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[Cinema] A Canção de Lisboa | Crítica


O remake de A Canção de Lisboa, escrito e realizado por Pedro Varela, estreou no dia 14 de julho de 2016. Mais de 80 anos depois da estreia do filme original, regressa assim às salas de cinema a história de amor entre Vasco e Alice, e encerra-se uma trilogia intitulada de Novos Clássicos.

A qualidade narrativa dos remakes foi crescendo desde O Pátio das Cantigas, que foi o filme português mais visto de sempre no cinema (com mais de 600 mil espetadores), mas que deixou muito a desejar no que toca à qualidade. Seguiu-se o Leão da Estrela, com valores de audiência mais baixos, mas com um argumento mais coeso e bem conseguido. Desta vez, uma das grandes vantagens de A Canção de Lisboa foi o facto de este filme ser aquele que mais se afasta do original. 

A nova versão de A Canção de Lisboa tem em comum com o original a intriga inicial e as personagens centrais. Na história, Vasco, um rapaz que já reprovou várias vezes no exame oral de medicina, mente às tias, dizendo-lhes que já é médico, e tem de as receber em Lisboa, quando elas vêm para visitar o consultório do sobrinho e este tem de resolver o imbróglio. Ao mesmo tempo surge Alice, a apaixonada de Vasco e cujo pai rapidamente se interessa pelo eterno estudante, graças à fortuna das tias. Para além disto, quase tudo o que vemos no ecrã não está diretamente relacionado com o original.


César Mourão e Luana Martau são os protagonistas de A Canção de Lisboa. O ator que interpreta Vasco supera o papel que interpretou em O Pátio das Cantigas e, desta vez, vemo-lo na sua plenitude enquanto ator e cantor. Enquanto isso, Luana Martau, desconhecida do público português, conquista a plateia com a sua genuinidade, simpatia e beleza, juntando-se a César Mourão num dueto magnífico na música Será Amor.

Desta vez, Alice é brasileira e filha da personagem interpretada por Miguel Guilherme – que passa de alfaiate a candidato a primeiro-ministro. Os três atores cumprem o seu papel e acabam por ser responsáveis pelo melhor leque de protagonistas dos três filmes. Miguel Guilherme confirma-se como um dos melhores atores em Portugal, com uma personagem que facilmente passa do drama à comédia e, desta vez, sem grandes estereótipos e exageros – aquele que foi um dos maiores erros do primeiro remake.


A banda sonora do filme, que conta com três temas originais de Miguel Araújo, é outro dos grandes destaques. A escolha do cantor e compositor foi a mais acertada e a sequência final, onde ouvimos a música, acaba por ser uma das mais bem conseguidas de todo o filme.

Destaque ainda para o grande flashback em que a personagem Vasco recorda a forma como conheceu Luana, resultando quase como uma curta-metragem independente – um filme dentro de outro filme. Esta sequência é, possivelmente, a melhor deste remake, no que diz respeito à coerência narrativa e visual.


Do elenco fazem ainda parte Maria Vieira e São José Lapa, as tias de Vasco, que nesta versão não são irmãs, mas sim um casal. Também Carla Vasconcelos e Dinarte Freitas se juntam ao elenco, interpretando duas personagens cómicas que prometem conquistar as gargalhadas do público e até Ruy de Carvalho faz parte da história, no papel de um professor universitário.

Podemos dizer que A Canção de Lisboa é o melhor dos três filmes e aquele que mais se aproxima de uma narrativa clássica. Com princípio, meio e fim, é o filme que tem também a história mais interessante. A componente musical do original mantém-se, mas desta vez adaptada à realidade atual.


A ideia de apostar nestes Novos Clássicos pode não ter sido a melhor, pois os clássicos originais são icónicos e foram produzidos num determinado contexto temporal. Partir de uma matéria-prima tão bem feita à época e adaptá-la para a realidade atual não resultou tão bem como era esperado. Ainda assim, com A Canção de Lisboa a trilogia encerra da melhor forma, redimindo-se com uma história coesa e divertida, em que as piadas fáceis estão presentes, mas não dominam o guião. 

O filme supera os antecessores, mas deixa a sensação de que falta algo mais a esta ideia de adaptar os clássicos do cinema português para os tempos modernos. Ainda assim, o sucesso parece estar garantido. No primeiro fim-de-semana, a película conquistou 34.345 espetadores e, embora fique longe dos 80.000 espetadores alcançados por O Pátio das Cantigas no mesmo período, A Canção de Lisboa promete trazer ainda mais portugueses às salas de cinema e tornar-se um dos filmes nacionais mais vistos do ano.

A Canção de Lisboa - Crítica de Cinema
Escrito por André Pereira
Revisão por André Rosa

Fotografias: Tiago Soares

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