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Vale do Fim | Capítulo 8 (Parte 1)

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Capítulo 8 - Projecto CM (Parte 1)

Bucareste, 2012

Alina passeava pelos amplos jardins do convento. Adorava acordar bem cedo, quando o sol nascia, vestir o Hábito e vaguear por aqueles jardins largos. A caminhada trazia-lhe a paz necessária para que o seu dia corresse da melhor maneira. Era a noviça mais nova no convento e também a que tinha chegado há menos tempo. Sentia-se ostracizada pelas restantes freiras, principalmente pela Madre Superiora. Era muito severa com ela. Talvez por ter apenas vinte e cinco anos, ela achava que Alina não tinha vocação para o ser. À noite chorava, pensava que tudo ia ser mais fácil. Depois da morte do seu namorado nos seus braços e ter escapado à morte nesse mesmo dia, achou que o seu caminho era ao lado de Deus. Se não fosse ele, ela estaria morta, ele salvou-a quando não havia saída possível.
    
Antes do almoço as freiras juntavam-se na igreja para rezar o terço e ensaiar os cânticos para a missa da tarde. Alina chegou tarde à capela o que causou alguns olhares repreendedores de algumas das restantes freiras. Não sabia se não deveria mudar de convento, aquele mal-estar estava a deixá-la de rastos. Fechou a porta da igreja e sentou-se ao lado das restantes freiras. Quando se sentou pegou no seu terço e começaram a rezar. Enquanto rezavam olhavam para a figura de Deus pregado na cruz que se localizava no centro da capela. Alina preferia fechar os olhos, parecia que assim tinha um maior contacto com a sua divindade.
    
A grande claridade que fez de repente fez Alina olhar para trás. A porta da igreja tinha sido aberta o que a deixou a pensar. Se todas estavam sentadas naquela igreja quem poderia estar ali. Eram dois homens exactamente iguais. Era impossível para Alina distingui-los. Até os fatos que traziam vestidos eram idênticos. Tinham cerca de cinquenta anos e o cabelo grisalho. A madre superiora esboçou um sorriso quando os viu entrar mas continuou a rezar. Já a noviça não tirava os olhos dos dois homens que se sentaram nas fileiras de trás.
    
Quando terminaram de rezar o terço, a madre superiora levantou-se e seguiu até aos homens como se estivesse hipnotizada por eles. Cumprimentou-os e pelos movimentos das bocas Alina apercebia-se que eles estavam a falar mas não conseguia ouvir nada, eles estavam a falar muito baixo. Naquele momento desejava ser uma mosca só para ouvir o que discursavam. O que a Madre Superiora de um convento queria com dois homens que nunca tinham passado por ali antes. De repente um deles olhou para ela, o que a fez desviar o olhar por alguns instantes, mas um dos homens começou a caminhar na sua direcção. Esticou a mão para que ela lhe desse a sua.
    
- Vamos Alina! Temos de conversar. – Disse o homem. Ela não o conhecia mas ele parecia saber o seu nome, talvez a Madre Superiora lhe tivesse dito.
    
Deslocaram-se até ao local onde a Madre Superiora passava a maior parte dos seus dias a tratar dos assuntos relativos ao convento. Alina ainda estava espantada com a parecença entre os dois homens. Por mais que olhasse para os dois era impossível serem distinguidos. Nunca pensou que pudessem haver gémeos tão verdadeiros como aqueles que estavam ali, na mesma sala que ela.
    
- Sei que não os conheces? Pertencem à minha vida passada, a minha vida antes de ser freira. São da família! – Disse a Madre Superiora ao apresentar os dois homens de faces iguais. – Estes são o George e o August, meus primos afastados. Estão a viajar pela Roménia e decidiram fazer-me uma visita. Foi quando chegaram que te viram passear pelo jardim e disseram-me que te queriam conhecer.
    
Alina não estava a entender o que estava a acontecer naquela sala. Porque razões dois familiares da Madre Superiora iriam ter interesse numa noviça? Havia algo que lhe estava a ser omitido, isso era para ela um dado adquirido para ela. Era uma rapariga normal, tímida, andava com o seu Hábito, não estava a usar as roupas extravagantes que usara em tempos.
    
- Uma moça tão bonita como tu, de certeza que tinha muitos pretendentes! Como foste cair na asneira de vir para o convento? – Disse George. Alina não conseguia distinguir qual deles estava a falar, o timbre de voz era exactamente o mesmo.
    
- Foi uma opção! Aconteceu-me algo há pouco tempo, é um milagre estar viva. Devo a Deus ainda estar aqui neste momento. Por essa razão vou dar a minha vida a ele, como retribuição ao gesto que ele teve para comigo. – Respondeu Alina.
    
- Sensato! Mas ainda és muito nova para te entregares a Deus, tens uns vinte e cinco anos, isto não é vida para ti! Temos uma proposta para ti. Vais deixar o Hábito de lado por esta noite. Hoje vamos pagar-te o jantar e vamos apresentar-te uma proposta que não vais recusar.
    
