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Vale do Fim | Capítulo 7 (Parte 2)

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Capítulo 7 - A Doença de Alina (Parte 2)


Ainda não era hora de almoço quando telefonaram a Joana da escola de Miguel. Quando viu que lhe estavam a ligar ficou com o coração nas mãos. Imaginava o seu filho caído inconsciente como acontecera nos dias seguintes ao acidente. A sua angústia só piorou quando a directora da instituição de ensino lhe disse que tinha de se deslocar o mais depressa possível à escola. Quando ouviu isso não perdeu tempo em fechar o seu pequeno café que se encontrava vazio e rumar até à pequena escola primária de Vale do Fim.
  
A escola ficava perto da residência de Joana por isso não demorou tempo nenhum a chegar ao local. O seu coração disparou quando viu uma ambulância no portão da escola. Os paramédicos deslocavam uma maca para dentro da ambulância e Joana, já com as lágrimas nos olhos, correu na sua direcção para ver se era o seu menino que estava a ser transportado. Quem mais poderia ser, se não fosse não havia motivo para ser chamada com urgência.
  
Não era o seu filho. Não era o seu menino que estava a ser transportado para o hospital. Era um miúdo da idade do seu e parecia ir com a cabeça partida. O sangue na sua testa fazia Joana tirar essa conclusão. Se não era o seu filho que estava a caminho do hospital então porque razão fora chamada à escola. Esse assunto estava a intriga-la. Entrou e dirigiu-se para a sala de direcção do instituto. Bateu à porta e uma voz feminina convidou-a a entrar. Sentou-se à frente da directora da escola que começou por cumprimentá-la com um aperto de mão e um sorriso um pouco amarelo.
  
- Tive de a chamar aqui por que se passou algo muito grave esta manhã. O Miguel, bem o Miguel…
  
Porque é que ela não diz logo, está-me a deixar nervosa! Será que ele foi para o hospital antes daquele miúdo?
  
 - … o Miguel teve um ataque de raiva e agrediu um outro colega até o deixar inconsciente. Tivemos de chamar uma ambulância para o levar.
  
- Não pode ser, o meu filho é das pessoas mais calmas que eu conheço doutora. Tem mesmo a certeza que foi ele? Não acha que foi um rapaz mais velho? Eu vi o menino a ir na ambulância e parecia-me ter a cabeça partida. Acha que o meu filho tinha força para fazer tanto mal a outro colega?
  
A sua mente só a transportava para o dia anterior, quando ele levantara o sofá sozinho sem precisar de ajuda. Estou com medo do que ele pode ser capaz de fazer!, admitiu apenas para si.
  
- O seu filho estava num estado bastante alterado. Não o reconhecemos, sabemos que ele nunca foi deste tipo de atitudes para com os colegas. Colocámo-lo numa sala sozinho para que ele se acalmasse um pouco, mas se achar melhor pode levá-lo para casa. Ele passou por muito nesta última semana, o mais certo é ainda não estar apto para aqui estar. Deixe passar mais uns dias, mais um tempo para ele assimilar melhor as coisas. Eu como directora da escola não posso tolerar este tipo de comportamentos dentro deste estabelecimento, compreende isso não compreende?
   
Joana compreendeu. O comportamento que o seu filho teve com o outro colega. O que lhe fizera fora um acto bárbaro ao qual ela não sabia como reagir. Castigá-lo não ia valer de nada, a sua força não ia desaparecer por isso. Precisava de ajuda. Sabia de alguém que o podia ajudar mas não tinha o seu contacto, embora conhecesse alguém que o deveria ter. Antes de prosseguir o seu pensamento chegou à sala em que o seu filho se encontrava.
   
Miguel estava sentado no chão junto ao quadro negro que se encontrava ao fundo da sala. Estava a brincar com o giz branco quando Joana se aproximou dele. Pôs a sua mão no ombro dele e sentou-se ao pé dele. Pela expressão da sua cara parecia não se ter passado nada, o seu filho encontrava-se com a mesma serenidade de sempre.
   
- Ele disse que foi bom o meu padrinho ter morrido porque os drogados não merecem viver! Ele não podia falar assim do padrinho, não podia.
   
Joana sabia que o padrinho do seu filho andava por maus caminhos e sabia que na aldeia, como o meio pequeno que era, a maior parte sabia do que estava a acontecer. Talvez os pais do rapaz tivessem dito algo perto dele e ele acabou por deitar da boca para fora as mesmas palavras que eles. O rapaz pode ter errado, mas Miguel não agiu correctamente, longe disso, a agressão nunca foi nem nunca será a melhor maneira de resolver qualquer assunto seja ele qual for.
   
- Perdeste a razão toda quando o agrediste, filho. Tu acabaste por deixá-lo inconsciente. Não podes reagir assim, não tendo uma força além do normal. Vamos, levanta-te, eu vou levar-te até uma pessoa que pode falar contigo.
   
Joana e Miguel seguiram a pé até casa entrando de seguida no automóvel que estava estacionado em frente ao portão da sua vivenda. Foram até ao capital do concelho, mais propriamente à escola de dança em que Eva treinava. E lá estava ela, a treinar para a competição de ballet que acontecia dentro de poucos meses. Miguel não estava a entender porque se encontravam ali. Joana parecia não a querer interromper por isso deixou-a dançar até ela reparar que eles se encontravam ali.
   
