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Vale do Fim | Capítulo 10 (Parte 2)

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Capítulo 10 - Confissões (Parte 2)


Joana passou a noite em claro. Desde o momento em que o sexagenário saiu do café a coxear que só pensava em confrontar o seu pai. Na sua cabeça só surgia uma questão, como ele fora capaz de deixar o seu neto entrar no autocarro sabendo do que iria acontecer lá? Como conseguiu ser tão frio em relação à pessoa que ela julgara que mais amava. Ele sempre cuidara do neto, Miguel sempre era a sua prioridade, como podia ele tê-lo colocado no meio daquela tragédia.
            Levantou-se e acordou Miguel para ele se preparar para ir para a escola. Depois do funeral do seu padrinho o menino parecia mais calmo, mesmo assim, quando o fosse deixar na escola iria falar com a professora responsável pela sua turma para estar atenta ao comportamento do rapaz. Não queria que ele agredisse mais ninguém, não queria ter um revoltado em casa, apenas queria ter o seu menino de volta. Aquele que era amável, simpático e generoso com toda a gente. Aquele que as pessoas gostavam de cumprimentar. Desde o acidente que Miguel se tornara numa criança reservada e problemática. O sorriso que sempre tinha no rosto agora estava quase sempre ausente. Joana queria fazer alguma coisa mas não sabia o quê. A conversa que ele teve com Viktor ajudara, mas ele precisava de uma ajuda maior, um psicólogo talvez, mas isso era uma hipótese que não se poderia equacionar. Eles não poderiam contar que eram alvos de uma experiencia, mesmo com sigilo profissional o psicólogo iria contar a alguém. Isso deixava Joana impotente e cada vez mais com um sentimento de raiva em relação ao pai.
            Quando tudo estava resolvido na escola foi para o seu carro. Sentou-se mas não o ligou. Ficou a pensar. A pensar no que haveria de fazer. A pensar se haveria de ir até ao escritório do seu pai que ficava a cerca de quinze quilómetros dali e confrontá-lo com as palavras que o velho lhe dissera na tarde anterior ou ir para o seu café e viver a vida como se nada soubesse. Olhava para o espelho retrovisor e olhava para a sua cara. As olheiras começavam a notar-se nitidamente. Não dormia uma noite descansada desde que o acidente ocorrera. O acidente que o pai dela provocara sem querer saber se o neto ia lá dentro ou não. Sentia raiva. Rancor ao seu pai, não tinha escolha a sua mente só dizia para o confrontar. E foi o que fez.
            Ligou o seu carro e seguiu até à sede do concelho. Estacionou o carro até à câmara municipal da qual o seu pai era presidente há cerca de três anos e seguiu a calçada até à entrada. A câmara era um estabelecimento muito humilde, não tão majestoso como alguns edifícios políticos que via noutras vilas e cidades de maior valor para o património nacional, mas Joana gostava assim. Lembrava-se daquele prédio desde que tinha memória. O seu pai sempre tivera o desejo de poder pertencer um dia ali. Ele queria construir um concelho melhor que tornasse as aldeias periféricas mais activas em prol do crescimento económico e bem-estar da população. O seu pai era um ídolo para ela, sempre o fora, até o dia anterior. Como aquele homem que praticara o bem a qualquer pessoa que necessitasse estava por detrás do maior horror que ela vivenciara. Tentou ser forte naquele momento para conter as lágrimas, não queria que ele a visse chorar. Queria que ele a visse revoltada, era o seu estado de espírito e era isso que queria que ele observasse.
            Subiu as escadas do edifício e dirigiu-se ao gabinete. Ouviu Lígia dizer que não poderia entrar no escritório de Joaquim pois ele estava ocupado numa reunião, mas ficou indiferente e abriu a porta. A secretária ainda correu atrás dela mas era tarde demais, não conseguiu contê-la.
            - Peço desculpa senhor Joaquim, não consegui pará-la! – Desculpou-se a rapariga ao ver os dois homens olharem para ela e Joana.
            Joana ficou petrificada. Era ele, o homem da bengala, o homem que contara tudo sobre o seu pai. Estava ali sentado à frente dele, numa suposta reunião.
            - Você?! Você foi quem ajudou o meu pai a matar aquelas pessoas todas?! Seu grande cabrão! E ainda tem o descaramento de ir até ao meu café e me contar tudo, dizer o que ele fez, quando você também ajudou à festa?!
            - Deve haver aqui algum equívoco! Eu só ouvi falar de ti e vi algumas fotos, nunca falei contigo, nunca me dirigi ao teu café! – August estava tão surpreso quanto ela.
            - Lígia, deixe-nos a sós por favor! – Pediu Joaquim à secretária que obedeceu fechando a porta e deixando os três sozinhos.
            Joana não se conseguiu conter e mal Lígia fechou a porta ela começou a gritar, fazendo graves acusações. Ficou admirada com o facto daquele homem se encontrar à sua frente não trazer uma bengala.
            - Deixou a bengala em casa ou afinal não é manco? – Disparou Joana.
            August levantou-se e dirigiu-se até ela. Ela ficou com receio do que ele lhe podia fazer. Achava-o uma pessoa perigosa, se inventou que era coxo podia fazer-lhe qualquer coisa.