Alina ficou reticente quanto ao convite dos gémeos. A Madre Superiora não gostava dela, seria capaz de usar a sua família para lhe fazer mal? Seria uma pessoa que apenas devia praticar o bem cair na tentação de praticar o mal? Alina já não conseguia perceber o certo e o errado. A linha era ténue. Mesmo nervosa preparou-se para o jantar. Estava constrangida com o facto das restantes noviças e freiras estarem a sussurrar enquanto olhavam para ela. Queria entregar-se a Deus, ela sentia a fé necessária, mas os seus dias no convento estavam a mostrar-lhe uma nova realidade. Em vez de se sentir em paz sentia-se cada vez mais insegura e mais triste. Ninguém parecia ser digno de se confiar. Nem mesmo naquele local. Nem mesmo num lugar onde Cristo estava sempre presente.
    
Quando chegou à porta do convento um carro preto a esperava. Nele vinham August e George. Será que serei capaz de os distinguir durante o jantar?, era a questão que mais lhe vinha à cabeça enquanto abria a porta traseira para entrar. Deslocaram-se até ao centro da cidade e estacionaram o carro no primeiro local que conseguiram.
    
O restaurante era luxuoso, nada como Alina estava habituada a ir. Sentaram-se numa mesa redonda, os dois gémeos juntos e Alina à frente deles. A rapariga não escolheu a ementa, eles escolheram por ela. Ainda olhou para o menu, mas os nomes eram tão estranhos que ela não sabia do que se tratava. Sentia-se uma inculta a olhar o cardápio. O resto do jantar correu dentro da normalidade. Os homens não lhe diziam o que queriam, estavam a ter uma conversa banal sobre como era a prima na infância e na adolescência. Alina odiava a Madre Superiora por isso não lhes estava a dar grande atenção.
    
Foi quando acabaram de jantar que os dois mudaram de tom. As suas caras apresentavam um tom sério o que assustou Alina.
- Vamos ao que nos trouxe aqui! – Declarou George. – O jantar foi agradável e gostámos da tua companhia, mas o que nos trouxe aqui foi algo mais importante que isso, chegou a altura de te fazermos a proposta!
Uma proposta? O que têm eles em mente? Será que me vão fazer mal? Será que foi a Madre Superiora que os mandou vir para me fazerem mal?, a sua mente só lhe trazia perguntas sem resposta.
George tirou do bolso um frasco laranja. Parecia a Alina conter comprimidos. No rótulo dizia “Projecto CM”.
- Queremos que sejas a nossa cobaia! – Acabou por dizer August. – Vimos o teu historial todo, sabemos que és uma alma perdida neste mundo, uma filha de ninguém. Foste abandonada num orfanato aqui em Bucareste e sempre viveste na solidão, junto das freiras. Aos teus dezasseis anos fugiste do orfanato e conheceste um rapaz, o teu verdadeiro amor, que acabaste por perder num trágico acidente há cerca de seis meses. Achaste que o melhor seria ingressares num convento, voltares ao meio em que sempre viveste, mas as coisas foram difíceis, sentiste que não pertencias aquele mundo em que as pessoas que deviam praticar apenas o bem afinal não o faziam. Elas não te entendem, mas nós entendemos Alina, nós somos o teu futuro. O teu futuro é seres o Projecto CM.
- Porque aceitaria eu ser cobaia de uma medicação criada por dois homens que eu não conheço?
- Medicação? O Projecto CM não é nenhum medicamento, é o teu futuro Alina, não o podes negar uma coisa que não pode ser negada. Foi criado propositadamente para ti depois de análises intensivas ao teu sangue.
Eles só podem estar a brincar comigo!, pensava Alina sem saber onde aquilo ia dar.
- Foste dadora muitos anos! Nós estudámos o teu sangue desde o teu nascimento, mas facilitaste-nos a vida quando decidiste tornar-te dadora de sangue quando completaste os dezoito anos. Foi aí que começámos a avançar no Projecto CM. Queríamos que ele se adaptasse a ti e não tu a ele. O frasco contem medicamentos, isso é um facto, mas isto é só em caso de te doer a cabeça. O Projecto joga demasiado com a mente, vais sentir isso. – Explicou George.
- Quem disse que iria aceitar tal coisa? – Protestou.
- Não precisas de aceitar nada, já estás dentro do Projecto CM!
Alina sentiu uma picada na perna. Conversando com George nem reparou que August tinha se baixado e injectado algo nela. Não sabia o que era, quando ele lhe mostrou a seringa ela já estava vazia.
- Tal como o meu irmão te estava a dizer, tu já és o projecto CM. O soro está injectado no teu corpo e em segundos vai chegar a todo o corpo, principalmente à tua mente. – Declarou August.
Alina levantou-se e dirigiu-se rapidamente para a porta de saída do restaurante. Corria sem rumo, estava a ficar perdida. Não queria voltar para o convento, queria desaparecer dali o mais depressa possível.
- Pára! – Gritou George.
Sem saber como as suas pernas pararam de andar. Queria continuar mas a sua mente não a deixava.
- A partir de agora eu e o August controlamos-te! Tinha medo que com tantas vozes no restaurante o primeiro timbre de voz que ouvisses não fosse o nosso. A primeira voz que ouves assim que injectado o soro passa a ter controlo total sobre a tua mente. – Declarou George fazendo-a odiá-lo.
- O carro está preparado, podem seguir caminho. Eu aguardo-vos no apartamento. – Disse August.
Alina e George entraram no carro e seguiram em direcção ao convento. O portão estava aberto, o que fez Alina ficar confusa. O portão do convento nunca estava aberto durante a noite. Mais confusa ficou quando viu a Madre Superiora no jardim.
- Vi que recebeste a mensagem do August! – Declarou George. – Ainda bem que vieste sozinha.
- Vocês não se livraram dela! Eu disse que não a queria aqui. Ficou combinado que vocês acabavam com ela e que eu poderia fugir daqui! – Contestou a Madre Superiora.
August pegou numa pistola e ordenou que Alina a fosse buscar. Alina não sabia como, não conseguia controlar os seus movimentos. Foi até ele e pegou a arma.
    
