquele acidente?! Que tipo de monstro é que acha que o meu pai é para matar vinte e quatro pessoas?
- Não Joana, o que eu lhe estou a dizer é que o seu pai sabia que ia acontecer algo no autocarro. Ele sabia, e ordenou, que naquele autocarro começasse o grande passo da ciência moderna, o Projecto CM. Se há algum culpado pelo acidente de autocarro esse alguém foi o seu pai! Ele e o seu colega de equipa a quem ele vendeu todos vocês. Nenhum de vocês está a salvo de experiencias cara Joana, nenhum de vocês. 
O homem pegou na sua carteira colocou uma moda de um euro junto da mão dela. Depois disso levantou-se e pegou numa bengala que trazia. Joana via o homem a coxear com o auxílio da sua bengala enquanto a sua cabeça quase que explodia, deixando as lágrimas escorrer pelo rosto.

Continua...
 Vale do Fim - Capítulo 9 (Parte 1)
Por Ricardo Reis


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