- Desculpa, não te queríamos atrapalhar. Antes de tudo queria dizer-te que danças muito bem. – Começou por dizer.
   
- Obrigada! – Eva corou. – Não é todos os dias que tenho público. Está tudo bem convosco? Passa-se alguma coisa contigo Miguel?
   
- Preciso que ele fale com o Viktor, aconteceu uma coisa na escola hoje e acho que uma conversa entre eles os dois iria fazer bem. No fundo ele é quem mais sabe sobre o que está a acontecer com vocês. E pareceu-me um bom rapaz.
   
Eva cedeu rapidamente o número do jovem cientista e Joana ligou de imediato para o rapaz que se encontrava no laboratório. Combinaram encontrar-se no café de Joana um pouco depois da hora de almoço para os três conversarem. E como combinado o jovem cientista apareceu e Joana fechou a porta do café para que estivessem mais à vontade. Não era um assunto para ser debatido em praça pública. Era um assunto que deveria ser abordado em sigilo.
   
- Então Miguel, conta-me lá o que se passou! Tens-te sentido mal, é isso? Voltaste a ficar inconsciente?
   
- Não Viktor, ele hoje agrediu um colega dele. Agrediu-o com tanta força que ele acabou por ficar inconsciente.
   
- Então campeão? Que se passa contigo. Tens de saber controlar a tua raiva! Não podes entrar assim a matar com os teus amiguinhos da escola.
   
- Ele chamou o meu padrinho de drogado! O meu padrinho não era um drogado. Ele mereceu a sova que lhe dei. – Justificou-se Miguel.
   
Viktor olhou para Joana que apresentava um ar preocupado em relação a tudo aquilo que estava a acontecer. Se não tivesse alguém para apoiá-lo a sua vida não iria ser fácil. Poucos são os miúdos na idade dele que têm de lidar com tamanha responsabilidade. Se antes do acidente soubesse o que ia acontecer nunca o teria deixado entrar naquele autocarro. O padrinho dele insistira tanto e o seu pai, Joaquim, também disse que era uma boa oportunidade para o seu neto conhecer a Serra.
   
- Sabes, Miguel, és um caso curioso. Quando todos pensavam que tinhas morrido tu conseguiste voltar à vida. Não aconteceu isso com mais ninguém, já se passou uma semana e mais nenhum voltou do seu sono profundo. Sabes o que isso faz de ti? O miúdo especial que acordou quando ninguém pensava que o fizesse. E além disso tens algo que os outros não têm, tens força, mais força que um adulto. Não deves usar essa força para fazeres mal aos teus amigos. Eu estarei aqui para te ajudar a controlar a tua força, a ajudar-te a controlar a tua raiva e a fazer com que tenhas uma vida o mais normal possível.
  
- Podes ir lá para cima! – Pediu Joana.
  
 Miguel obedeceu à mãe e subiu as escadas que ligavam o café à sua casa. Quando o rapaz trancou a porta, Joana agarrou-se a Viktor. Abraçou-o com força. Não sabia por que o abraçava, conhecia-o apenas há um dia, mas o rapaz inspirava-lhe confiança. Não conhecia mais nenhum dos elementos do grupo PastFuture, mas nem todos deviam ser como ele. Ele parecia ser um rapaz correcto, que se preocupava com o bem-estar dos seis sobreviventes ao acidente do autocarro. Largou-o e enxugou as suas lágrimas à camisola que trazia vestida.
   
- Têm de desenvolver um antídoto. Vocês têm de os pôr normais novamente. Não é vida nem para eles nem para aqueles que têm de conviver e passar o tempo precioso a vê-los ou a ouvi-los. Eu só quero o meu filho de volta Viktor. Só quero o meu menino calmo e sereno de volta, não quero que ele parta vidros só de chutar uma bola, não quero que ele corra rápido, não quero que ele se regenere se se cortar. Tudo o que eu quero é que ele tenha uma vida normal. Não peço muito pois não?
   
Viktor esboçou um sorriso. Joana olhou-o e sorriu também. Sabia que o antídoto poderia demorar a aparecer, mas que eles o iriam conseguir, não tinha dúvidas.
   
- O August está a um passo de conseguir cumprir o seu principal objectivo do projecto MG, depois disso acredito que o foco da equipa seja a cura. E acredita, quando a tivermos o teu filho será o primeiro a recebê-la. – Conforta-a o jovem cientista.
  
Joana mordeu o lábio. Mordia-o sempre que estava preocupada ou quando sentia curiosidade extrema por um assunto. Queria muito saber o que movia August em ter deitado um soro num autocarro e transformar os seus ocupantes em cobaias. Devia ser algo muito importante para jogar um jogo tão perigoso, principalmente com uma criança dentro do autocarro. Não perguntou ao rapaz o objectivo, não tinha coragem para tal, talvez um dia ficasse a saber. Aliás, também lhe passou pela cabeça que o rapaz também pudesse não saber o verdadeiro objectivo.
   
- Bem, combinei ir ter com a Eva depois dela treinar ballet e pelas horas que são ela deve estar mesmo mesmo a terminar. Já sabes, se o Miguel precisar de alguém para falar, tens o meu número, eu estarei aqui para o ajudar.
  
Quando Viktor saiu do café Joana estava mais aliviada.

Continua...
 Vale do Fim - Capítulo 7 (Parte 2)
Por Ricardo Reis

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