- Mata-a! – Ordenou George.
Alina ficou nervosa, tão nervosa como a Madre Superiora que ficou aterrada com a ordem de George. A sua mão apontou a arma à mulher, mas pela primeira vez desde que o soro tinha sido injectado no seu corpo ela conseguiu ser mais forte. Não era assassina, nunca tinha morto ninguém não era agora que ia matar.
- O que se está a passar aqui George? Eu confiei em ti todos estes anos, vim para este convento porque disseste que tinhas encontrado um verdadeiro objectivo para mim! Mentiste-me? – Declarou a Madre. Pela primeira vez Alina a viu chorar.
- Cala-te cabra reles! Mata-a Alina. Não tentes controlar o poder do soro, isso faz-te sentir fortes dores de cabeça, dores insuportáveis. Mata-a.
Alina continuou a tentar controlar a sua mente. Podia não gostar daquela mulher que estava ali à sua frente mas era incapaz de matar um ser humano. O soro não deveria ser mais forte que ela, nada é mais forte do que a alma de uma pessoa.
- Mata-a! Achas que ela não merece? Se eu te disser que ela é das pessoas que mais odeias no mundo? Se eu te disser que por causa dela viveste sempre num orfanato? – Declarou George.
Alina ficou confusa. O que a Madre Superiora tinha a ver com o seu passado. Ela conhecia-a há pouco mais de seis meses, nunca a tinha visto até então.
- Sabes quem é ela Alina? A grande amiga da tua mãe, aquela que a meteu na droga, aquela que a fez ser uma viciada como o teu pai era quando a conheceu. Foi ela que apresentou os teus pais. Foi ela que no dia em que a tua mãe te teve, te abandonou num orfanato porque a tua mãe não teve coragem para tal. Era uma cobarde a tua mãe. Morreu na sua própria esterqueira, uma overdose. E imagina quem estava perto dela e não a salvou? Esta senhora que se encontra à tua frente! Ainda achas que ela merece viver? Eu procurei-a durante anos para tu teres a tua vingança! Mata-a!
- Porque procuraste por ela? Porque sou tão importante para ti? Diz-me! – Ordenou Alina a George enquanto as suas mãos tremiam. Estava cada vez mais difícil controlar as suas emoções.
- És importante para mim porque… bem é curioso! O teu sangue é o único compatível com o projecto CM. E só vejo uma resposta para isso, teres o mesmo sangue que o seu criador!
- Como posso ter o mesmo sangue que o criador do soro?
- A resposta é simples Alina, és filha dele. Filha do meu irmão alucinado e drogado que criou aquilo que eu e August nunca tínhamos conseguido, um soro que controlasse a mente das pessoas. O problema dele sempre foram as drogas, ele era um génio mas perdeu-se. Tu não vais perder, se a matares vais aliviar a tua dor. Acredita em mim, acredita no teu tio!
Alina não conseguiu controlar mais a sua mente e disparou contra a cabeça da mulher, que caiu inanimada no chão. Quando largou a arma a sua cabeça latejava como nunca tinha latejado. Doía-lhe como nunca lhe tinha doído.
- Fizeste o melhor. Esta mulher não era nenhuma freira, era um ser abominável que se estava a fazer passar por uma. Mataste quem destruiu os teus pais e conheceste duas pessoas da tua família. Um dia e tanto não foi?!
   
Alina não respondeu, apenas queria que a dor de cabeça passasse.

Continua...
 Vale do Fim - Capítulo 8 (Parte 1)
Por Ricardo Reis


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