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Vale do Fim | Capítulo 10 (Parte 1)

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Capítulo 10 - Confissões (Parte 1)


Ainda o céu clareava quando Artur meteu a chave na ignição e se pôs a caminho da esquadra. Era o primeiro dia que ia trabalhar com o seu novo colega de equipa, Joel. Queria chegar primeiro para conseguir causar boa impressão. Costumava entrar mais tarde, mas naquele dia queria ir bem cedo para avançar com alguns relatórios que tinha para ler.
            Quando chegou o parque ao lado da esquadra estava praticamente vazio, apenas os carros dos polícias que estiveram a fazer o turno da noite. Ao olhar com mais atenção apercebeu-se de um carro que não conhecia. Como vivia num meio pequeno era fácil saber de quem eram os carros que estacionavam ali todos os dias. Além disso era um parque reservado à esquadra de polícia da sede do concelho a que Vale do Fim pertencia. Artur deduziu que fosse de um turista que tivesse causado algum distúrbio na vila. Não era incomum isso acontecer, embora a frequência fosse muito reduzida. Entrou na esquadra, saudando o polícia que se encontrava na secretaria e rumou até ao seu gabinete.
            - Estava à tua espera! – Saudou Joel.
            Mas será que dormiu aqui?, questionou-se Artur ao vê-lo sentado na sua secretária, agora do seu colega de equipa também.
            - Estive a ver o que tinhas colectado até aqui. Muito poucas informações. Sei que tem sido uma semana difícil para ti, se quiseres tirar uns dias de baixa acredito que o delegado iria compreender. Estás a passar por uma fase difícil. De certeza que aquele acidente te afectou bastante psicologicamente. Devias descansar.
            - Estou muito bem, não preciso de descanso. Preciso apenas de encontrar o responsável pelo acidente. Se foi um lobo ele estará aqui. Um animal desses não desaparece assim de um momento para o outro. – Declarou Artur. Sabia muito bem que o causador daquele acidente tinha sido um homem chamado George, pelo menos era o que August lhe dizia, mas não queria dar essa informação a Joel. Não o conhecia, não tinha confiança com ele para dar uma afirmação tão importante como aquela.
            - Bem visto que estás bem, então vamos ao que interessa! – Joel levantou-se da cadeira onde estava sentado e vestiu o seu casaco que já possuía um distintivo. – Segue-me.
            Joel ia à frente, Artur atrás. Caminharam até à saída da esquadra e dirigiram-se para o carro que ele não conhecia. Era o carro de Joel. Agora fazia sentido. O seu novo colega ligou o carro e foram os dois embora. Para onde iam era uma incógnita para Artur.
            - Bem o local não está no GPS por isso se me enganar não me leves a mal. – Disse-lhe, deixando a perceber o mesmo que percebera quando entrara no carro, nada.
            Joel saiu da sede do concelho e deslocou-se para Vale do Fim, mais propriamente na fronteira entre a aldeia e a vila. Entrou num caminho de terra batida. Agora as coisas começavam a compor-se na cabeça de Artur. O local onde iam não estava sinalizado no GPS porque não tinha estradas. O local para onde se deslocavam era o local do acidente, o local onde tudo acontecera.
            - Eu disse que me ia perder! – Disse Joel quando nunca mais chegavam ao destino. Artur também não conseguia ajudar, tudo o que via era só árvores, grandes pinheiros que se encontravam ali plantados há dezenas e dezenas de anos.
            - Tens de te seguir pela colina! Se queres chegar ao local onde ocorreu o acidente é na direcção da colina. Não deve haver estradas para lá, é um sitio de muito difícil acesso. O INEM teve de actuar de longe, levou as macas e trouxe-nos até às ambulâncias a pé.
            Joel seguiu o conselho de Artur e parou o carro. Os dois saíram do veículo e caminharam em direcção à colina. Caminharam mais de vinte minutos até chegarem ao local. Os destroços do autocarro ainda se encontravam lá, fazendo Artur recordar os momentos de aflição que vivera na semana anterior. Ainda parecia ver a maior parte das pessoas inanimadas e as outras quatro a gritarem por socorro e cheias de medo. Era difícil para ele estar ali, naquele local, no local em que passara o pior momento da sua vida.
            - Eu percebo que seja difícil regressares a este local, deve ser sufocante voltares aqui e veres este cenário novamente. – Joel quebrou o silêncio ao vê-lo olhar pensativo para o autocarro.
            - Está tudo bem! – Respondeu-lhe. – Eu queria tanto fugir deste sítio que nunca pensei que seria o local ideal para tentar compreender o que se passou.