            - Como podes ver eu tenho a perna saudável! – Disse August virando-se de seguida para Joana. – Foi o George, ele deve estar aqui em Vale do Fim. Tenho de ligar para o Artur, ele tem de o apanhar, se ele estava aqui ontem o seu esconderijo não pode ser longe.
            O Artur sabia? O seu mundo tornara a desabar com aquela declaração do homem. O Artur, um dos homens com quem mais convivera durante toda a sua vida sabia que o autocarro não tinha caído por acaso, talvez até soubesse que o seu pai estava por detrás do acidente.
            Quando August saiu com o telemóvel na mão para tentar contactar Artur, Joaquim pediu a Joana que se sentasse. A conversa iria ser longa, o seu pai tinha muito que lhe explicar.
            - Aquilo não era para ter acontecido Joana! O acidente… nunca imaginámos que ele podia acontecer. Eu sei que é difícil entenderes isso mas eu só queria o bem para o meu neto! – Começou por dizer Joaquim.
            - O bem para o teu neto?! Fazendo dele uma cobaia de um cientista maluco qualquer? Achas que vivemos num filme de ficção científica em que o teu neto iria sair daí a salvar pessoas como um super herói de uma banda desenhada? – Joana estava cada vez mais revoltada.
            - Não Joana, mas queria que ele fosse o pai da nova espécie! Da nova raça humana. O projecto CM, embora eu não saiba praticamente nada sobre ele, é apenas um estágio de algo maior, algo que o August vem a planear desde a sua juventude. Sabes o que ele me estava a contar antes de tu chegares aqui? Que o sonho dele e do irmão era criarem uma nova raça, com um novo adn, com habilidades que um simples mortal não tinha. E estavam a um passo de consegui-lo quando ele descobriu que o irmão dele o traíra. O seu irmão gémeo.
            Agora as coisas começavam a fazer sentido na cabeça de Joana. Havia dois homens iguais. O que estava no café era irmão daquele que saíra daquele gabinete aflito para falar com Artur. Continuou a ouvir o discurso do pai, mas não entendia a razão para ele ter feito uma coisa daquelas com a população que ele sempre cuidara, e pior, com o seu neto.
            - Escondes-me algo! – Declarou Joana, olhando nos olhos do pai. – Há algo que me estás a esconder! Tenho a certeza que o August não apareceu aqui e te fez esta proposta e tu a aceitaste do dia para a noite! Não, eu quero a verdade, diz-me, quando conheceste este homem.
            - Há três anos! Um pouco antes de tomar posse da presidência do concelho. – Estávamos em plena campanha eleitoral quando um dia, em um dos comícios ele me abordou. Disse que sabia como me colocar presidente. As pessoas eram obcecadas pelo Lourenço, eu não teria hipóteses.
            Joana ficou chocada. Como é que o pai poderia descer tão baixo para ocupar um lugar na presidência do concelho. Ele amava aquelas pessoas, ela sabia que sim, mas daí a jogar sujo para conseguir o cargo era algo que não estava no pensamento dela. Não era ético. Mesmo assim aguentou para não sair pela porta fora e ouviu tudo o que o seu pai tinha para dizer.
            - O August sabia dos desvios de dinheiro que Lourenço andava a fazer nos últimos meses da presidência. Então confrontámo-lo com isso. Ele desapareceu poucos dias depois sem deixar rasto, deixando até a mulher e o filho sem saber o seu paradeiro. Não sei o que ele fez com o dinheiro mas provavelmente usou-o para negócios escuros. Eu fiz um bem à população, livrar os habitantes do concelho e, em especial, de Vale do Fim foi a maior bênção que eles poderiam receber.
            - Mas isso teve um custo! Todos os favores são feitos quando se quer algo em troca! – Deitou Joana para o ar.
            - O August desapareceu durante um ano e meio. Apareceu aqui no escritório quando eu menos esperava a dizer que precisava de um lugar para começar uma experiencia que iria mudar o mundo. Eu neguei-lhe, não queria que ele fizesse experiências aqui na terra, mas é claro que ele confrontou-me. Ameaçou de contar a verdade sobre o que se andava a passar e de como ganhei as eleições. Eu fui obrigado a tornar todos cobaias! Eu não podia fazer nada. – Joaquim pareceu sincero nas suas palavras mas mesmo assim Joana continuava sentida com tudo aquilo.
            - Isso não perdoa nada do que aconteceu com aquele autocarro. Tu sabias que eles iam fazer algo mesmo que não houvesse o acidente e não impediste o teu neto de ir lá dentro. Esquece-nos, esquece-nos p… Joaquim!
            Levantou-se e saiu da sala, não estava para ouvir mais nenhum tipo de justificações. Nenhuma acção justificava aquilo que o seu pai acabou por fazer com o filho. Ele iria ser sempre diferente das outras crianças, ia crescer revoltado por não poder correr sem ser a grande velocidade, mesmo que conseguisse controlar isso não iria ser a mesma coisa. Nunca mais iria ser a criança que conhecera e lembrar isso só a fazia sentir um aperto no seu coração. Quando ia a sair para o seu carro observou August. Naquele momento seria capaz de cometer uma loucura, mas não conseguia, ela não era assim, ela não fazia mal a ninguém.
 


Continua...
 Vale do Fim - Capítulo 10
Por Ricardo Reis

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