            - Isso mesmo! Ouvem-se relatos que foi um animal que provocou o acidente, mas e se foi algo relacionado com o autocarro? Se tudo isto não teve nenhum erro humano mas sim um problema mecânico? Eu sei que a polícia local não está preparada para um acidente desta dimensão, e, por alguma razão que desconheço este assunto foi quase abafado. Tanto a comunicação social como a polícia, parece que ninguém quer que as pessoas saibam o que aconteceu aqui. Até os funerais. Porque não se realizaram logo no dia seguinte? Esperaram uma semana para quê? Esperavam que os corpos ganhassem vida nesse tempo?
            Ao ouvi-lo Artur percebeu que ele não sabia de quase nada. Não sabia do que tinha acontecido com o pequeno Miguel. Não sabia da sua ressurreição. Isso deixava-o mais confortável. Se ele não sabia, a maior parte da população planetária também não tinha conhecimento do que ali se passara e assim não iria haver problemas maiores tanto para o rapaz como para eles. Todos eles, mas em especial Miguel e Edgar, não precisavam de mais problemas, aquele que tinham já era bem grande e, até onde tinham conhecimento, impossível de resolver.
            Continuaram a observar os destroços do autocarro. Artur via pela expressão da cara de Joel a frustração que ele estava a sentir naquele momento. Não conseguiam apurar nada, não havia nada nos destroços que indicassem que tivesse sido erro humano do motorista ou erro mecânico. A parte da frente da camioneta estava completamente destruída, era impossível tirar dali conclusões. Artur sentiu-se mal e arrepiado ao ver pedaços de carne ainda pegados ao banco do condutor. O tronco da árvore que embateram após a queda entrou pelo vidro e perfurou-lhe todo o corpo. Os bombeiros conseguiram tirar a maior parte mas era obvio que iriam ficar vestígios. Vestígios do condutor e de alguns dos que seguiam nos bancos da frente.
            Saíram da mesma maneira com que entraram, sem nada que pudesse levar a uma conclusão. O soro, esse também se evaporara do ar do autocarro, mas desse pormenor Joel não sabia. Do que também não sabia era do seu carro. Nenhum dos dois sabia. Para chegar aos destroços do autocarro seguiram o penhasco, para lá era mais complicado, o ambiente parecia todo igual. Só viam pinheiros à frente deles, era impossível encontrarem o caminho de volta.
            - O Hansel era esperto, deitava migalhas de pão para saber o caminho de volta para casa. Nós fomos burros nesse aspecto. – Declarou Joel, brincando um pouco com a situação que estava a ficar tensa.
            - Não foi tão esperto assim, os pássaros comeram-lhe as migalhas e ele perdeu-se mais a irmã e acabaram na casa de uma bruxa. – Constatou Artur.
            - Bem por aqui não há bruxas pois não?
            - Não uma que tenha uma casa de chocolate! – Disse por fim Artur.
            A conversa prosseguiu enquanto os dois andavam às voltas pelo meio dos pinheiros. Andaram às voltas durante algum tempo mas estavam a começar a achar uma direcção, pelo menos era o que achavam. Até que acharam algo que os petrificou. Viram um animal caído na terra. Um animal estranho. Artur nunca tinha visto um lobo tão grande na sua vida. Era cinzento e os seus olhos estavam bem abertos, embora vazios.
            - Está morto! – Constatou Joel. – E pela grande abertura que tem na barriga foi cortado. Alguém o matou.
            - Afinal o lobo existia! – Declarou Artur com um ar de espanto.
            - Outra coisa que não entendo, foram os populares que declararam ter ouvido uns uivos de um lobo na noite do acidente por isso a culpa sempre foi dada a ele, mas vocês estavam no autocarro, como não sabem se foi isso que fez o motorista se desviar até à ribanceira?
            Artur ficou atrapalhado com a questão. Não podia contar nada sobre o soro do veneno de cobra e crocodilo, não podia dizer-lhe. Joel aparentava ser uma pessoa do bem, bem-intencionada na sua investigação mas não podia atirá-lo já para aquele que era o maior mistério da sua vida. Além disso August não deveria ser apologista dessa ideia. Artur fazia parte daquilo tudo, se não confiasse nele e não o ajudasse, não poderia saber mais sobre o que lhe tinham feito, era obvio que ele precisava de eliminar o seu irmão gémeo. Fazê-lo ir à justiça pelo crime que cometera. O problema é que não havia provas nem evidências do paradeiro de George. Artur não podia bombardeá-lo com aquela informação. Enquanto estivessem a investigar os dois ele estava de mãos e pés atados, teria de investigar sozinho sobre o resto.
            - Que achas que devemos fazer? – Joel pediu-lhe conselhos acerca do que fariam com o lobo. – Tens rede no telemóvel?
            - Sim, embora o sinal esteja bastante fraco apanho!
            - Liga para os nossos colegas, pede reforços para nos virem buscar e levar o lobo. Precisamos saber se ele foi morto, um perito deve-nos ajudar.
            Artur seguiu o conselho do companheiro de investigação e ligou para a esquadra. Não conseguiu encontrar o local exacto em que se encontrava pois estava perdido mas o sinal de GPS do seu telemóvel iria ajudá-los a encontrá-los. Quando desligou a chamada Joel voltou a quebrar o silêncio.
            - Encontrámos o lobo, o caso está encerrado!
            Artur não compreendeu, estava a escapar-lhe alguma coisa.
            - O caso está encerrado! Os habitantes vão saber que encontrámos o lobo e nós iremos dizer que ele foi abatido por nós como forma de defesa.
            Artur apenas ouvia o seu raciocínio. Estava a começar a entender porque razão ele fora escolhido pela polícia da capital para investigar o caso. Ele era um perito no assunto, um génio que não vivia numa lâmpada nem concedia desejos, apenas dava descanso à população que vivia em aflição não sabendo a razão para os seus entes queridos terem partido de forma tão dramática.
            - A investigação assim prosseguirá mais calmamente. Tenho a certeza que este lobo foi morto, a barriga dele foi cortada. Temos de investigar quem fez isto!
            Artur estava de acordo e sabia bem o que se estava a passar. George, ou alguém a mando dele tinham morto o pobre lobo depois dele ter servido o seu propósito. Agora tinha a certeza.
            Algumas horas passaram. Joel e Artur não sabiam bem como lidar com tudo o que estava por detrás do incidente com o lobo. Depois de almoçarem, sentaram-se os dois a tentar entender quem teria levado um lobo para ali, já que nunca se tinha ouvido falar de lobos por aquela região. Artur nunca mencionou os nomes de George e de August. A conversação foi interrompida pelo vibrar do telemóvel de Artur. Era Alina que lhe estava a mandar mensagem. Só aí é que se lembrara que era naquela tarde que os dois iriam até ao barracão para falar com August. Era a oportunidade perfeita para o pôr ao corrente do assunto do lobo. August tinha o direito de saber o que se estava a passar. Despediu-se de Joel e foi ter com a rapariga.
            Juntos foram para o barracão. O mesmo barracão que lhe metia medo em menino era agora um laboratório onde se realizavam as mais diversas experiências. Entraram e foram directos para o escritório de August onde ele já os aguardava. O cientista cumprimentou-o com um aperto de mão e convidou-os a sentar nas duas cadeiras que haviam mesmo à sua frente.
            - Ainda bem que vieste Artur! Acho que temos algumas coisas para conversar. Acho que tens de compreender quem é na verdade o teu inimigo!
            - Quando vi o frasco com os comprimidos da Alina achei difícil confiar em si! Acredito neste momento que devemos ficar reticentes quando não conhecemos bem uma pessoa.
            - A Alina contou-te o que o George lhe mandou fazer na noite que ela nos conheceu? Claro que contou, a forma cruel como a mandou matar aquela mulher que se fazia passar por uma madre superiora! Se ela continuasse com ele sabe-se lá o que poderia estar a fazer agora. Aliás, presumo o que estivesse a fazer, mas isso são assuntos que poderemos abordar mais para a frente.
            A conversa prosseguiu e August contou vários pormenores que ele não sabia, outros que confirmavam as palavras ditas por Alina. Ele já a tinha perdoado por ter omitido uma parte tão importante da sua vida. Tal como tinha concluído quando soube, e isso ainda o deixava magoado, é que Alina foi aliciada por o velho cientista a envolver-se com ele, fazia tudo parte de um plano que August dizia que iria explicar mas até àquele momento nada disse. Artur estava curioso com o que queria tanto dos dois mas se ele não contasse não iria exigir explicações, estava cansado de se surpreender a cada dia que passava, preferia ficar na sua ignorância a ser abalado mais uma vez.
            Quando estavam prestes a acabar a conversa bateram à porta. Era Viktor. Vinha com o mesmo sorriso de sempre. Trazia consigo uns papéis, deveriam ser alguns relatórios para August, pelo menos foi o que pareceu a Artur.
            - Ainda bem que ainda aqui estão! – Disse Viktor. – Alina, podes vir comigo até ali ao meu laboratório, preciso de uma confirmação acerca da análise ao sangue que fizeste na semana passada.
            Alina foi com Viktor deixando Artur e August juntos no laboratório. Artur sentia-se assim mais à vontade para debater um assunto com o velho:
            - Encontrámos o lobo! Ele estava morto na floresta, alguém o matou! Eu vou descobrir mais sobre o assunto, quando souber mais você vai ser o primeiro a saber. – Declarou, deixando August preplexo.
            - Também queria dizer-te uma coisa que aconteceu esta manhã, tentei ligar-te mas não conseguia entrar em contacto contigo! Não disse nada à frente da Alina para não a preocupar, mas o George está em Vale do Fim, ele falou com a Joana, fez ela virar-se contra o pai. Temos de agir Artur! Além disso há outra coisa que temos de debater!
 


Continua...
 Vale do Fim - Capítulo 10
Por Ricardo Reis

Vale do Fim | Capítulo 10 (Parte 1) Reviewed by Fantastic on 22:33:00 Rating: 5

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